Primeira peça de Nélson Rodrigues ganha montagem no Rio

Durante todos os anos 30, quando perambulava mal vestido pelas ruas do Rio, sem dinheiro nem para o bonde, e passava longas temporadas em sanatórios para tuberculosos, o jovem Nélson Rodrigues tinha uma ambição: escrever romances. Leitor de Eça e Dostoiévski, o romance lhe parecia o formato ideal para extravazar seus fantasmas e obsessões, muitos deles deflagrados pela tragédia que levara sua famïlia à ruína: o assassinato do irmão, o desenhista Roberto Rodrigues, na redação do jornal de sua família, Crítica, em dezembro de 1929. Quase em seguida, a morte de Roberto levara também à morte (por ?desgosto?) o pai deles, Mário Rodrigues, a quem se destinava a bala que matara o filho. Meses depois, a Revolução de 1930 destruíra Crítica, ligada ao governo deposto, e os Rodrigues se viram na miséria.Em 1940, Nélson, já casado e com um filho, ganhava precariamente a vida como repórter na seção de esportes do Globo ou como roteirista de histórias em quadrinhos do Globo Juvenil. Em sua imaginação, um romance de sucesso poderia levá-lo a tirar o pé da lama ? e relatos familiares afirmam que ele chegou a começar um romance para adolescentes. Mas, naquele ano, ao passar pela porta do Teatro Rival, ouviu alguém comentando: ?Essa peça está rendendo os tubos.? A peça era A Família Lero-Lero, de R. Magalhães Jr. Nélson fez seus cálculos: uma peça de teatro parecia fácil de escrever e rendia dinheiro à vista, na boca da bilheteria; um romance era mais complicado e, mesmo que desse certo, os direitos autorais no Brasil eram uma piada. Então, ali mesmo, resolveu escrever uma chanchada para teatro. Começou a trabalhar e, em poucas páginas, o que era para ter sido uma chanchada transformara-se num drama tremendo, cabeludíssimo: A Mulher sem Pecado.Quase 60 anos depois da estréia, a primeira peça de Nélson Rodrigues está em cartaz no Rio (não por coincidência no teatro que leva o nome do autor), numa magnífica montagem dirigida por Luiz Arthur Nunes, especialista em Nélson, e estrelada por José de Abreu e Luciana Braga. De toda a obra de Nélson, é a peça menos conhecida: esta deve ser sua quarta montagem importante (houve duas nos anos 40 e outra em 1993) e, seguramente, a mais caprichada. Abstraindo-se as virtudes ou os defeitos do texto, o espetáculo é um show de iluminação dramática (a cargo de Maneco Quinderé) e de composições de cena ? há vários momentos que, de tão belos, deveriam ficar congelados para sempre; a platéia lamenta quando a ação segue e eles se desfazem. Um desses momentos é a cena final, com o protagonista morto no colo da mãe muda e demente (Dona Aninha, interpretada por Vanda Lacerda): é a reconstituição viva da Pietá, de Michelângelo.O anti-herói de A Mulher sem Pecado é um marido em cadeira de rodas e doentiamente ciumento. Controla todos os movimentos de sua bela mulherzinha, vigia seus telefonemas e correspondência, suborna a empregada e o motorista para espioná-la e, no auge do desvario, quer censurar até os pensamentos da mulher, sufocar suas fantasias. Já é Nélson Rodrigues do puro, do escocês, como ele mesmo dizia. José de Abreu, cruzando o palco incessantemente na cadeira de rodas, está impressionante (e parecidíssimo com Joffre, o filho mais velho de Nélson).Decididamente, não era uma chanchada para render dinheiro fácil, como parecia ser o projeto inicial do autor. Ao contrário: Nélson teve enormes dificuldades para encená-la, o que só conseguiu fazer em fins de 1942. Naquela primeira encarnação, A Mulher sem Pecado ficou apenas duas semanas em cartaz, sendo levada para cadeiras vazias, e só foi salva ao apagar das luzes pelos elogios de duas importantes figuras: o poeta Manuel Bandeira e o crítico Álvaro Lins.O fascinante, no entanto, é como um autor que se propunha a escrever uma comédia gaiata deixou-se dominar pelos personagens e, de repente, viu-se com um drama nas mãos. E um drama absolutamente anticomercial porque, no teatro brasileiro de 1942, a traição feminina só podia ser tratada de forma cômica e todo corno tinha de ser feliz. Nélson, com sua criação do marido Olegário, subverteu violentamente essa tradição. Hoje, décadas depois (ou, pelo menos, nesta montagem de Luiz Arthur Nunes), o lado chanchada de A Mulher sem Pecado aflorou à cena e José