Princípios da incerteza

Um massacre como o da escola no Realengo, no Rio de Janeiro, na manhã da quinta-feira, causa comoção e perplexidade e é difícil conter as emoções diante dos relatos de que o matador matou ao menos 12 adolescentes, atirando preferencialmente na cabeça de meninas, com uma rapidez e precisão de quem foi até lá treinado e premeditado. O bilhete que deixou, ciente do desfecho que teria, é confuso, mas nele se sobressai a religiosidade que beira o fanatismo ao mencionar os "impuros". Isso aumenta a indignação, pois ele só matou inocentes. Por outro lado, mostra que ele tinha problemas, não apenas a sociedade; afinal, seu perfil era em muitos aspectos o do psicopata - antissociável, fechado, infeliz sexualmente. Ou seja, era bem parecido com o de outros matadores que escolheram escolas como alvo de seu espetáculo suicida e nos mais diversos países, dos EUA à China, da Finlândia a Israel.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Isso não significa que as sociedades não devam rever muitos de seus valores. A humilhação do "bullying" nas escolas e a violência exaltada em filmes de ação são problemas reais, não frescuras moralistas. Uma coisa é ser um ambiente competitivo, que premia o esforço e o talento; outra é segregar os "losers" dos "populares", ridicularizar os que não ganham bem ou não exercem profissões badaladas. Isso sem falar na cultura de aparências em que vivemos, segundo a qual todo mundo tem obrigação de ser magro e andar na moda. Também é necessário tomar medidas que de algum modo reduzam a possibilidade desse tipo de acontecimento, como a maior segurança e, em especial, o acompanhamento psicológico nas instituições de ensino. Pais mais capazes de perceber e reagir a esse tipo de comportamento também são fundamentais, já que não necessariamente o caso tem a ver com nível de instrução - bastando lembrar que Mateus Meira, matador do shopping em São Paulo, era estudante universitário.

Daí a sair nomeando culpas totalizantes é outra coisa. Uns criticaram o referendo do desarmamento, esquecendo que apenas 3,5% da população tem armas e que qualquer maluco facilmente conseguiria uma de contrabando, o qual a polícia não sabe reprimir - ou do qual é cúmplice tantas vezes. Outros falaram em influência da cultura americana, como se nos países asiáticos houvesse menor cobrança de resultados ou como se no mundo todo não houvesse milhões de jovens que passam horas diante do computador jogando games. E, claro, há sempre quem diga que se trata da "perda de Deus" no mundo moderno, pois "antes as pessoas se respeitavam mais", como se Wellington fosse ateu ou como se fosse preciso acreditar em Deus para respeitar as diferenças. A tragédia talvez não fosse inevitável, mas sua causa é pontual, uma propensão psicológica específica. O que mais poderíamos evitar são as certezas da cura.

Cadernos do cinema. Fui ver A Última Estação, filme de Michael Hoffmann baseado em livro de Jay Parini que estranhamente só está em cartaz em uma sala do Espaço Unibanco. Não que seja um grande filme. Mas é sobre os últimos dias de Tolstoi, tem atores como Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti e vale a pena ser visto. O conflito condutor é entre a mulher do escritor e o chefe do movimento "tolstoiano": ele quer que Tolstoi deixe sua obra em domínio público, ela quer que os direitos autorais sejam seus e dos dez filhos. Ele é um bajulador, "mais tolstoiano que o próprio" em sua defesa da resistência pacífica e do desapego material. Ela está com o gênio há quase 50 anos, não o "cristianiza" como os outros ao redor e observa que ele prega aquelas atitudes desfrutando de uma vasta propriedade repleta de criados.

O que estraga o filme ("Ih, lá vem de novo o ranzinza do Daniel Piza") é o roteiro bobo. Pode ser fato que Sofia, como boa russa, fosse melodramática daquele jeito, mas isso não justifica acumular tantas cenas batidas, como a dela espiando da varanda e tropeçando na cortina, e truques como o do jovem secretário (James McAvoy) espirrando toda vez que fica nervoso. A história de amor deste com a provocante Masha (Kerry Condon) também acentua o tom novelizante. Tolstoi fica o tempo todo alheio à briga; assina a doação dos direitos (revogada pela Justiça depois de sua morte), mas chora pela mulher no instante final. Essas contradições são reais, só que bem mais dramáticas do que o filme sugere. Basta ler seus textos de Os Últimos Dias (Penguin Companhia) para ver que buscava uma religião "racional" e tinha muitas dúvidas sobre tê-la encontrado, embora desprezasse o ceticismo de Shakespeare.

É um problema semelhante ao de uma minissérie de 2007 a que assisti no Telecine recentemente, Guerra e Paz, de produção e elenco tão belos quanto vazios. Guerra e Paz é, talvez, a maior história escrita desde a Odisseia. Por mais que vejamos o moralismo de Tolstoi, que favorece o solidário Pierre Bezhukov em vez do ambicioso Andrei Bolkonsky, não é por isso que o lemos e relemos; é pelo vigor da narrativa e sobretudo pelo modo como o combina com as ideias, dando vida interior a cada personagem, além das observações filosóficas e sociológicas do próprio narrador sobre a continuidade do movimento e a imprevisibilidade da história. Na série, Pierre parece um tolo de bom coração... A obra, enfim, é sempre maior que o autor, mas nossa era "middlebrow" insiste em torná-los compósitos de homens comuns e celebridades. As ironias e ambivalências da grande arte ficam sempre em segundo plano.

