Presídio feminino inspira monólogo de Azama

Depois de passar pela Argentina, Colômbia e Chile, o dramaturgo francês Michel Azama faz sua primeira viagem ao Brasil para acompanhar os ensaios de A Cela, peça de sua autoria que estréia no dia 2, na Sala B do Teatro Alfa, em São Paulo.Trata-se de um monólogo em que o autor flagra uma presidiária de 33 anos em sua última noite na prisão, depois de ter cumprido uma pena 16 anos pela morte do marido. A atriz brasileira Angela Barros interpretar a personagem sob direção do francês Jean-Jacques Mutin.O texto foi escrito na década de 80, inspirado numa intensa experiência vivida por Azama. Durante três semanas, ele dirigiu uma oficina com 12 internas do maior presídio feminino francês, situado ao norte do país, destinado a mulheres condenadas a penas que variavam de quatro anos à perpetuidade."Nada do que está no texto é ficção", diz Azama. "Meu trabalho foi criar uma situação dramática que provocasse na personagem a urgência de falar, porque no teatro não se fala apenas para passar o tempo, como se faz numa mesa de bar", afirma.Daí ter situado a prisioneira na véspera de ser libertada, o que propicia não só um balanço de sua vida na cadeia como flashes da vida anterior à prisão. E flagra também o terror que a liberdade inspira, o medo de enfrentar a difícil reintegração na sociedade sob o estigma de ex-presidiária."Segundo as estatísticas, o maior número de suicídios ocorre nas semanas que precedem o fim da pena ou nos primeiros meses de liberdade", afirma Azama. Estatísticas deixaram de ser números frios para o dramaturgo francês, após sua experiência no presídio. Ao terminar a oficina, todas as 12 mulheres tinham tanta vontade de manter contato com Azama, que escolheu uma delas, a mais velha, condenada à prisão perpétua, como correspondente oficial."Não poderia escrever para todas e ela passou a ser minha porta-voz no grupo e vice-versa", ressalta. Por meio das cartas, ele acompanhou o drama de Dominique, uma jovem presidiária, condenada a 17 anos por assalto a banco. "Ela era muito engraçada, alegre; tinha duas filhas que foram adotadas por sua mãe, ou seja a avó das crianças", conta. Ao sair da prisão, tentou reaver a guarda das filhas, mas a mãe recusou. Entrou com um processo na justiça e perdeu. Dois meses depois, suicidou-se.Morrendo de medo - Além desse corte drástico na relação com os filhos, Azama fez outras descobertas importantes sobre a vida no presídio, todas tratadas dramaticamente em A Cela. É sabido, por exemplo, que nos presídios masculinos, o crime de estupro é imperdoável, sendo muitas vezes punido com a morte pelos companheiros de cela. Azama descobriu o correspondente feminino ao crime de estupro: o infanticídio.Numa das cenas de A Cela, a presidiária rememora a chegada de uma infanticida ao presídio. "As outras presas não a chamavam pelo nome e diziam, por exemplo, no almoço: infanticida, passe-me o sal." Renegada até pelas companheiras, ela acaba por matar-se. Porém, o mais interessante, está na descoberta do crime "valorizado". "O crime respeitado é o assassinato do marido; a mulher que matou o marido é admirada por sua coragem e em geral, se torna uma líder entre as companheiras de cela", afirma Azama.Azama reuniu várias dessas histórias narradas ou vivenciadas no presídio em uma só personagem. "É uma peça muito difícil, porque há muitas passagens de ritmo e emoção", comenta a atriz Angela Barros. "Num minuto ela ri, noutro entra em pânico e eu, como ela, estou morrendo de medo."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.