Primeira-bailarina ensina carentes

Foi amor à primeira vista. A primeira-bailarina do Teatro Municipal, Nora Esteves, ia dar só duas aulas no projeto Dançar para não Dançar, da professora Tereza Aguilar, mas se encantou com a iniciativa e hoje é uma das mestras das 140 meninas de sete favelas cariocas que estão aprendendo cidadania por meio da dança. "Sei que nem todas vão sair daqui primeiras-bailarinas, mas vão aprender uma profissão e a disciplina de lutar pelo que querem", diz Nora. Das duas aulas iniciais, ela passou a ter dois encontros semanais com as alunas, às segundas e quartas-feiras. Nora conheceu Tereza como aluna de sua academia de dança, há muitos anos. No último Festival de Campos de Jordão, reencontrou-a e viu o vídeo do projeto Dançar para não Dançar, inspirado na experiência do Balé Nacional de Cuba, de Alicia Alonso, que criou uma companhia de renome internacional com crianças órfãs, logo após a revolução de Fidel Castro. Mas não foi só isso que seduziu a primeira-bailarina. A dedicação das alunas atendidas pelo projeto carioca também a encantou. Já na primeira aula, Nora resolveu ficar. "Elas têm empenho e vontade de aprender que não vi em escolas tradicionais, onde muitas garotas recebem tudo de bandeja", diz. "Achei que podia dar minha contribuição para um basta na violência, por meio da arte, que é uma forma de sensibilizar as pessoas." Nora dá aula para as alunas com idade entre 10 e 13 anos, a fase mais importante da vida da bailarina. "É quando aparecem novos interesses e a menina fica indecisa entre o esforço para tornar-se uma profissional e fazer outras coisas que dão menos trabalho", explica. "Ensinar é uma atividade que dá quase tanto prazer quanto dançar." Projeto - O Dançar para não Dançar já tem cinco anos. Começou com poucas alunas no Pavão-Pavãozinho, morros vizinhos entre Copacabana e Ipanema, na zona sul, e hoje já atende outras cinco comunidades nos Morros do Cantagalo (Copacabana), Mangueira, Chapéu-Mangueira e Babilônia (Leme), Rocinha e Macacos (em Vila Isabel). As meninas têm assistência médica e dentária e recebem o material para as aulas de balé e suas famílias, uma cesta básica. Hoje, o projeto tem patrocinadores que permitem sua expansão, mas Tereza deu aulas de graça e chegou a pagar o material usado pelas meninas de seu próprio bolso, até conseguir os primeiros resultados. Nora recebe o cachê simbólico de R$ 60,00 por aula. Berlim - O próximo passo é mandar as melhores alunas para estágios na Escola de Balé de Berlim, a academia estatal alemã, onde elas passam oito meses entre futuras profissionais. As duas primeiras alunas, Luana Andrade Soares e Jéssica Antunes, estiveram em Berlim em 1999 e adoraram a experiência. Agora, é a vez a de Francisca Emiliano Soares e Barbara Freire, ambas do Pavão-Pavãozinho, fazerem a viagem, no fim de agosto. Enquanto isso, Nora tenta envolver outros colegas de profissão no projeto. Ela quer levar o primeiro-bailarino Paulo Rodrigues, seu partner mais constante, para ensinar os segredos do pas-de-deux e sonha montar um espetáculo. "Mas isso para o futuro", admite. "A gente tem de dar um passo de cada vez e, primeiro, quero mostrar a elas os princípios do balé e o esforço necessário para abraçar essa profissão."

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