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Prisão domiciliar

Depois de tanta quarentena, me sinto no direito de evoluir para o regime semiaberto

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 03h00

Em prisão domiciliar há três meses e meio, estou pensando em requerer livramento condicional. Acho que encararia numa boa até a tal tornozeleira eletrônica. Um par, caso a lei imponha isonomia ortopédica. 

Não me tome, por favor, ao pé (ou tornozelo) da letra: sem chilique ou coitadice, quero apenas que me seja permitido sair de vez em quando à rua, atividade a que me habituei, me lembro ainda, praticamente desde que aprendi a andar, e que o atual regime de reclusão veio converter em aventura temerária, numa espécie de safári urbano. Com o direito de ir, aceito o dever de vir, ou seja, de voltar à cela. De máscara, direitinho, mas sem nada de bandido mascarado. 

Falei em aventura temerária, em safári urbano, e acredite que não estou exagerando. Nesses três meses e meio, foram raras as ocasiões em que ousei abrir parênteses na rotina de encarcerado. Nenhuma delas, para meu desgosto, me levou à padoca para o semanal Café de Quinta em companhia do Ivan, do Paulo, do Edney, do João e, até recentemente, do Oswaldo, que teve a sabedoria de se mandar desse mundo antes que nele se instalasse a pandemia. Nem à livraria Zaccara, que ultimamente vinha sediando os encontros da Academia Perdiziana, não de letras, de Litros, de que já falei aqui, com direito, nas melhores noites, a canja do Tomzé, do Celso Adolfo ou do Renato Braz.

Saí três vezes apenas, e em todas experimentei um sobressalto, uma aceleração de batimentos cardíacos de contraventor em início de carreira. A primeira escapada foi para confiar ao Pedro, meu barbeiro, uma cabeleira que avançava, qual erva daninha, por sobre as orelhas, ameaçando eliminá-las da paisagem corporal. Confesso esta fraqueza: a cobertura capilar, quando excessiva, faz crescer em mim também o sentimento de que algo não vai bem no interior da caixa craniana. Se você me flagrar um dia com o coco rapado, esteja à vontade para deduzir que a situação, antes grisalha, ficou preta. 

A segunda evasão foi determinada por um acidente odontológico: como há males que vêm para o mal, em plena pandemia quebrei um molar. Sabe Deus a cautela com que venho desde então mastigando. A terceira escapada, por fim, no Dia das Mães – que, não me bastasse a orfandade, pela primeira vez passei sozinho –, pode ser em parte atribuída a um reflexo temporão do repórter que fui por tantos anos. Preparava meu café, bem cedo, quando me chegou, vindo da rua de cima, um alarido de exagerados decibéis. 

Burlando a amorosa vigilância dos filhos, enfurnados bem longe em suas tocas, enchi-me de coragem e fui, o coração aos pulos, conferir o que me parecia manifestação política em horário inusitado, no qual não é comum haver alguém já de pé pela Pátria. Não era; em frente a um prédio, desses que se chamam “Maison” ou “Château” alguma coisa, duas dezenas de pessoas tinham armado homenagem-surpresa a uma senhora, por certo mãe de alguém ali, cuja triunfal chegada à varanda pude presenciar. 

De volta à furna, levei comigo, além do desapontamento cívico, a sensação, experimentada nas ocasiões anteriores, de que me havia exposto a riscos insensatos. Será amostra disso que o pessoal deu de chamar de “novo normal”? Então vai ser assim a vida daqui para a frente? A compra de um pãozinho ali na esquina ganhará o vulto de empreitada audaciosa? Beijos e abraços serão substituídos, em caráter permanente, por cotoveladas, ainda que afetuosas? Vírus, agora, só de computador? Poliana anda dizendo que não, que tudo vai acabar bem, e mais, que “sairemos maiores” dessa pandemia. Na avaliação sombria de um nublado cupincha meu, porém, até mesmo o sexo presencial, “tá lembrando?”, não se dará doravante sem observância de severo protocolo. Como recita a claque do Capitão Cloroquina, diz ele, é bom já ir se acostumando, pois nosso autoenjaulamento preventivo “vai durar, por baixo, mais uns seis meses”. Deus não o ouça, amigo! Amigo?

*

Entre a Poliana e esse nuvem-negra, cada qual vai se ajeitando. A experiência, também aqui, é pedagógica e, ao falar dela, o perigo é você resvalar para chatices de autoajuda. 

No caso dos avulsos, entre os quais me incluo, atravessar sem companhia as 24 horas do dia, cada uma delas com todos os seus 60 minutos, é coisa de acarretar, além de bocejos de tédio e surtos de melancolia, uns tantos riscos. Entre eles, o da pura e simples avacalhação da pessoa confinada: na ausência de testemunhas, pode dar-se progressiva e nem sempre consciente perda de compostura, potencialmente desastrosa lá adiante, quando enfim se restabelecer o convívio social – se é que um dia chegaremos lá, duvida o nuvem-negra. Numa dessas lives às quais ultimamente nos agarramos como náufragos – e que a alguns parecem mais interessantes que os encontros em carne e osso ora suspensos –, um conhecido contou que vem tomando mais cuidado desde o dia em que se flagrou, felizmente a tempo, quando saía de cueca para desovar o lixo no térreo. Muitos nem cueca estariam usando, observou alguém, com jeito, desconfiei, de quem falasse de si mesmo. 

De minha parte, ainda sem episódios indumentários capazes de chocar a vizinhança, tenho sentido, admito, uma necessidade do Anjo da Guarda que meus pais contrataram no meu primeiro dia, e cujos serviços, cada vez maiores, rudemente dispensei em algum degrau da adolescência. Seria bom tê-lo de volta, não mais para zelar pela higiene da alma, pois para essa já não parece haver detergente espiritual que dê conta. Um anjo da guarda, com minúsculas mesmo, para me chamar às falas se um dia, distraído, eu estiver prestes a ir ali embaixo, apanhar meu Estadão, nos mesmos trajes com que a alada & desvelada criatura me viu chegar ao mundo. Pandemia, pandemim.

Na condição de decano no condomínio onde vivo, e sendo nele o único morador na melindrosa faixa de risco, tenho sido o maluco, por ora solitário, que todos os dias, durante uma hora, se dá em espetáculo ao caminhar aceleradamente em torno dos dois predinhos do Cosme e Damião, só não tão antigos quanto o arfante, bufante, quase estertorante senhor que gira sem parar, qual hamster em gaiola, para no final contabilizar mais 5 quilômetros percorridos. Em três meses e meio, são mais de 500, suficientes para me levar, suponhamos, ao Rio de Janeiro. Taí, encaro. Mas só tem conversa se vier a tornozeleira de que já sou merecedor.

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