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Laura Greenhalgh
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Primeiras-filhas

Já se vai mais de década desde que o diretor da Time propôs um estudo de caso num curso de jornalismo da Universidade Stanford, na Califórnia.  A revista People, do mesmo grupo de mídia, atravessava um dilema editorial, que seria debatido e avaliado numa classe de jornalistas estrangeiros, onde se achava a colunista. Tínhamos que julgar se seria correto a bíblia das celebridades estampar a capa com Chelsea Clinton, filha do então presidente americano, no auge do escândalo Monica Lewinsky.  Passamos a escavar a relação de Bill Clinton com a estagiária da Casa Branca, seguindo o noticiário trepidante da época (charuto virou brinquedo sexual, manchas em vestido foram parar em laboratório, grampos telefônicos sussurravam o impensável no Salão Oval...), até construir uma opinião de consenso: sim ou não para a capa.

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h17

Desde o primeiro instante me inclinei pelo "não". Por duas razões: 1. O jornalismo corrosivo, da futrica que vende, não me anima. Nem teria talento para ele. 2. A superexposição de uma garota num bafafá daqueles, só por ser a "primeira-filha", não se justificaria. Mesmo que a revista a elevasse à condição de mártir da América, o que ficaria ainda pior. Vimos documentos, reportagens e fotos da jovem de sardas, cabelos crespos, aparelho nos dentes, meio Bill, meio Hillary... colegas argumentavam "sim" em favor da liberdade de expressão e pelo sagrado direito do público saber tudo, o que chega a ser uma presunção da nossa parte. Resumo da ópera: o "não" venceu na simulação da sala de aula e no bureau da People. Chelsea não seria capa naquele momento.

Hoje a garota desengonçada virou uma mulher bonita, aos 33 anos. Continua meio Bill, meio Hillary. Filha única do casal, passou a ter o nome estampado na logomarca da fundação do ex-presidente: em vez de Clinton Foundation, a entidade passa a se chamar Bill, Hillary and Chelsea Clinton Foundation (ok, dispensaram "Buddy", o primeiro-cão, no letreiro). A mudança foi decidida quando Hillary deixou a chefia do Departamento de Estado, meses atrás, para se deliciar num ócio certamente pré-eleitoral. Ainda que se faça suspense, ela é a melhor carta dos democratas para a sucessão de Barack Obama.

Esta semana, uma Hillary mais magra, corte de cabelo jovial e riso solto foi por sua vez capa da New York. Conta à revista que, pela primeira vez em mais de 20 anos, curte a rotina doméstica ao lado do maridão, com quem fala de coisas triviais e vê filmes idiotas (ela é quem diz). Declara-se encantada com os "everyday pleasures", nada de Al-Qaeda, Irã, palestinos versus israelenses, aquelas mortes horríveis em Benghazi, um problemaço que desejaria esquecer.

Bill, por sua vez, volta a tomar café da manhã com a mulher numa espécie de recasamento politicamente recomendável, após longo tempo em regime de separação de casas, viagens, equipes e orçamentos. Tempos atrás, o casal encontrou-se em Bogotá - Hillary em missão de governo, Bill cumprindo agenda como conferencista. À noite jantaram num restaurante local, mas, depois, cada um pro seu lado. Se decidissem o contrário, os respectivos esquemas de segurança entrariam em choque ou colapso. Agora marqueteiros os animam a dividir o palco das conferências. Se já são caros individualmente, imaginem atuando em duo... E sem essa de "pague um, leve dois". Jamais.

Enquanto isso, Chelsea desembarca na fundação tripartite, aplicando de saída um choque de gestão: a entidade amarga déficit financeiro atribuído a desorganização interna, conflito de interesses e certa dificuldade do patrono em gerar lucros. A primeira-filha trocou o CEO do negócio e anda com a tesoura apontada para outros executivos. Bill se ressente pelos antigos colaboradores. Reclama. Hillary aplaude a filha. Se não vier a ser a primeira "presidenta" americana, poderá aterrissar de vez na fundação - ainda que lhe tenham acenado com a reitoria de Yale e a presidência da Soros Foundation. Com as mulheres da casa a fim de mandar, Old Bill corre o risco de ver muita sessão da tarde com os descendentes daquele adorável labrador chocolate.

Mas de tédio não se morre na Clintolândia: Chelsea não descarta iniciar a carreira política. Carreira de grife, claro, mas carreira solo. De novo me vejo torcendo por ela. Que se liberte do protagonismo ofuscante de mamãe e papai.

Outra primeira-filha americana a merecer destaque: Caroline Kennedy, 55 anos. Mas a história aqui é outra. Caroline, única remanescente do casamento John/Jackie, foi apoiadora de primeira hora de Obama. Em janeiro de 2008, quando o ainda senador trabalhava para fincar sua candidatura, ela assinou um editorial memorável do New York Times - "Um presidente como o meu pai". A América mal começava a assimilar a ideia de ter um negro na Casa Branca. Obama ficou grato para sempre, nem tanto pela capacidade de Caroline atrair recursos, mas pela carga simbólica que seu apoio agrega. Indicou-a recentemente para ser embaixadora no Japão, um posto diplomático graúdo em termos históricos, estratégicos e comerciais.

 Há riscos e oportunidades na aposta.  Caroline entende tanto de Ásia quanto Berlusconi de ética. Reconhece a falta de experiência e, sabatinada dias atrás pelos senadores (ainda não confirmaram seu nome), disse que pretende humildemente cumprir a missão. Quer honrar o legado do pai, figura-chave no balanceamento das relações entre os dois países, no pós-guerra. E do tio, Bob, que fez um tour japonês triunfante em 1962, quando era procurador-geral, justamente para estreitar laços.

O problema que é o desafio de Caroline não se resolve com boas intenções. Japão e China, que há muito se estranham, agora disputam o controle das ilhas Sensaku. De sua parte, o Japão quer rever a presença militar americana em Okinawa, tema do qual Obama desvia. Há uma situação interna delicada, com os vazamentos nucleares em Fukushima.  E a Coreia do Norte será sempre aquele vizinho capaz de tocar fogo no quarteirão.

A nova embaixadora terá que ser bem mais do que a herdeira de uma dinastia. A sorte é que seu antecessor, John Roos, fez fama como tuiteiro compulsivo, postando (em japonês) mensagens sobre seus dois temas favoritos: beisebol e Justin Bieber. Roos foi o preço que Obama pagou por não ter escolhido para o posto no Japão o cientista político Joseph Nye, de Harvard, indicação de Hillary. Mas talvez Roos seja, hoje, o bônus de que Caroline precisa para se sobressair na diplomacia.

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