O mundo é um palco. Família disfuncional mesmo é a de Pterodátilos, de Nicky Silver, peça em cartaz no Teatro Faap com direção de Felipe Hirsch. O fenômeno Marco Nanini faz dois personagens, a filha Ema, ávida e mimada, e seu pai Arthur, um frio milionário; Mariana Lima é Grace, sua mulher, alcoólatra e ninfomaníaca; Álamo Facó faz o filho Todd, que regressa e se revela homossexual; e Felipe Abib é Tom, namorado de Ema e, depois, não só dela. O cenário de Daniela Thomas tem um grande achado: é oblíquo e móvel e aos poucos seu piso vai sendo desmontado por Todd, à medida que literalmente falta chão aos personagens, e os fósseis de dinossauro aqui servem como uma metáfora - como a gaivota de Chekhov - para a antiguidade dos instintos.

A peça não tem propriamente um enredo, embora sua agitação sugira o contrário, e os melhores momentos são os cômicos, principalmente as brincadeiras com os lugares-comuns que todas as famílias se dizem. A parte final deixa o humor de lado, mas é com ele que vamos embora - e com a aguda tristeza que logo se sente naquelas vidas.

De la musique. Keith Jarrett se recusou a se apresentar em São Paulo em 1986, por causa do piano, e só tocou na cidade uma vez em 1989 com seu trio. Por isso, e sobretudo pelo talento que escutamos em CDs desde Koln Concert até Jasmine, a Sala São Paulo tinha um frisson de expectativa na quarta passada. E ele justificou cada minuto de espera. Por melhores que sejam as gravações, a sua é uma música que se faz no momento, no próprio fazer, e por mais planejamento que haja por trás daqueles improvisos é como se testemunhássemos um ato de criação, o qual não existiu antes e não se repetirá depois. Ou seria melhor dizer um ato de procriação, pois Jarrett e o Steinway se deram tão bem que ele em alguns momentos se enganchava e grunhia como se copulasse com o teclado.

Que outro pianista de jazz atual seria capaz de desconstruir melodias nos mais diversos ritmos aumentando em vez de afastando nossa atenção? Nem mesmo o ótimo Brad Mehldau, de quem Jarrett andou se queixando. Ele começou impressionista, quase como se buscasse um "mood" para a noite, depois passou para um princípio de balada e desistiu. Pediu um segundo, deu uma volta no banco e se sentou de novo, agora para um ataque mais acelerado. A partir dali entrou em concentração plena, com as costas curvadas até o rosto quase encostar nas mãos, os cotovelos tão baixos que apenas as pontas dos dedos comandavam a força. De vez em quando, erguia a espinha e se levantava do assento dobrando os joelhos, enquanto cantarolava algumas frases.

Numa das composições, fez uma música quase sem linha e sem pedal, só de timbres e repetições. Outras, porém, soaram como blues ou canções, mas a levada rítmica ou a célula melódica eram apenas pretextos para variações e modulações de um artista que emociona, não de um virtuose que se exibe. Apenas no bis deu algo identificável, Miss Otis Regrets, de Cole Porter, e desde Oscar Peterson um acalanto não tinha tantas texturas. Por culpa da falta de respeito de uma minoria da plateia, que insistia em tirar fotos com celular mesmo depois de inúmeros pedidos, Jarrett não esticou mais a noite. Tem gente que não merece... Esse é um raro artista que não se rende à tirania da fama, que não tem compromisso senão com sua arte. Não há imagem que registre os melhores momentos que ele deu para quem ainda escuta com os ouvidos.

Por que não me ufano. No domingo passado a revista Época trouxe excelente material sobre o mensalão, revelando o relatório da Polícia Federal e enterrando de vez quaisquer "relativizações" da parte dos políticos como o Lula ou dos intelectuais como Marilena Chaui, para quem aquela foi uma crise sem gravidade. Os que diziam que não havia dinheiro estatal envolvido - como se Marcos Valério não vivesse basicamente de licitações, muitas das quais nem sequer executava - agora não podem negar mais nada, com as provas da participação do fundo Visanet. Os que acreditaram no "eu não sabia" de Lula precisam arranjar logo desculpas novas para o fato de que Valério pagava os seguranças dele. Os que diziam que Daniel Dantas era o maior inimigo do governo devem então explicar como foi procurado para dar R$ 50 milhões ao PT. E os que tantas vezes disseram que os petistas eram mais honestos e menos fisiológicos têm diante de si uma lista de acusados imensa. O mensalão existiu, foi grave e nunca mais a imagem da "esquerda" brasileira foi a mesma.

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