Leonardo Soares/AE
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Primeira sensação

Cia. Armazém analisa em nova peça a angústia da criação

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

Depois do sucesso de Inveja dos Anjos, a companhia Armazém de Teatro bem que podia ter trilhado o mesmo caminho. O lirismo com que costurava histórias de encontros e desencontros familiares passadas à beira de uma ferrovia rendeu-lhe elogios apaixonados da crítica e o recorde de indicações para o Prêmio Shell em 2008. Foi, no entanto, em direção oposta que esse grupo londrinense radicado no Rio parece ter seguido em seu novo trabalho.

Em Antes da Coisa Toda Começar, espetáculo que chega a São Paulo depois de cumprir temporada carioca em 2010, o diretor Paulo de Moraes põe de lado toda a delicadeza que notabilizou sua montagem anterior e busca a violência do que chama de "primeiras sensações". Aqueles momentos em que ainda não fomos anestesiados, em que nos sentimos fortes como indivíduos e carregamos a crença de que tudo é possível.

Espectro. No palco do CCBB, o público deve deparar-se com o fantasma de um velho homem que sonha em reviver. Ator perdido entre as ruínas de um teatro, ele está preso enredado no próprio passado. Põe-se a revirar os anos, que ressurgem não como um rosário de lembranças, mas como o desejo de resgatar experiências ou as tais sensações primeiras a que Moraes se referiu. "O que ele quer é livrar-se do vazio. Para ele talvez seja mais importante sentir dor do que vazio", lembra o diretor, que aqui também aparece como responsável pela dramaturgia ao lado de Mauricio Arruda Mendonça.

É nesse contexto que surgem três personagens em crise. Tomados pela angústia, deparam-se com a necessidade de redimensionar suas vidas, resvalam inevitavelmente na morte. Ao longo da peça, suas trajetórias não se cruzam. Cada narrativa caminha de maneira independente. Empreende idas e voltas no tempo. Atravessa passado, presente e futuro.

De um lado, surge uma cantora que se recupera de uma tentativa de suicídio. Do outro, uma menina apaixonada pelo próprio irmão e incapaz de conformar-se com a interdição desse afeto. No meio do caminho, desponta um artista a duvidar do próprio talento. Na aparência, todos esses episódios estão desconectados. Poderiam ser fragmentos sem nenhum lastro comum, não fossem esses três seres espectros, facetas daquele velho ator a vagar pelo teatro abandonado.

Outro dado a unir essas tramas dispersas é a trilha sonora. Ainda que não chegue a ser um musical, a peça garante posição de protagonismo às canções. Pela primeira vez, os atores da companhia arriscam-se como músicos no palco, como se seus personagens precisassem lançar mão de toda a agressividade do rock and roll para conseguir se impor no mundo.

Em 22 anos de história, o Armazém reinventou-se muitas vezes. Arriscou-se pelas obras de Bertolt Brecht e Nelson Rodrigues. Devotou-se a forjar uma dramaturgia própria, em que texto e encenação parecem indissociáveis um do outro. É segundo essa perspectiva que Antes da Coisa Toda Começar ganha ares de registro, retrato do momento que a companhia vive agora.

Apresentada em julho do ano passado, como atração de abertura no Festival Internacional de São José do Rio Preto, a primeira versão da peça chamava-se Antes. À época, o teatro aparecia como mote, com rastros de Shakespeare e Tennessee Williams a contaminar os diálogos. Na montagem que assistimos agora, tudo parece ter se adensado. As referências explícitas a peças teatrais não existem mais, a angústia de seus personagens espelha a própria angústia do processo de criação desse grupo.

ANTES DA COISA TODA COMEÇAR

Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3651/52. De 4ª a sáb., 19h30. Dom., 18 h. R$ 15

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