Previsões de um cego

Leia a seguir fragmentos do novo romance de Pedro Maciel - cuja narrativa, mais uma vez, [br]rompe com a linearidade -, que deverá sair no primeiro semestre de 2011 pela editora Leya

, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Sofro sonhos. Eles dizem que perdi a noção do tempo. Perdi a noção do tempo, mas não do espaço. Estou aqui e em outros lugares ao mesmo tempo. Não estou fora do tempo, mas além do tempo.

Desde ontem que não tenho mais tempo para os meus antepassados. Tudo que sou o tempo levou. Perdi a noção do espaço, mas não do tempo? Astrofísicos afirmam que podemos prescindir do tempo, mas não do espaço, já os metafísicos reafirmam que podemos prescindir do espaço, mas não do tempo. Há dias sou o Sol, o vento e a nuvem do meu tempo. Um dia o futuro vai devolver o meu passado.

Não tenho futuro porque o meu passado caiu no esquecimento. Eles também dizem que um dia volto a lembrar de tudo. Um dia volto a lembrar de tudo. Ninguém se esquece de nada. Lembro-me vagamente. Procuro-me! Ter vivido e não lembrar. Sobrevivo de esquecimentos. Quem você pensa que é? Não sou ninguém, mas não conto a ninguém que não sou ninguém.

O Sol já havia se ocultado atrás do céu, mas as sombras continuavam alongando-se ao meu redor, como se eu emitisse luz do meu frágil corpo. Estou doente de penumbras? Amanhã vou acordar mais cedo do que as minhas sombras. Para as minhas sombras, todo o tempo é uma ilusão.

Todas as sombras são uma mesma sombra? Há dias em que me desperto, mas continuo assombrado, já que as minhas sombras preferem passar as noites em claro. Eu sou tudo o que as minhas sombras possuem. Onde estão as minhas sombras agora? Foram embora com o por do Sol, disse o doente do quarto ao lado. Sombras gostam de voltar no tempo e a tempo de reparar em seus breves espaços. Um tempo só precisa de um espaço.

Um tempo para cada dia. Há dias em que retorno no tempo para retraçar o itinerário de minha fuga. Acho que estou livre do meu futuro.

Ontem voltei a escrever O livro dos esquecimentos; história fantástica, fictícia, mas baseada em fatos reais. Minha autobiografia é falsa, como a biografia de Ulisses, narrada por Homero, ou a de Dom Quixote, imaginada por Cervantes. Crio histórias a partir do nada, já que não me lembro de onde venho ou para onde vou. O livro dos esquecimentos descreve a história dos homens de amanhã? Todo passado se nega a si mesmo. A memória é um espaçamento do tempo. Estou além do tempo, mas existo em algum lugar do mundo. Há tempos existo em algum lugar do mundo. Será que alguém nos aguarda do outro lado do tempo?

Há dias olho para todos os lados e não vejo ninguém além das minhas sombras. Estou cego! Estou cego! Você não está vendo que estou cego? As pessoas só enxergam o que têm diante dos olhos.

Com o passar do tempo, elas também vão ficando cegas. Há dias não vejo nada, mas prevejo quase tudo. Prevejo tudo que vai ocorrer ao redor do mundo. Faço previsões. Previsões de um cego. Para uns e outros, as minhas visões não passam de imaginações. Eles dizem que eu não sou deste mundo.

Sou onde não estou? Pode ser que ninguém tenha reparado, mas estou aqui e em outros lugares ao mesmo tempo. Eles dizem que estou aqui desde sempre. Estou aqui desde sempre? Perdi a noção do espaço, mas não do tempo. Todo dia me sobra um pouco mais de tempo quando não sei onde estou. Onde estou? Não estou fora do tempo, mas além do tempo. Não há nada mais alucinante do que estar além do tempo. Não volto ao passado, já que o tempo é terrível e muito contraditório.

Pode-se dizer que hoje em dia estou livre do meu passado. Estou além do tempo, mas dentro do Cosmo. Toda noite ouço estrelas e galáxias que morreram há milhões de anos. Há quanto tempo estou além do meu tempo? Há dias em que me pergunto quanto tempo me resta de vida. Pergunto-me, mas não respondo.

Às vezes tenho a sensação de que vivo num futuro que é quase presente. Meu passado caiu no esquecimento? Abro mão de todas as lembranças para que o meu passado não se faça presente. Todo dia me lembro dos meus esquecimentos. Eles também dizem que estou deslumbrado com as minhas deslembranças. Vivo para esquecer e não para lembrar.

(...); todos os dias as minhas sombras anunciam a chegada e a partida do tempo. O doente do quarto ao lado diz que as minhas sombras são muito vaidosas. Há dias em que elas passam horas e mais horas sentadas nas espreguiçadeiras, debaixo dos guarda-sóis. Minhas sombras não têm medo de se queimarem com o fogo do Sol. Eles dizem que elas parecem muito mais velhas do que eu. Hoje em dia minhas sombras estão cientes que não mais me assombro com o aparecimento ou desaparecimento diário do Sol.

Minhas sombras acham que eu sou um Sol, apesar de que meus olhos de pedra só refletem a noite da Terra. Estou cego! Estou cego! Olho para todos os lados e não vejo ninguém além das minhas sombras. Minhas sombras, como o tempo, estão sempre de passagem. Levei a vida toda para encontrar as minhas sombras, essas fábulas do Sol.

