Primeiro elogio à loucura

Há poucas décadas, Michel Foucault nos mostrou que até a loucura tem uma história. Eis porque, ao longo dos séculos, o louco foi ora visto como um profeta inspirado pelos deuses, ora como uma aberração monstruosa ou demoníaca, ora como um doente que exige cuidados. Sim... a loucura é a imagem invertida da razão, seu duplo ou "outro", parecendo estar sempre pronta a emergir e a colocar em xeque a ideia que temos de que somos universalmente seres racionais, ponderados. No fundo, em tudo e por tudo, a vida humana tem sido mais um culto à loucura do que à razão e quem compreendeu isto muito bem foi o humanista Erasmo de Roterdã, que, no início do século 16, deu "voz" a esta verdadeira senhora dos homens, fazendo dela a protagonista de seu Elogio.

Regina Schöpke, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Erasmo, no entanto, não foi o único e nem o primeiro a perceber que a loucura finca raízes mais profundas na humanidade do que a razão. Ele teve um ilustre antecessor: o filósofo e jurista Sebastian Brant (1457-1521), de Estrasburgo, autor deste A Nau dos Insensatos. Escrita em alemão, em forma de poema (embora a Editora Octavo, em sua bela edição, tenha optado pela prosa), A Nau foi publicada em 1494. Sua versão latina (Stultifera Navis) apareceu logo depois e espalhou-se pela Europa, fazendo um enorme sucesso. Seguindo o exemplo do velho Noé, Brant constrói um navio para onde sua imaginação conduz todos os tipos de loucos e de loucuras (até o próprio autor se representa ali como um bibliófilo que, mesmo possuindo centenas de livros, não consegue tornar-se mais sábio).

Para fugir do peso das obras de doutrinação moral, Brant opta pelo bom humor, criticando nossos vícios, defeitos e fraquezas sem qualquer ódio ou fanatismo. Se os homens erram quando poderiam acertar, se os vícios são mais atraentes que as virtudes, é porque somos "humanos, demasiado humanos". E, assim, dissecados pelo bisturi aguçado do moralista, os loucos embarcam nesta alegre viagem, onde vemos a nobreza, o clero, os plebeus e os laicos todos juntos, irmanados pela humana insensatez.

Em sua tarefa de inventariar as loucuras humanas, a obra de Sebastian Brant conta com um belo e valioso auxílio para ilustrar suas histórias: as xilogravuras geralmente atribuídas ao genial Albrecht Dürer, Resumindo: trata-se de uma obra de grande valor histórico e artístico; mas, sobretudo, de um valor humano inestimável, já que ela fala de todos nós, para além do tempo e do espaço. Conclusão: se a loucura tem algo a nos ensinar é que a nossa sã razão não tem sido tão sã assim.

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA, AUTORA, ENTRE OUTROS, DE MATÉRIA EM MOVIMENTO (MARTINS)

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