Presidiários e assentados vão ao teatro

Em sua 34.ª edição, o Festival Internacional de Londrina, o Filo 2001, iniciado no dia 1.º, mostrou ao público, no fim de semana, além de espetáculos nacionais e internacionais - de teatro, dança e música - o resultado do processo de alguns dos chamados Projetos de Maio, cujo objetivo é de ampliar a inserção do evento na comunidade local.Entre eles, a apresentação da peça Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não, de Bertolt Brecht, na Penitenciária Estadual de Londrina, resultado de oficina com presidiários coordenada por Roberto Lage. No sábado, chamava atenção a presença de crianças na platéia de La Casa de Rigoberta Mira al Sur, da Nicarágua.Eram as famílias do assentamento Dorcelina Folador, integrantes do grupo de teatro Filhos da Terra, que apresentou ao ar livre, no sábado, a peça A Padaria Nossa, também inspirada em texto de Brecht. No presídio, a peça foi exibida no horário de visita, no pátio, para parentes e amigos dos presos. Alguns jornalistas e organizadores do Filo puderam acompanhar a apresentação com os guardas em cima do alto muro que cerca o pátio. "Talvez vocês não escutem o que se diz e, se chover, eles apresentam debaixo da lona e ninguém vai ver nada", avisava Lage preocupado com um possível desvirtuamento de objetivos. Apesar do aviso, foi possível ouvir e ver o trabalho.Advertência semelhante partiu da diretora Bya Braga, que desde janeiro vem trabalhando com o grupo Filhos da Terra. "Chamamos de exercício de teatro o que vocês vão ver aqui. Estamos preparando a terra para depois plantar." Como no caso do presídio, o resultado em A Padaria Nossa é menos importante do que as discussões que os textos de Brecht certamente suscitaram entre os participantes.As famílias do MST retomaram aqui uma prática comum em tempos passados, quando os pais levavam seus filhos ao teatro. E viram um bom espetáculo: La Casa de Rigoberta Mira al Sur. Concebido na linguagem expressionista - tanto na direção quanto no texto, ambos do argentino Aristides Vargas - o espetáculo contrapõem duas personagens mortas - uma menina de 8 anos e sua avó - com os pais da garota. A proposta de diálogo entre passado pleno de utopias e presente abúlico numa mistura de delírio, memória e realidade é bem executada pelos intérpretes. Bonita e bem iluminada, peça prende a atenção até das crianças, que acompanharam em silêncio após o susto inicial ao apagar das luzes: "É o bicho-papão, pai", exclamou alto um garotinho.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.