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Primeira-dama do underground

Aline Crumb, mulher do mito do cartum underground, fala sobre vida ao lado de Robert e do primeiro livro no País

Jotabê Medeiros,

04 de dezembro de 2011 | 13h55

Uma garota judia de Long Island conta, em quadrinhos, cenas de sua infância, juventude, as atropeladas aventuras sexuais, a opressão familiar, obsessões com sexo e comida, surtos consumistas, drogas, o amor e a maternidade. Seria um gibi peculiar, mas some-se a isso o fato de que essa garota (hoje zelosa avó) é casada desde 1978 com o mais adorado cartunista do planeta, Robert Crumb, o papa do underground, e temos um material de grande combustão.

Aline Kominsky-Crumb, a garota em questão, está lançando seu primeiro livro de memórias em quadrinhos no Brasil, Essa Bunch É Um Amor (Conrad Editora). Vertiginoso relato autobiográfico, cobre um período de 30 anos de sua vida. São revelações dolorosas. Como Patti Smith, ela teve um filho aos 19 anos, e o deu para adoção. De sua casa na França, enquanto aguardava sair correndo a qualquer hora com a filha grávida (a também cartunista Sophie) para a maternidade para esta ter o segundo filho, Aline falou ao Estado com exclusividade.

Essa Bunch É Um Amor é seu primeiro livro no Brasil, certo? Sim. Bem, eu tive cartuns publicados pela revista Piauí, trabalhos que eu e meu marido fizemos para a revista New Yorker. Eles reproduziram alguns anos atrás. Também estão para publicar na Piauí um trabalho que fiz para uma revista francesa recentemente. Mas nunca houve um livro com meu trabalho sozinha publicado aí.

Bunch é um tipo de coleção de histórias. A primeira foi feita em 1981? Talvez nessa edição, mas a primeira história que eu desenhei foi em 1971, em São Francisco, para uma revista de mulheres, o primeiro grupo de mulheres a fazer quadrinhos de arte juntas. Foi minha primeira história. Nos anos 1970, trabalhei com duas séries, Power Pack and Twisted Sisters, para um coletivo artístico. Mas acho que, no Brasil, a primeira publicada é essa de 1981.

Harvey Pekar, de American Splendor, escreveu o prefácio de Bunch. Harvey morreu há alguns meses, e eu gostaria de saber como ele era pessoalmente. Bom, era muito difícil de se trabalhar com ele. Era muito cheio de opinião e tinha péssima têmpera. Mas era inteligente e divertido, e eu gostava de trabalhar com ele. E era uma pessoa fácil de estar, muito claro na superfície. Não era uma pessoa acolhedora.

Assim como Robert, certo? Não, Robert é um doce.

Mas não é muito sociável, concorda? Não, não é muito sociável, mas isso é porque é tímido. Não é amigável com a mídia. Mas, no lado pessoal, é muito doce, amável, sensível, ouve com atenção e fala de maneira pausada e tranquila, é muito cavalheiresco. Quando está brincando com o neto, é a pessoa mais doce que já vi. Harvey era diferente. Quando ele entrava na sala, não falava com ninguém, e se alguém lhe dirigia a palavra podia começar a berrar histericamente, a ponto de assustar as pessoas. Robert não, ele sempre leva em consideração todo mundo no lugar, é atencioso. Harvey era daquele jeito. Mas é verdade que Robert odeia ser uma figura pública, e ironiza isso, deixa isso claro em suas aparições.

Comprei em Angoulême um CD com a família Crumb inteira tocando música uma vez. É verdade, nós costumávamos tocar. A última vez acho que foi em 2003, nós tocamos em Hamburgo, na Alemanha, em uma livraria. Também tocamos juntos na abertura de uma exposição de arte há uns dois anos, na França. Mas não estamos mais tocando, porque minha filha teve nenê e eu desisti de tocar violino. Robert ainda toca com os amigos, em diferentes bandas.

Você e Robert mencionam música o tempo todo em seus quadrinhos. Quão importante é a música na sua atividade? Bem, nós somos pessoas que vivemos no passado. Somos o tipo de gente que odeia o mundo moderno. Tudo que temos em casa é antigo, velho, coisas dos anos 1920, 1930. Também a música que ouvimos é daquele período. Nós não vemos TV, preferimos ouvir música antiga. Isso tudo cria um certo mood, somos nostálgicos, aquilo tudo é muito bonito pra gente. É como uma vida de cocoon, e creio que isso tudo tem muito a ver com a atmosfera que a gente cria em nossas histórias. É bom para a arte também.

Como você se define? Você se acredita mais uma pintora que se expressa em quadrinhos, ou uma escritora que escreve por meio de desenhos? É uma questão difícil e interessante. Sei que sou uma pintora porque pinto bastante e tenho uma carreira de pintora consolidada, ao largo da de cartunista. Eu comecei a pintar ainda criança. Quando desenho quadrinhos, as histórias me conduzem, mas eu trabalho como uma artista expressionista. Meus sentimentos fluem por meio das histórias, e fazem os desenhos surgirem. Mas quando eu pinto, eu apenas pinto. Por isso é complicado para mim definir. Mas, provavelmente, sou uma contadora de histórias mais forte nos quadrinhos do que na pintura.

Aqui no Brasil, durante a Flip, você disse: “Um dia, vou desenhar com meus pés e ninguém notará a diferença”. Mas eu desenhei! (Gargalhadas). Era uma piada. Mas, por outro lado, não estava tão longe da verdade, porque meus desenhos são muito primitivos. Vêm totalmente dos meus sentimentos. Mesmo quando eu estava na escola de Artes, desenhando certinho, eu já fazia dessa forma. É expressão pura, eu não tenho uma ideia intelectual ou acadêmica de como desenhar, tudo vem diretamente do meu coração. Não consigo controlar, é muito profundo e primitivo.

A outra frase que você disse aqui foi: “Estou feliz de estar aqui, porque fui ignorada por 40 anos”. Você acha mesmo que a fama de Robert a colocou à sombra dele? Não, era uma piada também. Brinco com as expectativas das pessoas. Eu costumo dizer que sou a Yoko Ono dos quadrinhos underground. Por que eu comecei a fazer quadrinhos com meu marido da mesma forma que Yoko começou a fazer música com Lennon. Automaticamente, você se torna odiada. Mas eu fui artista minha vida inteira. Nunca fiz arte por dinheiro, e quando você faz arte assim, você não tem escolha.

 

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