Eles também dizem que as minhas sombras são a minha cara e não a minha máscara. Todo dia me desperto, mas permaneço longe da Terra. Eles devem ter aumentado a dose de veneno na veia. Outro dia fiquei a vagar o passado. Reencontrei todas as sombras do meu caminho. Muitas sombras ainda amanhecem comigo, mas morrem longe de mim. Eu só queria convencer as minhas sombras a não se matarem debaixo do pé de laranja da Terra. Não sei mais o que dizer a elas para convencê-las do contrário.

(...); minhas velhas lembranças ressurgem quando tomo novas drogas. Será que eles aumentaram a dose de veneno na veia? Lembro-me vagamente. Os esquecimentos mudaram muito a minha maneira de sentir e interpretar o mundo.

Quem se lembrará de mim que perdi as lembranças? Não quero ser como os outros que vivem de lembranças. Mas há dias, dependendo da velocidade da luz da manhã, me lembro muito bem das tardes que não contemplei. As lembranças sempre inventam seu tempo. Vivo para esquecer e não para lembrar?

Eu poderia contar uma história de ficção, mas a realidade é tão absurda que tudo parece sair da minha imaginação. Antes era eu me drogava, mas agora são eles que me drogam. Perdi a memória, mas ainda guardo lembranças. Não conto a ninguém que guardo lembranças. O esquecimento é fingimento do pensamento? Eles dizem que perder a memória é como estar enterrado vivo. Para mim, o esquecimento me devolveu a vontade de continuar a viver. Há tempos estou livre do meu passado.

De onde venho? Às vezes me pergunto, mas não respondo. Há dias em que tenho a sensação de que o tempo parou. O tempo parou? Não quero ficar aqui, parado, esperando o tempo passar. Estou livre do passado, mas condenado ao futuro? Todo dia corro do tempo parado. Meu tempo é circular e, portanto, eterno. A eternidade não compensa, penso comigo. Todo dia passo horas e mais horas escrevendo a história da eternidade. Eles dizem que perdi a noção do tempo. Meu tempo é um cemitério de ventos? O tempo é vago e impreciso e só serve a quem sofre insônias.

Desde menino que sofro sonhos. Por que tanta gente vive fora da realidade? Talvez porque não sofram sonhos. Esqueço os meus sonhos logo ao me despertar. Não sou louco para viver de sonhos. Será que eles aumentaram a dose de veneno na veia? Antes era eu que me drogava, mas agora são eles que me drogam? Não sofro sonhos. Sofro de infinitos e, às vezes, de finitos.

Deve ser por isso que não engulo o sonho, não engulo a comida, não engulo as lembranças, não engulo o tempo nem as suas sombras diárias. Estou cego! Estou cego! Você não está vendo que estou cego? Há dias sou o tempo que corre no meio da noite. Meus olhos de pedra não mais refletem as horas amanhecidas do Sol.

: não escrevo para contar a minha história ou a história dos meus parentes. Não perco mais tempo com os meus antecedentes ou descendentes. Meus melhores tempos foram vividos na solidão. Hoje em dia sobrevivo de esquecimentos. Lembro-me diariamente de me lembrar das minhas deslembranças. O esquecimento vai me ajudar a preencher o vazio da minha vida. Todo esquecimento é uma memória de um outro esquecimento. Com o passar do tempo, os esquecimentos foram acumulando-se na memória.

O passado sempre passa muito mais rápido para o desmemoriado. Nunca mais imaginei o passado ou sonhei com o futuro, já que só me reconheço no presente, este lapso brevíssimo de tempo. Acho que escrevo por que não tenho passado nem futuro. Um dia volto a lembrar de tudo. Ninguém se esquece de nada. Lembro-me vagamente. Desde ontem que sou o meu tempo. Você me entende?

Eu entendo os antropólogos, os deslembrados e os adivinhos. Eu só adivinho o futuro dos outros porque esqueci o meu passado. Meu passado caiu no esquecimento. Há tempos estou consciente que não tenho futuro. Não tenho futuro. Só tenho o passado. Quem você pensa que é?

Há dias em que dou um perdido em minhas sombras, mas elas voltam do meu passado na velocidade da luz do Sol. Estou livre do meu passado, mas preso ao eterno presente? Às vezes me pergunto se o passado é uma lenda soprada pelos ventos ou se é apenas um tempo que já vai longe de mim. Pergunto-me, mas não respondo. Eu só sigo as minhas sombras por que não quero mais retornar ao passado, este tempo que às vezes insiste em não passar. Será que as sombras são apenas o meu tempo passando antes de mim?

Há dias estou cego. Estou cego, mas deslumbro-me em plena luz da lua. Minhas sombras olham por mim.

Estou cego, mas não sou Édipo que furou os próprios olhos. Hoje em dia olho as estrelas com os olhos das minhas sombras. Minhas sombras creem que eu sou um ser iluminado, apesar de que meus olhos de pedra não mais refletem as horas alumbradas do Sol. Não adianta abrir os olhos por que não vejo ninguém além das minhas sombras. Não vejo nada, mas prevejo tudo. Tudo que sei vai acontecer ainda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.