Primeiro fotorrepórter ganha livro e exposição

Trabalho de Aurélio Becherini, que colaborou para o 'Estado' e é apontado como pioneiro no fotojornalismo

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

20 de janeiro de 2009 | 16h29

Uma cidade que passava por profundas modificações - assim era São Paulo ao olhos de Aurélio Becherini, um dos inúmeros imigrantes italianos que povoaram o município na mudança do século 19 para o 20. Recém-chegado, ele logo se encantou com o novo cenário que se descortinava: automóveis substituíam as conduções com tração animal, lampiões a gás eram trocados por iluminação elétrica e construções coloniais vinham abaixo, cedendo espaço para o estilo neoclássico. Com um olhar atento e generoso, Becherini (1879-1939) registrou em fotografias o novo contorno urbano e, como colaborava para jornais e revistas, tornou-se o primeiro repórter-fotográfico da cidade. Veja também: Confira imagens da São Paulo do início do século 20 O título lhe foi justamente concedido pelo Estado, na edição de 17 de maio de 1939, quando foi noticiada sua morte. "Pode-se dizer que foi ele o profissional que maior número de fotografias tirou de São Paulo", diz a nota. "Contam-se por milhares as que tirou da Força Pública, da Guarda Civil a serviço de diversas secretarias de Estado, etc." Becherini manteve uma intensa colaboração com o jornal, registrando, por exemplo, a rotina da cadeia pública e a transformação da Igreja do Carmo.   Fundamentais na recuperação da história de São Paulo, as fotos de Becherini ganham agora seu primeiro livro e uma exposição. Para comemorar os 455 anos da cidade, a Cosac Naify uniu-se à Secretaria Municipal de Cultura, ao Departamento do Patrimônio Histórico e ao Museu da Cidade de São Paulo para editar o volume Aurélio Becherini (236 páginas, R$ 42), conjunto de 193 imagens feitas entre 1904 e 1934 em diferentes pontos da cidade. O livro será oficialmente lançado no sábado, com a abertura da exposição Aurélio Becherini: São Paulo em Transição, no Centro Cultural São Paulo, que vai oferecer um delicioso aperitivo ao expor 45 imagens.   A história da cidade, aliás, sempre fascinou Becherini. Antes mesmo de iniciar o seu conjunto de imagens, ele arrematou diversos originais de outros fotógrafos que tiveram importante atuação na documentação urbana, como Militão Augusto de Azevedo, Valério Vieira, Guilherme Gaensly, entre outros. A partir desse material, Becherini dedicou uma grande atenção às transformações da cidade, especialmente como contratado de várias secretarias estaduais, principalmente a da Viação.   Nas primeiras décadas do século passado, São Paulo viveu um período de intensas transformações. Ruas foram alargadas e pavimentadas, espaços urbanos como o Vale do Anhangabaú ganharam um novo contorno, vários quarteirões foram demolidos para oferecer uma enorme área reservada para construção da Catedral da Sé e sua praça, e viadutos foram erguidos ou renovados, como o do Chá. "Becherini foi o fotógrafo que melhor percebeu esse momento de transição da capital", observa o crítico Rubens Fernandes Junior em um dos três elucidativos textos de apresentação do livro Aurélio Becherini - os outros foram escritos pela pesquisadora Angela C. Garcia e pelo sociólogo José de Souza Martins. "Em sua fotografia, ele assume um entusiasmo pelo progresso ao detectar que a cidade se transfigurava."   Além do faro para descobrir novos formatos da cidade, Becherini, que chegou a São Paulo por volta de 1900, conseguia ângulos novos para as suas fotos, incorporando imprevistos. "Se a cidade se modificava, alterando seu ritmo e sua escala, o olhar atento de Becherini acompanhava a mudança", observa Fernandes. "O que vemos em alguns momentos é uma câmera alta para dar conta do espaço ampliado horizontal ou verticalmente, ou até mesmo a utilização de lentes teleobjetivas para ‘achatar’ os planos e concentrar nossa visão numa massa construída."   Um belo exemplo é a foto reproduzida acima, à esquerda, um flagrante da Rua José Bonifácio, em direção à Rua Riachuelo, em 1916. O fotógrafo posicionou-se entre os trilhos do bonde, que remetem o olhar até uma placa com dizeres significativos, "São Paulo Progride": a cidade avança graças a uma população heterogênea, formada por homens engravatados e outros com vestes mais humildes, mais tradicionais. Todos estão atentos ao fotógrafo, até mesmo o burro da carroça. Becherini, segundo Fernandes, construiu uma obra pontuada pela urgência de produzir um documento histórico que transcenda seu tempo.   Tais documentos interessavam à imprensa, em especial O Estado de S.Paulo, que publicou a primeira imagem fotográfica de sua história na edição de 4 de abril de 1890. Em seu artigo introdutório, Angela C. Garcia destaca o trabalho de Becherini para o jornal. Como a série de fotos publicadas em um domingo de 1911, que retrata a velha penitenciária. Ou modificações urbanísticas, como a construção do Viaduto Santa Efigênia ou a reurbanização do Vale do Anhangabaú. O fotógrafo também acompanhou as variações do gosto popular em relação ao esporte, do turfe ao futebol. A pesquisadora observa uma interessante mudança de foco: inicialmente, as imagens focavam o público presente na arquibancada até chegar, com o tempo, ao real objetivo do encontro, ou seja, a chegada dos cavalos no fim de uma corrida ou os jogadores, durante uma partida.   Becherini também construía cuidadosamente suas fotografias. Em seu texto, José de Souza Martins observa algumas imagens com lupa, o que permite reconstituir aquele momento vivido por São Paulo. Na foto publicada no alto desta página, à direita, é possível detectar a movimentação do então Largo da Sé poucos minutos depois das 12 horas, em algum dia de 1912 - o comércio, a movimentação das pessoas, o estacionamento de charretes, flagrantes de uma cidade que progredia e, por isso mesmo, perdia uma certa inocência.   OUTRAS VISÕES O aniversário de 455 anos de São Paulo, que será comemorado no domingo, motiva outras exposições e lançamentos de livros. O Palácio dos Bandeirantes abre suas portas, no fim de semana, para dois eventos de visuais.   O primeiro é a exposição 1924: A Revolução Esquecida, reunião de cartas, fotografias, mapas, objetos e jornais da época que retratam o maior conflito armado ocorrido na capital paulista. Organizado pelo Arquivo Público do Estado em parceria com o Acervo dos Palácios, a mostra traça um painel artístico, social e político de São Paulo em suas primeiras décadas do século 20.   Segundo o curador Vladimir Sacchetta, conta a história do segundo episódio dos levantes tenentistas - iniciados dois anos antes no Rio de Janeiro com a marcha dos 18 do Forte de Copacabana - que iriam sacudir e pôr fim à chamada República Velha em outubro de 1930. "Mais que isso, resgata a memória da cidade de São Paulo, castigada implacavelmente durante 24 dias pela metralha e pelos bombardeios das forças do governo federal", conta.   Já a exposição Retratos e Personagens de Um Brasil Paulista exibe parte do acervo do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro e dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Pinturas, esculturas e máscaras mortuárias recuperam a história paulista a partir de retratos de personalidades, como a marquesa de Santos, o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, entre outros.

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