Privilégios de ambos os lados

Chico emprestou seu prestígio, mas também se beneficiou de vozes como a de Zizi e Telma Costa

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Na maioria dos casos em que Chico Buarque divide sua voz - que "tem seu charme", como dizem as "pássaras", apesar de não ser um gogó de ouro - com a de uma cantora não se trata de apadrinhamento. Esse privilégio ele reserva para os próprios discos. A mais recente contemplada nesse aspecto foi a paulista Mônica Salmaso, escolhida para cantar com ele a sublime valsa francesa Imagina (Chico/Tom Jobim), no álbum Carioca, de 2006. Na época do lançamento, Chico comentou: "Mônica é um tesouro a ser mais descoberto". De alguma maneira acabou sendo.

"Imagino que pode ter tido pessoas que passaram a me conhecer a partir desse encontro, afinal de contas o tamanho dele é grande. Mas o que eu senti mais diretamente foi uma coisa bonita de gente que acompanha o meu trabalho ficar contente por isso, como sendo uma conquista nossa", diz Mônica. "O convite para cantar no disco do Chico foi tão lindo que essas pessoas também se sentiram agradecidas. Eu mesma senti isso, uma honra, um agradecimento, um retorno daquilo que faço há tanto tempo."

Essa história teve desdobramentos. Em seguida Mônica gravou um álbum inteiro com canções de Chico, Noites de Gala, Samba na Rua. O primeiro show de lançamento do CD da cantora foi uma dobradinha de grande sucesso no Circo Voador, no Rio, em 2007, junto com o último show da turnê de Carioca.

De Jane a Telma. Seja a carioca Nara Leão, a paulista Cida Moreira, a paraense Fafá de Belém, as baianas do Quarteto em Cy ou a portuguesa Eugénia Melo e Castro, são inúmeras as cantoras que se identificam com o compositor tido como "o que melhor retrata a alma feminina" e dedicaram discos inteiros a ele.

Outros ícones femininos da canção brasileira como Elis Regina, Gal Costa, Nana Caymmi, Clara Nunes, Zizi Possi, Simone e Isaura Garcia, tiveram sua boa cota de "buarquismo". Pouco lembrada, a primeira a ser convidada para gravar com Chico foi Jane Moraes, dos Três Moraes, já no segundo álbum do compositor, de 1967. No ano seguinte foi a vez da irmã, Cristina Buarque. A outra irmã, Miúcha, dividiria com ele anos mais tarde um de seus clássicos de delicadeza, Maninha.

Nara e Maria Bethânia juntaram-se a ele no filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues. Dentre outros grandes acertos, Bethânia realizou com ele um dos shows/discos mais marcantes da carreira de ambos, em 1975. Em 1978, no auge da popularidade, Chico revelou ao Brasil a imensa voz de Zizi Possi, no dueto histórico de Pedaço de Mim. No mesmo álbum, ele colocou em evidência a voz rascante de Elba Ramalho. Ambas são os melhores exemplos da influência de Chico e decolaram a partir dali, mas por méritos próprios.

Um dos casos em que Chico também foi o privilegiado é o do dueto em Eu Te Amo (parceria com Tom Jobim), que chamou a atenção para a bela voz da mineira Telma Costa em 1980. Tendo um bom álbum lançado três anos depois, ela morreu em 1989.

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