Flora Pimentel/Divulgação
Flora Pimentel/Divulgação

Pressão instrumental

A Banda de Joseph Tourton traz para o álbum de estreia a força que tem ao vivo

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Com apenas três anos de formação, A Banda de Joseph Tourton, do Recife, tornou-se um dos nomes mais visados no cenário do pop-rock instrumental no Brasil. É notável a evolução do grupo, formado por garotos em torno de 20 anos, que impressionam pelo desempenho no palco, onde estrearam em 2008, no festival Coquetel Molotov. Foi por esses méritos que Diogo Guedes (guitarra e efeitos), Gabriel Izidoro (guitarra, escaleta e flauta transversal), Rafael Gadelha (baixo) e Pedro Bandeira (bateria) figuraram entre as apostas de 2010 do Caderno 2 + Música, em sua edição de estreia, em março deste ano. Depois de um EP com três faixas, o quarteto lança o primeiro álbum, que leva apenas o nome da banda e reproduz fielmente a sonoridade apresentada ao vivo.

A elaboração do álbum - que eles lançam com show hoje no Centro Cultural São Paulo - vem desde que eles tinham cinco temas desenvolvidos. Dois deles, que já estavam no EP - Lembra o Quê? e # 3 - ressurgem bem mais encorpados no álbum. O resultado é significativo dentro do processo de crescimento da banda, que começou a tocar em clima de jam sessions, sem sentir necessidade de ter vocal. Hoje há uma cena forte do rock instrumental brasileiro, em que se reconhece o caminho aberto pelo Macaco Bong, de Cuiabá. A JT segue nessa linha, marcando presença em diversos festivais, como o Jambolada, realizado em Uberlândia (MG) no fim da semana passada. "A gente tem conseguido até mais espaço do que muitas bandas com vocal", observa Diogo Guedes.

No disco, eles procuraram a força da atuação ao vivo. "Se não tiver pressão, não faz muito sentido. Só que a gente também não se prendeu a isso para viajar no disco. Só não fizemos overdub de guitarra", diz o guitarrista. "O processo de shows acaba mudando muita coisa nas músicas. São músicas feitas para o show que depois foram gravadas."

No texto de apresentação da banda, o jornalista Alex Antunes faz comparações curiosas sobre possíveis influências dos anos 1960 e 70, incluindo King Crimson, Public Image, Can, Burt Bacharach, western spaghetti e library music. Diogo diz que não é exatamente o que eles ouvem, mas acredita que a referência que, por exemplo, outros fazem da flauta do Jethro Tull, tenha fundamento. "Embora a gente não tenha tido influência do Jethro Tull. São bandas que a gente não ouve, mas é um tipo de influência que pode ter chegado indiretamente."

A Joseph Tourton (que tem esse nome emprestado da rua onde eles ensaiavam) não se prende a nenhuma referência. Numa mesma faixa, eles podem começar tocando choro e evoluir para o hard rock. Há outras em que o experimentalismo se manifesta, mas sem comprometer o andamento, ou seja, como comentou Antunes, há uma combinação de "liberdade com elegância arejada". Eles tanto pegam pesado quanto dão espaço para a leveza. A cada faixa, o álbum evolui para caminhos inesperados.

Coproduzido por Rodrigo Sanches, Marcelo e Felipe S. (ambos do Mombojó), o disco foi gravado duas vezes. Uma em 2009, a outra, a que prevaleceu, em 2010. Eles se deram até o luxo de não incluir uma faixa gravada no estúdio da Trama. "É uma carta na manga para o próximo disco", diz Diogo. "Quando conseguimos o patrocínio da Petrobrás, resolvemos fazer tudo de novo. Então, temos um outro disco pronto, guardado." Eles contam com as participações do trompetista Guizado, os metais dos Móveis Coloniais de Acaju, a percussão de Homero Basílio, o piano do precoce pernambucano Vitor Araújo, além de China, Chiquinho, Marcelo e Felipe do Mombojó. É uma estreia pra lá de promissora.

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