Primeiros passos de dois mestres

Antes de lançar o primeiro álbum-solo, em 1968, Paulinho da Viola dividiu alguns discos com outros sambista da mesma linha e grandeza, que retomavam o samba dito de raiz. Três desses discos foram com o conjunto A Voz do Morro, outros contaram com sua participação no histórico show Rosa de Ouro, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, que revelou Clementina de Jesus. Mas Paulinho começou mesmo a ganhar o merecido destaque com Samba na Madrugada (ou Na Madrugada, como ficou nos relançamentos), também de 1968. Tendo Hermínio - parceiro no clássico Sei Lá, Mangueira, do mesmo ano - como assistente de produção, foi um disco dividido com Elton Medeiros, outro genial sambista carioca, que também despontava com ele, dividindo o elenco do Rosa de Ouro com outros do mesmo naipe.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Parceiros de grandes sambas como Recomeçar, Onde a Dor Não Tem Razão, Moemá Morenou, Nova Alegria e, mais recentemente, Ame, naquele disco eles assinam juntos apenas Rosa de Ouro, com Hermínio, que aparece num medley com outros clássicos, como Jurar Com Lágrimas (de Paulinho) e Recado (primeiro samba de Paulinho como compositor da escola de samba Portela, em parceria com Casquinha) e O Sol Nascerá (de Elton, que divide este e Injúria com Cartola). Foi também o disco em que Paulinho lançou o belo Arvoredo, Minhas Madrugadas (parceria com Candeia) e 14 Anos, em que relatava os conselhos do pai para não se tornar sambista, porque não teria futuro. Ainda bem que, nesse caso seu pai não teve razão.

Elton, por sua vez, fazia provocações na letra de Samba Original (parceria com Zé Ketti), falando do que o samba não falava, mas também sem revelar do que se trata. Os dois só cantam juntos Rosa de Ouro, mas a irmandade de estilo é evidente. No texto de apresentação do disco, Arley Pereira comenta que Sofreguidão (Elton) "mostra o quanto Cartola influiu na obra de Elton (e na de Paulinho)" e que "a voz cristalina de Paulinho chega a doer de tão afinada" . De quebra, há ainda a presença de outro bamba da turma de Botafogo, Mauro Duarte, parceiro de Elton em Maioria Sem Nenhum.

Fechando com Zé Ketti, Casquinha e Candeia, tem-se um significativo mostruário do melhor samba que se fazia no período e que - livre de clichês e modismos, como é propriedade do que é clássico - soa hoje alheio à ação do tempo. É apenas uma das virtudes do repertório montado como um roteiro de show, daqueles feitos para serem históricos, típico do brilhantismo de Hermínio. É de uma naturalidade comovente, desde a formação instrumental - com músicos como o flautista Copinha, o trombonista Raul de Barros, os violões de Meira, Dino 7 Cordas e do próprio Paulinho, um coro feminino e percussão discreta, com o charme da caixa de fósforos de Elton. É daqueles discos pra reouvir com prazer seguidas vezes.

Sem grandes novidades, mas mantendo o estilo

Quando o Gotan Project lançou a boa ideia de colocar texturas eletrônicas no radicalmente imutável tango, houve quem o desconsiderasse e apostasse tratar-se de mais um modismo. La Revancha del Tango (2001) tornou-se um clássico do gênero, mas, passados quase dez anos, o trio francês quase se torna vítima do próprio feitiço, embora se mantenha a milhas acima dos imitadores. Lunático (2006) apontava novas direções dentro daquela sonoridade, o que não acontece com Tango 3.0 (sucessor de um álbum de remixes e outro ao vivo). Os temas e o apelo dançante continuam fortes, bem como as composições e arranjos, mas não há muita novidade na forma. Neste terceiro álbum de estúdio, há guitarras bem colocadas, como em Tango Square, uma brincadeira com narração de futebol na pulsante La Gloria, coral infantil dispensável, approaches com o ska e o estilo cinematográfico das trilhas de filmes de David Lynch, bons vocais de Cristina Vilallonga e participação do poeta punk argentino Daniel Melingo em Tu Mistério. Na média, a boa reputação está mantida.

