Prisão do corpo

Ator Michael Fassbender é genial como o viciado em sexo no drama Shame

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h12

Seria o sonho de um ator exibicionista - Michael Fassbender aparece nu, de frente para a câmera, em boa parte de Shame, que estreia hoje. O filme de Steve McQueen lhe valeu o prêmio de interpretação masculina - a Taça Volpi - no Festival de Veneza do ano passado. Brad Pitt, que vai produzir o próximo filme do autor homônimo do astro hollywoodiano dos anos 1960 e 70, já se rendeu ao 'enorme talento' de Fassbender. Você vai entender o que ele está dizendo.

O problema, esclarece o ator, é que ele não é um exibicionista - e foi doloroso desnudar-se, ao mesmo tempo no sentido físico e emocional, diante da câmera de McQueen. Mas Fassbender não vacilou quando McQueen lhe propôs o papel. Já na primeira vez que falaram do assunto, no set de Hunger, Fassbender havia dito que, se o diretor quisesse, ele estaria 'dentro'. A explicação é simples. Fassbender estourou em 2008, no auge da crise econômica. O cinema, como atividade industrial, foi duramente atingido. "Se não fosse o papel em Hunger, não sei se um ator como eu teria conseguido novos convites."

Mas eles vieram - para Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino; Jane Eyre, que será lançado neste mês diretamente em DVD. Fassbender, modesto, credita seu sucesso a McQueen. Antes de ser diretor, ele era um provocativo artista plástico. Afrodescendente, não tem nada que o assemelhe, fisicamente, ao astro de Hollywood. E este McQueen sempre bateu pesado - sua série da Guerra do Iraque é admirável. Sobre uma coleção de selos em homenagem à rainha Elizabeth II, ele estampou os nomes dos soldados ingleses mortos na guerra. Fez um vídeo, uma instalação, com suas imagens. O resultado é impactante.

O cinema de Steve McQueen também é impactante. Hunger e Shame dialogam tão intensamente entre si que se poderia dizer que formam um díptico - sobre uma possível poética do corpo, tendo como centro Michael Fassbender. Hunger conta a história do militante do IRA, Exército Republicano Irlandês, Bobby Sands. Preso numa cadeia inglesa, ele iniciou uma greve de fome - e morreu. O episódio pode ser visto, de outro ângulo, em A Dama de Ferro, do ponto de vista da premier Margaret Thatcher (Meryl Streep) que se nega a conceder indulto a Sands, no filme dirigido por Phyllida Lloyd.

Fassbender/Sands, reduzido a pele e osso, busca na greve de fome - na morte? - a via de escape da prisão em que está confinado. Shame é sobre outra prisão, a do corpo, mais interna. Brandon, o novo personagem de Fassbender, é viciado em sexo. Quando não está copulando, masturba-se compulsivamente. Como um predador sedento de sangue, o sexo heterossexual não lhe basta e ele se arrisca em experiências homo. O elemento desestabilizador do (anti)herói é que ele é forçado a abrigar sua irmã, Carey Mulligan. Não é só a ideia do outro corpo que não pode possuir - a interdição do incesto. Tanto quanto Brandon necessita de sexo, ela, sua irmã, necessita de afeto. Difícil imaginar figuras mais carentes.

Entrevistado por Positif, McQueen surpreendeu-se quando a revista lhe perguntou se 'Brandon' carrega alguma referência a Último Tango em Paris. Não conscientemente, ele esclareceu, mas sim. McQueen queria fazer o filme em Londres, mas, talvez pela tradicional fleuma inglesa, não encontrou muita gente disposta a falar sobre a dependência do sexo. Foi pesquisar em Nova York. Resolveu fazer o filme lá. Um dia, mostrou o clássico de Bernardo Bertolucci a seus atores. Saíram todos do cinema sem conseguir falar (nem se encarar). No dia seguinte, morreu Maria Schneider. Shame nasceu sob esse signo. O título (Vergonha) remete ao sentimento dos homens e mulheres que McQueen entrevistou. É o que sentem após o sexo voraz. O filme termina em suspenso. Qualquer solução, já disse o autor, consagraria um moralismo que não lhe interessava avalizar.

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