Divulgação/Feira do Livro de Ribeirão Preto
Divulgação/Feira do Livro de Ribeirão Preto

Primeiros dias da 14ª Feira do Livro de Ribeirão Preto têm Companhia Deborah Colker e discussões sobre direitos

Espetáculo 'Belle', que ainda está em pré estréia, lotou o Theatro Pedro II, no centro da cidade

Guilherme Sobota, Ribeirão Preto - O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2014 | 12h47

Não foi por acaso que a 14ª Feira do Livro de Riberão Preto começou na quinta-feira, 15, com uma das primeiras apresentações públicas de Belle, novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker. A apresentação - vista com olhares atentos de autoridades, convidados da Feira e de sortudas 600 pessoas que conseguiram pegar um ingresso antecipado, todos gratuitos - é uma adaptação de um romance francês escrito por Joseph Kessel, e que também inspirou Luis Buñuel a fazer A Bela da Tarde em 1967.

Assim, não é surpresa que a sensualidade e a discussão filosófica da plenitude sejam os pilares da apresentação. Mas sair impune do espetáculo é tarefa difícil. A dança é dividida em dois atos - no primeiro, a personagem principal é apresentada, ao lado do marido, médico, e aparentemente os dois mantém uma relação satisfatória. Ainda no primeiro ato, entra em cena o "duplo" de Séverine, justamente, Belle - que atormenta a vida comum da personagem e a leva a se liberar sexualmente em um bordel. E é a partir daí que o público sabe que está passando por uma experiência artística incrível.

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"Colocar outra bailarina para interpretar as inquietações de Séverine foi uma sacada minha", explicou Deborah num Salão de Ideias, na sexta-feira, 16, série de encontros com o público promovida pela Feira do Livro de Ribeirão. Deborah diz que se inspirou no livro para montar o espetáculo, mas que conheceu a história por meio do filme de Buñuel. "Catherine Deneuve está perfeita no papel de Séverine: mas como diz o Leonard Cohen, é pela rachadura que a luz entra", explica, tentando esclarecer o personagem.

O espetáculo conta, sim, a história de Séverine e de suas inquietações íntimas sobre o sexo e sobre a própria plenitude, e faz o uso peculiar e tradicional do palco e da cenografia dos espetáculos da Companhia. Mas, pela primeira vez, a máscara - elemento tão teatral - aparece em um ator. Deborah diz não tentar, mais, estabelecer fronteiras entre dança, teatro, circo.

"Acredito que a dança, o movimento no palco, tenha que produzir ideias, sentimentos, pensamentos", diz. "É como com os livros: transpor uma história das palavras para a dança permite que cada um crie novas interpretações, novos significados", continua, animada. "Ainda estamos discutindo o espetáculo, esse processo de pré estreia serve justamente para entendermos melhor o que estamos fazendo e como o público vê. Tenho que ser obsessiva".

O espetáculo tem estreia prevista para 13 de junho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e deve chegar a São Paulo em agosto.

Cancelou. A escritora Ana Maria Machado - homenageada deste ano da Feira - cancelou sua participação no evento por motivos de saúde. Ela daria na sexta-feira, 16, a principal conferência do dia. A ex-presidente da Academia Brasileira de Letras disse, por meio de um vídeo exibido na abertura da Feira, que não voltou muito bem de uma viagem recente à Ásia, e que, depois de passar por exames e por recomendação médica, preferiu não viajar.

Feminismo. Durante o final de semana, o feminismo e a condição da mulher em relação ao livro e à literatura foi um dos temas dominantes dos debates da Feira. A historiadora Mary Del Priore, que substituiu Ana Maria Machado na conferência principal da sexta-feira, falou sobre figuras femininas históricas do Brasil, como a Marquesa de Santos, a Condessa de Barral e a Princesa Izabel. No sábado, 17, a escritora e filósofa Marcia Tiburi também falou ao público sobre a condição da mulher em relação à literatura e à própria sociedade.

“Hoje não dá para pensar em termos essencialistas: do tipo, ‘essa mulher não é bem mulher’, ou ‘esse cara não é muito homem’”, disse, em outra sessão do Salão de Ideias. “Uma das coisas boas da história do feminismo é justamente discutir essa questão.”

A militante e ex-companheira de Carlos Marighella, Clara Charf, também esteve presente no primeiro final de semana da Feira do Livro discutindo o assunto. Muito aplaudida, Clara falou as condições da militância feminista e comunista do século 20 e contou uma parte de sua convivência com Marighella. “A gente tinha que dividir as tarefas: um dia quando ele chegou, eu estava passando roupa. Ele disse: ‘Clara, não passe roupa enquanto eu não estiver em casa. Porque quando eu estiver e você tiver que fazer isso, eu vou ler em voz alta para você’. É uma grande solidariedade, não é?”, disse, entre risos da plateia.

Crianças. Também na sexta-feira, o escritor Pedro Bandeira, que tem mais de 25 milhões de livros vendidos e esteve em todas as edições da Feira, falou para um auditório lotado de crianças e fez o seu show particular. De pé, fez piadas e motivou as crianças. "A estrada mais gostosa para o conhecimento é a literatura", arriscou.

De acordo com Bandeira, um novo lançamento seu está previsto para agosto deste ano. "É uma aventura juvenil que eu espero que seja um best seller maior do que os outros", diz. O livro, que demorou 12 anos para ser escrito, sai pela Editora Moderna. Em tom de brincadeira, Bandeira preferiu não dar o título da obra ao Estado. "Eu te disse, mas falei muito rápido e você que não entendeu", riu.

O repórter viajou a convite da produção do evento.

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