Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Processo de arte com vagões abandonados

Situação problemática na Mooca será debatida com criação de obra na região

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2011 | 00h00

"Esse espaço é um limbo, de interstício entre uma coisa e outra. E sendo um limbo, tudo o que está nele também é", diz Nelson Brissac Peixoto, professor da PUC-SP, doutor em filosofia e, mais ainda, o criador do projeto Arte/Cidade (leia mais abaixo), que se tornou um marco em se tratando da questão de intervenção artística no espaço urbano.

No caso, sua fala se refere aos trens estagnados e sem uso abrigados em uma extensão da antiga Estação da Mooca. Entre agosto e setembro, cerca de 30 daqueles vagões serão o material de uma operação complexa, do projeto Um Canteiro, concebido por Brissac em parceria com o escultor José Resende. Como a ação artística e experimental vai lidar com questões de equilíbrio e peso (toneladas de aço, uso de guindastes), eles convidaram a engenheira Heloisa Maringoni a entrar nessa empreitada. E ela aceitou, achou a ideia "apaixonante".

"Essa sucata está abandonada porque não deve ser rentável ao governo", adianta Resende. "Esse bairro está sofrendo uma mudança enorme, de especulação imobiliária", continua o escultor, que aderiu ao projeto, como diz, não para "pegar uma coisa e fazer uma obra de arte", mas "pensar o que é possível ser feito" com os resíduos urbanos. "A cidade vai deixando esses vazios e, por outro lado, essa região é fundamental na reestruturação industrial de São Paulo já que ela faz a ligação com o Porto de Santos e precisa ser modernizada", garante Brissac.

Essas são as bases conceituais de Um Canteiro, "desdobramento mais sofisticado do Arte/Cidade", define Brissac, que ganhou, por meio de edital da Prefeitura de São Paulo, verba de R$ 200 mil. É pouco para uma intervenção grandiosa como a que se pretende, na qual o artista e a engenheira vão realizar operações diversas com os vagões como cortá-los, incliná-los, movê-los - e possivelmente, utilizar até areia como material de ordem plástica em uma ação que mistura técnica e estética. A verba do edital foi pequena, mas ela dá "aval público" para Um Canteiro ocorrer, ressalta Brissac.

Sendo assim, o curador teve também de fazer uma série de negociações, desde fevereiro, e parcerias para a concretização do projeto. Como ele conta, foi difícil, primeiramente, descobrir a quem pertenciam os vagões. "Descobrimos que são o antigo espólio da rede ferroviária federal", afirma Brissac. Ele lembra que, a partir dessa informação, foi preciso negociar com a MRS Logística (concessionária que controla a malha sudeste da rede federal, que também vai fornecer equipamentos) e com a CPTM, operadora dos trens de passageiros - que, afinal, terão, na época, uma "visão cinematográfica" do processo.

Mais ainda, Um Canteiro só vai se concretizar porque a empresa proprietária dos galpões da antiga Estação da Mooca, tombados pelo Conpresp (órgão municipal do Patrimônio Histórico) e localizados na Rua Borges de Figueiredo, cedeu o espaço para que a obra possa ser vista através de suas janelas. A construção, ainda, vai ser o local onde serão realizados workshops com professores e estudantes de arquitetura e engenharia da Escola da Cidade e da PUC-Rio. Eles vão analisar e documentar a proposta. "É um público que se pretende ativar, não é um público passivo", diz Resende.

Envolvidos em uma causa, por assim dizer, os participantes do projeto não sabem o que vai resultar. De maneira prática, define Brissac, cortados, os trens poderão depois ser removidos como sucata. "Na pior das hipóteses, se não chegarmos a uma solução, pelo menos teremos contribuído sobre como olhar esses vagões", completa Resende.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.