de Abreu faz a platéia rir diversas vezes com aquelas frases de Nélson que tanto podem provocar gargalhadas quanto exasperação: ?Como é indecente um rosto. Por que permitem o rosto nu??, ?A fidelidade devia ser uma virtude facultativa!? e muitas outras.Não somente as falas são rodriguianas. O visual do elenco, aí incluindo tanto os figurinos quanto o gestual, também é rodriguiano ? mas não rodriguiano de Nélson, e sim de Roberto, seu irmão morto em 1929. Em muitos momentos, o jogo de corpo dos atores Fernando Alves Pinto, Rocco Pitanga e Camilo Bevilacqua parece saído dos perturbadores desenhos de Roberto Rodrigues para o jornal de seu pai e para as revistas onde ele publicava, como Para Todos... e Jazz. Não é por acaso: uma das portas do cenário é um desenho de Roberto. E, para que não haja dúvida, no mesmo espaço do Conjunto Cultural da Caixa, corre a exposição Quando Eu Achava Bonito o Luar, com dezenas de reproduções de Roberto.É a primeira exposição em grande escala do artista, se não se considerar a realizada no Liceu de Artes e Ofícios no Rio, em fevereiro de 1930, dois meses depois de sua morte, e outra, em 1993, pelo A.S. Studio, em São Paulo. Veja bem, estamos falando de uma peça escrita há 60 anos e de desenhos praticamente fora de circulação há mais de 70 ? quantos artistas brasileiros resistiriam a esse teste do tempo?Roberto Rodrigues tinha 23 anos ao morrer. Era um rapaz bonito (para algumas mulheres, bonito demais) e sabia disso. Seu ateliê no Largo do Machado era um entra-e-sai de melindrosas, mesmo depois que ele se casou, aos 20 anos, com uma jovem da alta sociedade. Sua atuação no Salão oficial da Escola Nacional de Belas-Artes era quase anarquista: taxava de ?cretinos? (por escrito!) os jurados do Salão, por eles boicotarem artistas como Victor Brecheret, Cornélio Pena e Ismael Nery. Roberto fora também dos primeiros a estimular o muito jovem Portinari e lhe matara a fome inúmeras vezes. Como artista, estava às vezes mais perto do rococó art nouveau do inglês Aubrey Beardsley ? porque Roberto era um modernista (suas capas de revistas provam isso) e ele tinha um universo temático próprio, que refletia uma alma infernalmente atormentada.Seus desenhos mostravam gente com pés de cabra, ninfas de maiô, cangaceiros brutalizando prisioneiras, orgias de cocaína em casarões da Glória (é possível que Roberto usasse o produto e com certeza experimentara ópio), prostitutas solitárias ou em grupos nos bordéis. O sexo e a morte estavam sempre juntos nos desenhos: homens e mulheres tinham olhos vazados, os corpos exibiam músculos transparentes, casais de namorados usavam luto fechado ou faziam sexo entre cruzes. ?Credo!?, deviam dizer as mulheres ao ver aquelas coisas no jornal ou nas revistas.Só se pode especular sobre aonde iria a arte de Roberto Rodrigues, se o tiro (um só) disparado por uma mulher na redação de Crítica não lhe tivesse cortado a vida tão cedo. Consumada a tragédia, os desenhos de Roberto, amarrados num barbante, também seguiram a via-crúcis da família Rodrigues pelos anos seguintes, de casa em casa por Copacabana e Ipanema, cada qual mais pobre e com percevejos maiores. Enquanto todos o esqueciam e seu nome era soterrado pela glória dos colegas a que ele ajudara, a memória de que Roberto Rodrigues existira só não se dissipou de todo porque continuou viva entre seus irmãos ? um deles Nélson, que vivia repetindo que seu teatro nascera da vida e obra do irmão seis anos mais velho. Nos anos 80, a atriz e pesquisadora Neyla Tavares, grande fã de Nélson, também se empenhou em trazê-lo de volta à tona.Mas talvez seja esta a hora de Roberto Rodrigues. Seu filho, o arquiteto Sergio Rodrigues (mais famoso como criador da ?poltrona mole?) promete para 2001 um livro com sua obra. Enquanto isso, nas paredes do Teatro Nélson Rodrigues, os desenhos de Roberto criam uma atmosfera de sensualidade e pesadelo, ideal para quem vai assistir a A Mulher sem Pecado.A Mulher sem Pecado - de Nélson Rodrigues. Direção de Luiz Arthur Nunes. Quando Eu Achava Bonito o Luar. Exposição de Roberto Rodrigues. Conjunto Cultural da Caixa/Teatro Nélson Rodrigues. Avenida Chile, 230, Rio, tel. (0--21) 262-4942. De quinta a domingo

Agencia Estado,

02 de dezembro de 2000 | 13h22

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