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Pro Rio

Tinha resistido ao impulso de fugir de casa para ser aviador, mas não resisti ao impulso de ir pro Rio. Onde, um dia, apareceu a Lucia na minha vida

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2019 | 02h00

Meu plano era o seguinte: ir para o Rio, trabalhar em qualquer coisa, ganhar dinheiro e seguir para Londres. Naquela época estava todo mundo seguindo para Londres. Eu não tinha diploma de nada ou qualquer aptidão ou talento aparente, mas o “qualquer coisa” que me enriqueceria não parecia uma ambição tão irrealista.

Em um ano fazendo “qualquer coisa” (talvez publicidade, talvez traduções do inglês, talvez batendo carteira) no Rio, eu encheria os bolsos e me mandaria. Fácil.

*

A ideia era cinema, fazer cinema. Às vezes imagino como seria se não tivesse saído da casa do pai e esperado a vida ir me buscar. Não resistir ao impulso de ir embora foi uma decisão difícil, ainda mais para um tímido incurável e comodista nato. Me convenci de que chegara a hora de ir pro Rio.

Não me desanimou o medo de que quem reprime seus impulsos, e faz tudo que dá vontade de fazer na hora em que dá vontade, acaba preso ou gravemente desfigurado. Civilização é autocontrole. Só chegamos vivos a esse ponto porque resistimos à tentação de dizer aquela verdade, enterrar o nariz entre aqueles seios fazendo “ióim, ióim”, jogar tudo no 17 ou sair dançando com o magistrado.

Todo homem – pensava eu, atrás de razões para não sair de casa – é a soma não das suas decisões, mas das suas hesitações, ou do que, pensando melhor, decidiu não fazer. Nunca lamente o caminho não tomado, ele provavelmente levaria à ruína. 

*

Quanta gente você não teve vontade de esgoelar e, no fim, apenas sorriu e limpou um fio de cabelo imaginário da sua lapela? Quanto jornal você não teve vontade de amarrotar e jogar no lixo, desejando que em vez do jornal fosse o articulista, mas se conteve e passou, educadamente, à página seguinte? Deveria ter se controlado.

Fez bem em ignorar o aviso de que a repressão de impulsos leva a manchas na pele, cavernas no fígado e sono agitado do qual você acorda soqueando o travesseiro. Uma retrospectiva de tudo o que você imaginou fazer e não fez o convenceria que foi mais prudente abandonar aquele plano de dinamitar o Ministério da Fazenda e, em vez disso, mandar uma carta com ironias pesadas sobre o modelo econômico aos jornais? A orelha dela estava ali, a poucos palmos da sua boca, por que não dar uma mordidinha, só porque vocês estavam numa roda com outros, inclusive o marido dela, e ninguém entenderia quando você explicasse que confundira a orelha com um canapé? Mas você recuou, civilizadamente. Fez bem. 

Eu já, por exemplo, tinha resistido ao impulso de fugir de casa para ser aviador. Poupei-me da frustração de descobrir que eles não aceitavam pilotos de caça com menos de 6 anos de idade. Fiz bem. Corri atrás de uma menina para dizer que a amava, pensei melhor e apenas esbarrei nela, esperando que ela interpretasse a colisão como uma declaração. Deixei-a sentada no chão, chorando, mas escapei do ridículo, pois eu nem sabia seu nome.

Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta outra coisa. Mas não resisti ao impulso de ir pro Rio. Onde, um dia, apareceu a Lucia na minha vida.

*

Às vezes, me pergunto como teria sido se eu não tivesse reprimido o impulso de ir estudar cinema em Londres. Eu hoje poderia ser, sei lá, um dos melhores lavadores de prato do Soho. 

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