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Primeiro concorrente ao Urso de Ouro revê história da rainha Maria Antonieta

Filme de Benoit Jacquot narra trajetória da mulher de Luís XV, guilhotinada pela Revolução Francesa

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL/BERLIM, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h12

Cerca de 300 mil ingressos já foram vendidos - numa Europa em crise, mas na qual a chanceler Angela Merkel assume a liderança das iniciativas para manter a região unida, a Berlinale de 2012 ainda nem começou e já é um sucesso. Os números são todos superlativos - 4 mil jornalistas, 19 mil participantes e convidados de 115 países. E os filmes - 18 em competição pelo Urso de Ouro, mais centenas distribuídos pelas diversas seções paralelas. O Brasil não compete este ano. Quer dizer. As cores do Brasil integram um dos filmes da competição, o português Tabu, de Miguel Gomes, que tem, inclusive, um ator brasileiro - de São Paulo - no elenco. Ivo Muller integra o elenco das peças Doze Homens e Uma Sentença e Cartas a Um Jovem Poeta (baseada nos textos de Rainer Maria Rilke). E, claro, Xingu, de Cao Hamburger, e Olhe pra Mim de Novo, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, estão no Panorama e no Panorama Especial, respectivamente.

 

Todo ano é a mesma coisa. Os críticos assinalam a vocação política da seleção da Berlinale. Depois de Tilda Swinton e Isabella Rossellini, que premiaram A Teta Assustada e A Separação, como se comportará o presidente do júri deste ano, o inglês Mike Leigh? Seus filmes apontam justamente para o comprometimento social, e Leigh tem feito bela figura nas competições de Cannes e Veneza, onde Segredos e Mentiras e Vera Drake saíram vencedores.

 

Como será seu gosto de espectador? Não muito diferente de suas opções estéticas, com certeza, e por isso há grande curiosidade para ver como Mike Leigh se sairá. A curiosidade maior ainda, indagam-se os críticos e jornalistas de todo o mundo, é pelo que lhes reserva a seleção de 2012. A abertura traz um filme de época, mas Benoit Jacquot se interessa sempre pela contemporaneidade. Não deve ser diferente com Adeus à Rainha. Há alguns anos, Sofia Coppola já deu sua versão de Maria Antonieta num filme polêmico. Como será a (re)visão histórica de Jacquot?

 

A seleção ressuscita os irmãos Taviani, que andavam meio ausentes, e Cesare Deve Morire se antecipa como grande atração, bem como Captive, de Brillante Mendoza, com Isabelle Huppert; Jayne Mansfield's Car, de Billy Bob Thornton; Tabu, o citado longa luso-brasileiro de Miguel Gomes, e duas produções alemãs de autores alemães (da casa, portanto) que costumam fazer boa figura em Berlim - Barbara, de Christian Petzold, e Home for the Weekend, de Hans-Christian Schmid.

 

Fora de concurso, os destaques não são menores. Flores da Guerra, de Zhang Yimou; Flying Swords of Dragon Gate, de Tsui Hark; A Toda Prova, o novo Steven Soderbergh; e A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd, integrando a homenagem a Meryl Streep, que este ano será agraciada com um Leão de Ouro especial de carreira. Meryl está indicada para o Oscar de melhor atriz. Era a favorita, mas aí Viola Davis ganhou o prêmio do SAG, o sindicato dos atores, e fez balançar sua candidatura. Nem por isso Meryl deixará de ser a estrela internacional da Berlinale de 2012. Os Ursos de Ouro para atores e atrizes - Alain Delon, Jeanne Moreau e Kirk Douglas, entre outros, receberam o troféu honorário, em anos precedentes - são sempre emocionantes.

 

 

Berlim presta mais duas homenagens, a dois mortos ilustres. O grande diretor grego Theo Angelopoulos, que morreu atropelado por uma moto em janeiro, será lembrado com a exibição de Trilogy - Weeping Meadow. Outro morto ilustre - Vadim Glovna, nome destacado do novo cinema alemão dos anos 1960/70, a geração de Rainer Werner Fassbinder e Werner Herzog. Embora menos conhecido no Brasil, ele dispunha de boa reputação na Alemanha e foi premiado em Cannes com Desperado City, justamente o filme que a Berlinale exibe no sábado, depois de amanhã.

 

Tudo isso é muito rico e significativo - e ainda existem todas as seções paralelas, Panorama, Fórum, etc. Mas tem gente apostando que já valeria vir a Berlim para o resgate de um monumento do cinema. No fim dos anos 1920, após O Encouraçado Potemkin, Sergei M. Eisenstein fez Outubro e o filme sofreu todo tipo de interferência, até porque Josef Stalin, consolidado seu poder, exigiu do cineasta que a participação de Leon Trotsky fosse minimizada e, depois, eliminada da Revolução Russa. Ninguém ainda sabe direito o que vão trazer as imagens recuperadas de Outubro - nem as legendas, porque, ao longo do tempo, e com fins de propaganda, as cartelas com legendas explicativas (do filme mudo) foram sendo reescritas ao sabor das necessidades da propaganda do momento. A volta de Outubro às origens promete ser um grande evento do cinema - e quem sabe uma tentativa de reescrever a História, uma coisa a que Berlim se propõe, inclusive com seu debate deste ano sobre as transformações do mundo árabe.

 

Para os brasileiros que integram a programação de 2012, Berlim representa o retorno. Cao Hamburger já esteve na Berlinale, com O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, que integrou a competição. Xingu, sua ficção sobre os irmãos Villas Boas, reabre o tema das remarcações dos territórios indígenas, e a plateia politizada de Berlim poderá ser bastante sensível ao assunto. Kiko Goifman e Claudia Priscilla também estão de volta, com o documentário Olhe pra Mim de Novo. "Estivemos em Berlim juntos em 2006. Foi incrível porque estávamos com dois filmes. Havia cinco filmes brasileiros, a Claudia estava com o curta Sexo e Claustro no Panorama e eu, com o longa Atos dos Homens no Fórum. Foi uma experiência única que queremos retomar", avalia Kiko. Ambos apresentam o documentário Olhe pra Mim de Novo, sobre Syllvio Luccio, uma transexual nordestina que se fez cabra macho e leva jeito de agitar o Panorama Especial com sua defesa radical do direito à identidade e à sexualidade.

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