Prisão sob o olhar infantil

Canadense de origem irlandesa, Emma Donoghue partiu de um caso verídico ocorrido na Áustria para escrever Quarto, finalista do Man Booker Prize de 2010, em que detalha o confinamento forçado de um garoto e sua mãe

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Em 2008, um trágico acontecimento surpreendeu e, ao mesmo tempo, inspirou a escritora canadense de origem irlandesa Emma Donoghue: em abril daquele ano, o austríaco Josef Fritzl foi preso sob a acusação de ter mantido a filha Elisabeth presa no sótão de sua casa por 24 anos. De acordo com a polícia, Elisabeth sofria abusos sexuais desde os 11 anos de idade e foi obrigada a ter sete filhos com o pai. "O caso Fritzl me estimulou a escrever uma história, mas algo não tão terrível", contou Emma ao Sabático, em entrevista por e-mail. O resultado foi Quarto, livro lançado agora pela Verus, editora que pertence ao Grupo Record.

Se comparada com os acontecimentos reais, a trama da escritora não tem nenhum vestígio de sordidez. Ao menos, não tão explícito. Os personagens são Jack, um esperto menino de 5 anos, e sua mãe, personagem identificada apenas como Mãe. O quarto de 16 m² onde vivem é o espaço máximo observado pelo garoto, pois lá nasceu e foi criado. Educado pela mãe, com quem também divide todas as brincadeiras, Jack tem uma certa noção da existência de um ambiente exterior apenas pelos programas que assiste pela televisão. Aquele espaço sem janelas, portanto, traz os limites de seu mundo, que ele entende como normal. Na verdade, trata-se de uma prisão onde o garoto e Mãe são mantidos por um homem conhecido por eles como velho Nicky. E, como Jack já adquiriu uma certa habilidade, sua mãe elaborou um ousado plano de fuga.

"Meu ponto de partida foi o confinamento forçado daquelas frágeis figuras", continua Emma. "Mas o galpão com uma claraboia, no qual vivem Jack e Mãe, é um espaço muito diferente de uma masmorra como a criada por Josef Fritzl. Na minha história, o quarto desponta mais como uma casa simplificada, um palco, do que um calabouço úmido."

Autora de outros oito romances e dois livros de contos, Emma Donoghue foi finalista ao Man Booker Prize do ano passado com Quarto, mas perdeu para o britânico Howard Jacobson e seu The Finkler Question, uma comédia sobre tristeza e perdas. Um tema aparentemente mais agridoce que o escolhido por Emma, que encobre uma grande violência. E, em vez de usar o realismo, ela optou por um leve tom fabular ao transformar Jack em seu narrador. Ou seja, a história de prisão é narrada sob o cândido olhar de uma criança de 5 anos.

Emma conta que não precisou burilar seu estilo para atingir a naturalidade infantil. "Na verdade, não tenho uma forma definida de escrita", comenta. "Ou melhor, você pode ser capaz de ouvir uma certa voz - contemporânea, volúvel, mais ou menos irlandesa, tendendo à irreverência - nas minhas ficções ambientadas em Dublin, como meus dois primeiros romances, Stir-Fry e Hood, e também no que publiquei em 2007, Landing. Os outros têm tons que variam de acordo com o século, cenário e personagens. Escrever na voz de Jack não foi realmente difícil - na verdade, tive mais trabalho ao lapidar o tom de século 18 que marca Life Mask. Meu filho Finn estava com 5 anos quando eu estava rascunhando Quarto, o que me foi de grande ajuda, mas também pensei e elaborei bastante sobre como exatamente seria esculpida a educação de um menino como Jack, que vive em um ambiente confinado."

A escolha da idade do garoto não se baseou unicamente na coincidência de ser a mesma do filho da escritora. Emma conta que, nessa faixa etária, a criança já está ligeiramente avançada do ponto de vista linguístico, embora ainda incapaz de qualquer prodígio. O menino pode, portanto, falar bem o suficiente para descrever objetos e situações de forma coerente e, graças à série de dúvidas inerentes à sua falta de experiência de vida, colaborar com o suspense da história ao não entender determinados fatos.

