PRIMEIROS PASSOS NO SÃO PEDRO

É uma ária que vem sendo cantada há bastante tempo, por diferentes intérpretes: a utilização do Teatro São Pedro como espaço dedicado não apenas a apresentações de óperas, mas também à formação de jovens artistas - cantores, diretores, cenógrafos. Suas proporções, afinal, sugerem uma programação centrada principalmente nos repertórios barroco, clássico e contemporâneo, que se prestam de maneira geral ao desenvolvimento das vozes. Por conta disso, foi celebrada a decisão, anunciada no começo do ano pela direção do teatro, de se criar uma Academia de Ópera, com a crença de que a formação de um cantor só termina sobre o palco - e é nesse sentido, à luz de um processo que apenas se inicia, que precisa ser compreendida a récita de terça-feira de La Cenerentola, de Rossini, a primeira com jovens cantores integrantes do projeto.

O Estado de S.Paulo

22 de março de 2013 | 02h13

A ópera faz uso do libreto que Jacopo Ferretti adaptou da história de Cinderela - com algumas alterações. O príncipe chama-se Ramiro (Cleyton Pulzi, tenor) e se apaixona por Angelina (a meio-soprano Josy Santos), que vive na casa do padrasto Don Magnifico (Gustavo Lassen, baixo) ao lado das irmãs Clorinda (Roseane Soares, soprano) e Tisbe (Debora Dibi, meio-soprano). Não há abóboras, ratinhos, carruagens ou sapatinhos de cristal - e a gata deixa de ser borralheira pela ação de Dandini (Johnny França, barítono), ajudante do príncipe, e Alidoro (Misael Santos, baixo), seu tutor.

Um espetáculo diferente, com alguns dos cantores interpretando pela primeira vez um papel completo sobre o palco, talvez exija uma postura crítica distinta. E, nesse sentido, mais do que apontar qualidades e deficiências individuais, pode ser interessante identificar elementos comuns ao conjunto, que volta a se apresentar no domingo (nas récitas de amanhã e segunda, atua o elenco principal da produção - e essa alternância deve se repetir ao longo de toda a temporada).

Cantar uma ópera completa traz desafios que um recital no qual se interpreta trechos selecionados de uma obra ou o ambiente de estudo não contemplam, em especial a capacidade de manter, ao longo de três horas de espetáculo, o vigor vocal, aliado à preocupação de estar constantemente no papel. Assim, é compreensível a maneira como todos os solistas, após um início muito bom, foram perdendo um pouco da energia ao longo da noite - e isso naturalmente acaba evidenciando alguns problemas de técnica, como a dificuldade em algumas passagens nas quais Rossini exige enorme agilidade do cantor. Sente-se falta também de uma cetra coerência interna no uso da voz, uma constância - seja na emissão, seja na exploração de coloridos expressivos - nas diferentes regiões da tessitura, dos graves aos agudos. Do ponto de vista cênico, em que pese a entrega com que todos os solistas se dedicam à encenação, é preciso reconhecer um excesso de maneirismos e de referências aos clichês da ópera cômica.

Todas essas questões podem ser trabalhadas, resolvidas - e na revelação de vozes interessantes, a academia começa a demonstrar sua importância e validade. Afinal, aprende-se à medida que se experimenta. E isso vale também para as questões que esta Cenerentola coloca quanto ao conceito da Academia de Ópera do São Pedro. Os cantores estarão presentes nos ensaios, em contato com artistas profissionais e, além disso, vão participar de master classes e palestras oferecidas por alguns deles. Assim, na ausência de uma grade curricular, é importante que eles sejam orientados por profissionais que tenham em mente a dimensão pedagógica do trabalho que estão desenvolvendo durante os ensaios. Estes não são cantores amadores, mas também não são profissionais completos. Estão em um momento crítico de suas trajetórias, no qual é fundamental ter contato com profissionais que não apenas ensinem como se faz - mas os ajudem a encontrar, cada um à sua maneira, seu lugar no palco.

Montagem. Sobre a produção, o aspecto mais problemático é a concepção cênica do italiano Davide Garattini, que aposta em uma movimentação cênica estática e convencional, anulando a agilidade do teatro rossiniano. É dele também o desenho de luz que, sem meios-termos, expõe a deficiência dos cenários, construídos com material reciclado em parceria com membros da ONG Clube de Mães do Brasil. É importante ressaltar que o problema não está na escolha do material ou no uso que se faz dele mas, sim, na fraca concepção visual do espetáculo. Em vez de apostar em tentativas frustradas de recriação naturalista de grandes cenários, o São Pedro poderia ter em mente propostas mais arrojadas e modernas de cenografia - assim como precisa criar uma alternativa ao coro arregimentado a cada produção, solução que mais uma vez não deu certo. A sinfônica do teatro, também composta por jovens músicos, teve bom desempenho sob o comando de Emiliano Patarra, com uma leitura teatral eficiente, em que pesem os desencontros em algumas das cenas de conjunto.

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