Trivier Marc/Divulgação
Trivier Marc/Divulgação

Primeiro romance de Beckett ganha tradução

Escrito nos anos 1930, ‘Murphy’ antecipa aspectos da ficção do irlandês

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 19h15

Samuel Beckett conseguiu a proeza de ser e não ser ao mesmo tempo. Em Murphy, romance de estreia do escritor irlandês, não podemos encontrar muitos dos sinais que comumente associamos ao autor de Esperando Godot. Mas o contrário também é verdade.

No livro – que merece agora versão em português publicada pela Cosac Naify e acaba de ter os originais arrematados em um leilão por £ 1 milhão –, já despontavam pistas da literatura que ele viria a praticar na maturidade. Lá, podemos encontrar “uma versão mais ramificada e menos concentrada de algumas de suas obsessões filosóficas e temáticas persistentes”, aponta Fábio de Souza Andrade, responsável pela tradução do volume e renomado estudioso da obra beckettiana.

Muitos dos aspectos da ficção de Beckett – o absurdo, a falta de sentido da existência, o humor corrosivo – tornaram-se indissociáveis do mal-estar gerado pela Segunda Guerra. São as marcas que ficaram no intelectual que uniu-se à resistência francesa contra os nazistas.

Murphy vem antes disso. Foi escrito em meados dos anos 1930. Estava ao menos dez anos distante de sua festejada trilogia: Molloy, Mallone Morre e O Inominável. O personagem-título daquele romance de juventude, porém, já possuía características que viríamos a encontrar em criações futuras. Assim como na novela Primeiro Amor (1946), seu protagonista é uma espécie de herói às avessas, apaixonado por uma prostituta. Do mesmo jeito que Molloy ou Mallone viriam a fazer, Murphy rompia com a normalidade, recusava-se a pactuar com a vida tal como ela se apresentava.

Na trama, ele surge amarrado a uma cadeira. Ao lado de um grupo de amigos e de uma mulher, deixará, de certa forma, o imobilismo quando partir em direção a Londres. Só que não tardará em retirar-se do mundo. Instado a trabalhar, encontra um posto em um sanatório e prefere o que vê entre os enclausurados à vida do lado de fora. “À comédia afável da vida em sociedade, Murphy prefere seu mundo interior”, constata o tradutor. “Sua cisma com a linguagem, sua opção pelo isolamento, são gestos de recusa e reflexão irônica que acompanharão a galeria de futuros personagens beckettianos.”

O que faltava, então, para que Beckett se tornasse Beckett? Grosso modo, faltava-lhe escrever como tal. Ainda tateava a linguagem exígua que seria sua marca, aquela que usasse o menor número possível de palavras. “Não se pode falar de minimalismo no Beckett inicial, ao menos não em Murphy. Rigor, sim, mas aqui ainda estamos no universo das multiplicações de mundos e possibilidades, processo de fragmentação e montagem experimental característicos do modernismo heroico”, diz Souza Andrade, que já traduziu outros quatro títulos do autor para a Cosac Naify: as peças Fim de Partida, Dias Felizes e Esperando Godot, além do ensaio Proust.

“Do ponto de vista formal, a escrita beckettiana se encaminhou para uma concentração máxima, para a exploração das repetições, das combinatórias rigorosas, e se despojou deste manto paródico, das alusões que chamam a atenção para si próprias, tão característico de Murphy.” Fez tudo isso, contudo, sem nunca renunciar ao diálogo com a grande literatura. “Há muita alusão discreta, de Baudelaire a Shakespeare, de Racine a Yeats, perpassando seus textos aparentemente mais diretos.”

MURPHY

Autor: Samuel Beckett

Tradução: Fábio de Souza Andrade

Editora: Cosac Naify (256 págs., R$ 36)

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