PRIMEIRO MOVIMENTO

Na estreia de John Neschling no Teatro Municipal, a amostra de seus desafios

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h09

Foi o próprio John Neschling que se definiu como o Pep Guardiola da batuta em recente entrevista logo depois de assumir a direção artística do Teatro Municipal de São Paulo. A metáfora faz sentido quando se pensa na reinvenção da Osesp que ele promoveu em doze anos de trabalho. Mas não se aplica em sua volta à cena musical paulistana. Guardiola, depois de ganhar tudo com o Barcelona, assume daqui a poucos meses a direção técnica do Bayern de Munique. Acontece que o Bayern é já um grande time, recheado de notáveis jogadores. A Orquestra Sinfônica Municipal mais parece o modesto time do Palmeiras, onde um ícone como Filipão tentava inutilmente insuflar-lhes o espírito da "Família Scolari". A orquestra sofre, há mais de uma década, do chamado complexo vira-lata, na expressão de um de seus músicos. Quase cem músicos, muitos deles excelentes, conviveram com o sucateamento artístico provocado por batutas duvidosas. As expressões que uso me foram repetidas nos últimos dias por músicos do grupo.

Por isso, quando Neschling se disse "surpreso com a qualidade dos corpos artísticos", em entrevista ao Estado, só pode ter sido a expressão de um desejo, e não da realidade. É certo que a orquestra vinha já nos últimos dois anos em processo de recuperação; mas o caminho é longo, como atestou a performance dos corpos estáveis anteontem, na concorridíssima estreia de Neschling - com direito à presença de políticos como o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad.

Após um belo discurso, Neschling iniciou o programa, um triplo tributo: aos 200 anos de nascimento de Wagner e Verdi; e aos 20 anos da morte de Camargo Guarnieri. O andamento excessivamente lento do Prelúdio e Morte de Amor de Tristão e Isolda pôs os músicos num trapézio sem rede. Não foi uma performance excepcional, nem sequer boa. Apenas razoável. A voltagem subiu um pouco na interpretação correta da segunda sinfonia de Guarnieri, obra vigorosa, brilhante. Mas o palco só se incendiou mesmo com as Quatro Peças Sacras de Giuseppe Verdi, onde à orquestra juntaram-se os corais Lírico e Paulistano. As derradeiras composições do gênio de Sant'Agata são emocionantes. Ali ficou claro que, como aliás o próprio Neschling indicou em sua fala, a redenção do Municipal se fará pela via lírica, sua vocação original. O Coral Paulistano foi correto na Ave Maria; mas quando a ele se juntou o Coral Lírico para a impressionante Laudi alla Vergine Maria, sobre versos de Dante, o resultado foi ótimo. O clímax aconteceu de fato no imponente Te Deum, com orquestra e os dois corais.

Alguns indícios de que, no entanto, este é só o começo de uma retomada que pode tornar-se muito consistente a médio prazo já ficaram evidentes: 1) os músicos já não se sentem vira-latas, recuperaram sua autoestima, estão tocando com entusiasmo (uma adesão com prazo de validade: se os problemas financeiros, que Neschling prometeu resolver em seu discurso inaugural, não forem efetivamente eliminados, a "família Neschling" pode desandar); 2) a condução de Neschling à direção artística foi notícia até na imprensa internacional e recolocou de novo o foco da mídia brasileira sobre o Municipal; 3) além das sete óperas programadas, quase todas com dez récitas cada, o que é ótimo e rentabiliza os investimentos, a orquestra fará 26 concertos em 2013, uma temporada sinfônica interessante montada em menos de um mês; 4) se, como se comenta, a Fundação conseguir contratar uma OS (organização social) nos moldes da Osesp, então se destravarão os mecanismos que impedem a gestão eficiente, tanto artística como administrativa (pode ser um sonho, porque falta combinar isso com a secretaria e a câmara de vereadores).

A cereja final no bolo é que Neschling é mesmo uma espécie de Guardiola da batuta nativa. Quem não acreditou nele em 1997, logo após a morte de Eleazar de Carvalho, quebrou a cara. Pode ser que o raio caia duas vezes no mesmo lugar. Vamos torcer.

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