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Problema no olho

Sentado na poltrona, ele estava tranquilo até perceber que o F era T; o U era V; e o R era B

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

27 Junho 2018 | 02h00

Todo mundo olha a Copa, mas, pelo amor de Deus, quem é capaz de enxerga o campeão? Tio Mário na Copa dos 7 a 1. Estava vendo mal e marcou uma consulta. Sempre havia enxergado bem e, na sua família, a garantia de uma “boa vista” era reafirmada por seus pais e tios, que haviam desaparecido com a casa no Ingá, em Niterói, fazia já algum tempo. Mas se a casa tinha virado edifício, o olhar continuava firme, embora coberto por óculos que mudavam regularmente. 

*

No consultório do Dr. Flávio Murakana ele foi recebido com o carinho de sempre. O oculista sabia como o seu cliente prezava a glória de ver-para-ler e considerava o enxergar uma interpretação – aquele “second look” que nos faz rir ou chorar no cinema. Foi assim que o médico o conduziu à cadeira especial dos oftalmologistas.

Poltrona mágica que obriga a sair de si mesmo, por oposição à dos dentistas, que invadem nossas almas pela boca. Já as letras do oculista, pensou, são um modo primitivo de leitura. Se você nada enxerga, você é analfabeto! Afora isso, o conjunto é numa sequência horizontal e sem sentido por contraste com a vida que tudo confunde e mistura. Aquilo que você pensava que era grande – por exemplo, o cara que você elegeu e achava grandioso, está na cadeia; os netinhos que ele pegou no colo, transformaram-se em jovens admiráveis. Do mesmo modo, o amor de sua juventude pegou uma doença maior do que seu corpo, fazendo o seu coração bater numa mistura de letras, como aquelas sopas que sua mãe lhe administrava nos tempos de brincar no quintal e matar passarinho...

Sentado na boa poltrona ele estava tranquilo até perceber que o F era T; o U era V; e o R era B. Decepcionado, ele via embaçado o que antes era claro como as águas da Praia das Flechas onde aprendeu a tomar banho de mar na Niterói de sua infância.

*

O oculista o conduziu a um gabinete semissecreto no qual jazia no centro uma espécie de binóculo preso a uma mesa: “Vamos ver o fundo do olho”, disse o médico.

Ele pensou, mas não disse: (Vamos ver é o c...! Você vai ver; eu vou enxergar e pensar no pior). E, de fato, ele olhou para um túnel negro e viu um pedaço dele mesmo que nada dizia, exceto a má notícia com a qual foi brindado pelo Dr. Murakana:

– Professor, o seu problema não é de óculos, é do olho.

– Como assim do olho? De que olho?

– Dos olhos, professor, dos olhos, dos dois olhos! Respondeu o oculista.

– Então é sério?

*

Um mês depois, ele fica diante de um outro binóculo ainda mais sofisticado para ver uma enorme mancha vermelha que o remete ao planeta Marte, pois do lado oposto da mesa e controlando tudo, há uma médica que, cheia de neutralidade espacial, manipula um computador, deixando ver dentro do túnel uma linha que oscila de cima para baixo e da esquerda para a direita. Enquanto isso ocorre, uma enfermeira segura firme sua testa de encontro a um anteparo, enquanto a doutora da Nasa determina que ele pisque ou abra bem o olho...

Em plena viagem sideral, intrometem-se lembranças infantis. Ele se recorda dos exames de vista que fazia na sua prima Lelilinha, que ia de um olho para o utro...

*

Um mês depois, o Dr. Flávio Murakana lhe diz solenemente:

– Professor, seu exame revela drusas na mácula. Felizmente são secas...

– Como vamos curá-las?

– Não têm cura! Eu sinto muito professor. É uma degenerescência devido à idade. 

– Vai de mal a pior?

– Sim, mas a gente tenta segurar com doses de luteína e lentes prismáticas.

*

Hoje, ele lê com dificuldade. Está vendo a Copa do Mundo chegando perto da televisão. De longe, só enxerga metade do campo e, pior que isso, não vê o principal, a bola, cuja leviana disposição de acompanhar todo mundo ele despreza. 

*

O adolescente dentro dele que ainda pensa em conhecer o Frank e o Mann – sim, o Frank Sinatra e o Thomas Mann – está desapontado. Mas, com os olhos molhados, dá um riso discreto...

*

PS: Convocado pelo Tite para a minha décima oitava Copa do Mundo, volto (se não me atingirem além da conta) a escrever neste espaço em agosto. Vou dar tudo de mim ao meu time e com os meus companheiros, espero, chegar ao hexa! 

Essa crônica é para Zé Paulo Cavalcanti que a inspirou e, otimista, acha que eu vejo o mundo quando na realidade só enxergo mesmo Niterói. 

 

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