O olhar curioso do garoto, que acompanha com incredulidade os programas de televisão, oferece os momentos mais criativos do romance, especialmente seu relacionamento com Bob Esponja, para quem escreve uma carta. Também a leitura oferecida a Jack pela mãe é sugestiva, baseada em histórias sobre liberdade limitada, seja por prisão como O Conde de Monte Cristo, de Edmond Dantès, seja pela diferença de estatura, como as aventuras do gigante Gulliver em Lilliput.

Os detalhes descritivos eram importantes, conta Emma, que fez uma ampla leitura como apoio sobre assuntos diversos, desde nascimentos em campo de concentração durante a 2.ª Guerra até comportamento de crianças autistas, de estresse provocado em pós-traumas às solitárias de prisões norte-americanas. "Ao mesmo tempo, busquei universalizar o ambiente que Jack divide com a mãe, transformá-lo em uma espécie de microcosmo do nosso cotidiano."

A escritora partiu do princípio que, para contar uma história bizarra, o ideal é iluminar o normal e universal. Envolveu também a questão da maternidade - para Emma, o quarto trancado não deixa de ser uma representação do útero, no qual Jack vive uma forçada nova gestação até finalmente chegar ao mundo exterior, outra vez graças à ação decisiva de sua mãe. "A jornada de Jack é a mesma de todos", acredita a escritora de 41 anos, que vive com sua companheira e dois filhos na cidade de London, em Ontário, no Canadá.

Outra referência para a obra foi relacionar o confinamento à criação de filhos - para a autora, a obrigatoriedade de Jack e Mãe conviverem todas as horas, sem nenhum segundo de separação, é quase como uma metáfora ao fato de os pais (a mãe em grau mais elevado) precisarem estar sempre próximos de suas crianças, especialmente na fase inicial da vida. Ela conta ter ouvido de colegas a confissão de que tal obrigatoriedade, muitas vezes, se assemelha à sensação de estar aprisionado em um quarto durante anos.

Apesar da atenção dedicada pelo leitor aos feitos de Jack, Emma acredita ser a mãe um personagem tão ou mais fascinante. Em Quarto, Mãe desponta na primeira parte da narrativa como uma mulher perfeita e cuidadosa no trato com o filho, mas, na metade final, toma uma atitude questionável em relação ao garoto, que não cabe aqui revelar. Por quê? "Fidelidade ao realismo, simplesmente", responde. "Para ela, recuperar rapidamente a liberdade seria encobrir seu dano e Mãe sente a necessidade de passar por um purgatório. Encaro também como uma estratégia literária para tornar a trama mais interessante, pois Jack tem de se libertar de duas prisões: a literal, que é o quarto onde sempre viveu confinado, e a espiritual, que é o jugo da mãe."

Em recente entrevista ao Estado, o espanhol Enrique Vila-Matas confessou sua surpresa com a vitalidade da literatura irlandesa - mesmo a parcela de escritores menos conhecida por boa parte do mundo cria obras de incrível potencial. Emma Donoghue confessa sua infidelidade a um dos monumentos da escrita na Irlanda, Samuel Beckett ("Ainda que exista um certo ar de Esperando Godot quando trato de tédio em meu romance"), acreditando existir mais proximidade com o estilo de Roddy Doyle, especialmente no livro Paddy Clarke Ha Ha Ha (Estação Liberdade, 1996), no qual o escritor assume a voz de uma criança que, no fim dos anos 1960, narra seu dia a dia, enquanto acompanha o casamento dos pais desmoronar. Emma cita também o início de Um Retrato do Artista Quando Jovem, de outro ilustre irlandês, James Joyce, assim como o rei das novelas de reclusão, John Fowles, autor de O Colecionador.

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