Hole pisa sangue com sapatinho de cristal

A viúva de Kurt Cobain voltou. O novo disco da sua banda Hole, Nobody"s Daughter, o primeiro em seis anos, está tão limpinho e asséptico que parece uma espécie de hard rock feito para animar o programa do Luciano Huck. Uma ilustração mostra uma mulher pisando em sangue com um sapatinho de cristal. Uh. Embora seja dedicado, entre outras coisas, à sobriedade, o álbum tem como maior trunfo o estilo vocal semiembriagado de Courtney (foto). Tem senso de humor (Skinny Little Bitch), mas os solos de guitarra, a cargo de Micko Larkin, são puro clichê. A Rainha do Grunge, agora com 45 anos e após sair de um "rehab", escreveu tudo, exceto três canções em parceria com Linda Perry. Há um certo barroquismo, excesso típico de quem tem dinheiro sobrando, em faixas como For Once in Your Life, espécie de valsa celta cheia de cellos, com apoio vocal de Martha Wainwright e Jenni Muldaur. Tem tudo para ganhar as rádios, mas falta radicalidade e emoção. / JOTABÊ MEDEIROS

Yamandú e Valter: preciosidade de fazer chorar

Assim que surgiu revelado pelo extinto Prêmio Visa da Rádio Eldorado, em 2001, Yamandú Costa veio como um garoto a assombrar o chamado mundo da música instrumental. Foi chamado de Jimi Hendrix do violão e outros exageros, até porque era cedo demais para endeusá-lo assim. Yamandú não domava seus impulsos e seus solos muitas vezes saíam sujos, sem precisão. Agora a etiqueta de grande pode ser colada ao violonista. Ao lado do senhor das cordas de aço Valter Silva, acaba de lançar uma preciosidade de fazer chorar não por arroubos impressionistas de solos dispensáveis, mas por música bela e límpida, destilada por anos em rodas de choro. Tem Dilermando Reis (Tempo de Criança e Magoado), Jacob do Bandolim (Implicante), Canhoto da Paraíba (Tua Imagem e Com Mais de Mil), João Pernambuco (Dengoso) e por aí vai. Só dois violões. E mil sentimentos. / JULIO MARIA

Encontro de bambas da vizinhança

A versão brejeira de Filosofia que abre o disco de Martinho da Vila é uma comunhão de bambas de gerações distantes que se cruzam na divisão arrastada, cheia de mandinga que o cantor dá à poesia de Noel, como se os dois estivessem trocando molecagens em um boteco da Vila. É uma pena que os duetos do resto do disco não estejam à altura deste primeiro encontro.

Soprano de volta em disco sensível com Barenboim

Acontece cedo ou tarde com todo cantor de ópera russo - o desejo de voltar-se ao cancioneiro de seu país. É o que fez a soprano Anna Netrebko, em recital com o pianista Daniel Barenboim. A voz, de grande extensão e coloridos bonitos, presta-se à riqueza de sentimentos do universo das canções de Rimski-Korsakov e Tchaikovsky. Sensação do mundo da ópera, ela, nos últimos discos, parecia envolvida demais com a própria voz, em interpretações um tanto superficiais. Não cai no mesmo erro no novo álbum - crédito para o piano de Barenboim. / JOÃO SAMPAIO

Keane: uma boa banda que não faz bons álbuns

Keane é uma bela banda ao vivo, já demonstrou duas vezes no Brasil. Night Train, o novo álbum do grupo inglês, não vai mudar essa sina. Tem pelo menos uma grande antena pop, Clear Skies, a quarta música do álbum. E alguns equívocos, um deles a parceria com o rapper da Copa do Mundo da África, K"Naan. Os teclados de Tim Rice-Oxley continuam deliciosamente ingênuos, quase um eco do tecnopop dos anos 80, e a voz de Tom Chaplin soando angelical. A faixa de introdução instrumental, House Lights, merece um capítulo à parte: nunca tantas bandas lançaram mão desse truque sem sentido.

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