'Prisão de Panahi é uma ofensa'

Pergunte a Juliette Binoche e ela será a primeira a dizer que é impossível, não apenas difícil, saber o que é verdadeiro e o que é falso em Copie Conforme, seu novo filme com o autor iraniano Abbas Kiarostami. Antes, haviam feito Sirin. Kiarostami dirige filmes que podem ser vistos como manifestos estéticos e/ou políticos. Muitas vezes, ele deu seu testemunho sobre o Irã, mas em Copie Conforme ele não está discutindo o país, até porque realizou o filme na Itália. Seu tema é a arte - "copie conforme" designa a cópia perfeita -, mas este é só o ponto de partida para uma discussão sobre o casal formado por Juliette e William Schimell. Copie marca a estreia do tenor inglês no cinema.

Luiz Carlos Merten, CANNES, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Quer dizer que Copie Conforme nasceu de uma anedota...?

...Que Abbas me contou e que tinha a ver com um incidente ocorrido com ele na Itália. Conheço Abbas há tempos. Ele me convidou para visitá-lo em Teerã. Fui e um dia ele me contou essa história. Fiquei fascinada por seu relato, cheio de detalhes. Por isso, no momento decisivo, fiquei desconcertada quando ele estourou num risada e me disse que era tudo falso. "Tudo, como?" Tudo. Ele estava testando seu inglês, foi tecendo a história e eu caí no conto.

O que resta disso no filme?

A essência é a mesma e incidentes como o do sutiã que retiro na igreja ou o restaurante já estavam no primeiro relato. O importante, o novo, é que acho que Abbas nunca falou dessa maneira sobre a relação entre homem e mulher nem explorou a gama de sentimentos humanos. É como se essa história fosse dele, e ele a carregasse na sua parte mais íntima. Trabalhamos muito na preparação do filme, e ele me disse que, ao filmar, conseguia saber o que eu estava dizendo sem prestar atenção numa palavra do meu inglês, ou francês, apenas olhando no meu rosto. Copie Conforme foi um projeto que nasceu da cumplicidade.

Como você explica o mistério de cenas como a do restaurante, quando você está de frente para seu marido e olha atrás dele, na praça. Como Abbas consegue esses momentos mágicos?

Com muito trabalho. Muita preparação e também repetição. O mistério não se explica. Se você lhe perguntar, ele vai dizer a mesma coisa. Gosto de ser cúmplice dos diretores com quem trabalho, mas este caso foi especial. Nunca senti Abbas tão seguro de si, e olhe que Copie Conforme marcava muitas novidades para ele. Pela primeira vez, filmava fora do Irã, com um ator que nunca havia feito cinema. Outro diretor talvez se estressasse, mas Abbas estava sereno, como se carregasse em si os sentimentos do casal de protagonistas. A filmagem de Copie Conforme foi um momento especial de minha carreira e vida.

O filme foi feito em ordem cronológica. É raro, não?

É raro, mas ele foi concebido dessa maneira, o que nos deu mais liberdade e, no caso de William (o ator William Shimell), mais segurança. A preparação foi tão intensa que, muitas vezes, eu terminava por fugir ao texto. Abbas se surpreendia com as improvisações. Mais de uma vez, me fez voltar ao diálogo, mas dizia que ia avaliar as mudanças. E algumas ele conservou.

O filme tem essa cena inesquecível em que você pinta os lábios e experimenta brincos, no banheiro do restaurante. Você põe o brinco vermelho e o deixa de lado, mas este momento breve, 15 ou 20 segundos, terminou virando o cartaz de Copie Conforme. Lembrou François Truffaut, o discurso sobre o provisório e o definitivo do amor em Beijos Proibidos. Você viu o Truffaut, não?

Eu ainda não tinha feito a associação, mas faz sentido. François era alguém que compreendia o amor. Veja que isso que você diz faz parte do jogo de tensões do filme. Arte e realidade, cópia e original, falso e verdadeiro, provisório e definitivo. Para mim, é algo muito belo fazer parte de um projeto complexo como esse.

Você virou a militante política deste festival, depois que suas lágrimas por Jafar Panahi, na coletiva de Copie Conforme, correram o mundo. Você se sente uma heroína?

Virei uma militante, malgré moi. Não se trata de querer, mas de necessidade. Muitas vezes, senão sempre, a gente tem de tomar partido. A prisão de Jafar (Panahi) é uma ofensa à minha inteligência e sensibilidade. Um país precisa de seus artistas, o Irã precisa dele. Como não lutar por sua integridade artística e humana?

Você diz que não quer ser uma militante, mas também fez Em Minha Terra que é um filme político de John Boorman. Como ele ocorreu em sua vida?

Claro que havia a vontade de filmar com John Boorman, mas também havia a história da Comissão de Reconciliação, na África do Sul. Veja que essas causas no fundo são muito simples, humanitárias. A liberdade de expressão de Jafar (Panahi), a questão dos direitos humanos aviltados pelo apartheid. Não é preciso ter uma grande consciência para lutar por essas coisas. São básicas.

Você criou recentemente um espetáculo de dança. O que isso representou para você?

Uma pequena revolução na minha vida. Muita gente achou que seria loucura, mas só eu posso avaliar quanto foi importante. A dança libertou meu corpo, minha mente, espantou meus medos. Não creio que conseguisse experimentar tamanha sensação de liberdade diante da câmera de Abbas se não tivesse passado pela dança.

Nós nos encontramos há alguns anos em Paris e era um dia complicado para você. A babá não havia ido, você tinha a casa, os filhos. Tudo isso parece meio surpreendente...

Por quê?

Para a maioria das pessoas você é uma estrela internacional, vencedora do Oscar (por O Paciente Inglês). Todo mundo imagina que você tenha um milhão de empregados à sua disposição...

Mas não é assim que as coisas se passam. Sou mãe por vontade própria. Não faria sentido nenhum não me dedicar a Raphael e Hanna nem cuidar de minha casa. Gosto de acompanhá-los, de ser uma mãe participante. E, depois, é uma fase. Eles vão crescer e viver suas vidas. O que posso lhes dar é agora, e não falo de coisas materiais. Falo de carinho, segurança afetiva, noções de cidadania. Ser mãe para mim não é um papel. De um papel, uma vez representado, eu saio. Mãe, quero ser em tempo integral.

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