Presenças musicais

Os teóricos que dizem que viveríamos numa sociedade cada vez mais distante do convívio em público e da confiança nos fatos, "atomizada" em individualismos virtuais, precisam dar novas cambalhotas verbais para explicar o que está acontecendo no mundo da música. Os formatos de compressão digital podem ter tirado mercado dos CDs, mas o número de shows e concertos não para de aumentar, assim como a venda de DVDs musicais que os registram. Ok, os futurologistas também diziam que as salas de cinema iam acabar, mas a sede por presenciar acontecimentos coletivos não desaparece da natureza humana. Numa cidade como São Paulo, numa época do ano como esta, a música junta pessoas como nunca, mesmo que tenham de pagar ingressos bem caros, enfrentar trânsito ainda mais caótico e suportar filas enormes e banheiros sujos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

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Na mesma semana, tivemos não apenas show de Paul McCartney no Estádio do Morumbi e concerto de Itzhak Perlman na Sala São Paulo; foram tantos outros que Caetano Veloso (com Maria Gadú) virou notinha nos roteiros. Em tempos recentes, vieram Rush, Jeff Beck, Belle & Sebastian, o Palmer do Emerson, Lake & Palmer, Lou Reed (com o ultrarruidoso Metal Machine), etc. Ontem, sábado, devo ter ido ao Teatro Alfa ver Tereza Salgueiro, a cantora que era do saudoso Madredeus, e hoje, domingo, há a segunda apresentação de Ornette Coleman no Sesc Pinheiros. Na semana que começa, terá de Lobão no Melograno a Antonio Zambujo no Bourbon. No ano que vem, Amy Winehouse, U2 e Philip Glass. São Paulo, um dia chamada de túmulo do samba, é uma cidade muito mais musical do que se pensa. E ainda espera Tom Waits, Michael Feinstein, Alfred Brendel e outros.

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Paul McCartney sempre foi o melhor musicista dos Beatles - craque em seu instrumento, dom natural para a melodia, bem informado sobre vanguardas - e vê-lo cantando Hey Jude, Yesterday e A Day in the Life, aos 68 anos, para públicos de todas as idades, é o melhor antídoto para os que diziam que eles deram fim à grande era da canção popular. São canções perenes, que têm resistido a versões e adaptações de todo tipo, inclusive para jazz e orquestra. Mas as críticas a John Lennon são injustas. Até as pedras que não rolam sabem que a cooperação e a competição entre os dois eram a alma da banda, mas dizer que a parte que cabia a Lennon era a de agitador e frasista não é verdade. Pode ver que sua carreira solo teve muitos trabalhos de qualidade, mais até do que a de McCartney, que foi buscar parcerias de Michael Jackson, Lionel Ritchie e - as melhores - Elvis Costello.

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Por falar em Elvis Costello, a revista The New Yorker publicou longo perfil dele, escrito por Nick Paumgarten, repleto de elogios ao brilhante ecletismo do compositor e cantor. Mas, para variar, falou quase somente dos CDs que fizeram sua fama, como King of America e Spike, e reservou dois ou três parágrafos para seus trabalhos com Burt Bacharach, Allen Toussaint, Ute Lemper, Anne Marie von Otter e Quarteto Brodsky. Tradução: o repórter não tem o mesmo brilhante ecletismo que elogia em seu entrevistado. Para completar, diz que não entende 50% dos versos de suas letras... Isso, numa revista que se tornou célebre por seus perfis e por seus críticos culturais.

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Na terça-feira vi o concerto de Perlman, acompanhado pelo pianista Rohan De Silva, do Sri Lanka, tocando sonatas de Mozart, Richard Strauss e Debussy e mais um punhado de extras ao gosto do público. Eles fizeram um diálogo muito eficiente, embora não muito expressivo, sobretudo em Mozart; Perlman acentuou em Strauss a força melódica do tema, ciente de que o desenvolvimento não é dos mais felizes; e a dupla foi ao máximo em Debussy, com sua atmosfera de sugestões. Jascha Heifetz e Yehudi Menuhin me falam mais, por sua personalidade, mas a maior ressalva fica por conta do local: sentado no balcão central, ao fundo, tive a certeza de que o concerto teria sido bem mais satisfatório na antiga, intimista e incendiada sala do Cultura Artística.

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Minhas filhas descobriram David Bowie vendo um antigo filme juvenil, Labirinto, em que ele canta meras três músicas. Leio que ele está sumido, gerando boatos de doença, e que uma biografia foi lançada, mas ainda é muito escutado e influente; pergunte ao Beck. Vejo também que, graças à série Afinal, O Que Querem as Mulheres?, jovens de hoje estão descobrindo Procol Harum, A Whiter Shade of Pale (aquela que nos obriga a explicar que fandango é uma dança, não um salgadinho), e o chamado rock progressivo em geral. Este é um desses rótulos difíceis, usado para qualquer música longa e ambientada com harmônicos, de álbuns "conceituais", etc. Pink Floyd, Yes, King Crimson, Jethro Tull, o citado Emerson, Lake & Palmer, Genesis... Lembra? Não? Mas ela também continua escutada e influente; pergunte ao Radiohead.

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Não pense que o novo CD de Tereza Salgueiro, Matriz (Farol Música) acompanhada do Lusitânia Ensemble, seja uma volta aos tempos de Madredeus. Os arranjos são muito diferentes; não têm aquelas repetições e modulações, aqueles tons altissonantes, aqueles sopros de vento através das letras do idioma, que marcaram época. Mas o repertório é interessante porque recua até uma cantiga de Dom Dinis e um poema de Camões, passando por anônimas populares, e vem homenagear o fado e Amália Rodrigues em Com que Voz e Foi Deus. A voz de Tereza parece pertencer à paisagem, com uma tristeza aquietadora.

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"É raro que seja necessário um conhecimento especializado para a fruição espontânea, que é a razão da existência da música." Aos 83 anos, depois de ter feito tantos leitores adquirirem conhecimento especializado sobre música, o pianista e escritor Charles Rosen se viu obrigado a lembrar o óbvio: música de qualquer gênero é música porque fala aos sentimentos; o conhecimento que vale a pena é o que enriquece essa percepção e a expande para limites onde às vezes o costume era obstáculo. É por essa espontaneidade que, como sempre digo, a música é a melhor das terapias. Na madrugada de quinta, por exemplo, alguns problemas me deram insônia, decidi ligar a TV e encontrei K.D. Lang no Multishow. Era uma apresentação com a BBC Orchestra e ela cantava Hallelujah, de Leonard Cohen (outro que deve uma visita a São Paulo). Em poucos acordes os problemas ficaram em suspenso, e assim que terminou o show - que ainda teve So in Love, de Cole Porter - o sono voltou, com todas suas recompensas.

Por que não me ufano (1). Acompanhando o noticiário de TV sobre o conflito contra os traficantes no Rio, que na quinta-feira levou o Bope e a Marinha a ocupar a Vila Cruzeiro, tive a sensação de estar vendo a Fox News ou coisa do gênero. Todos, jornalistas e especialistas, aplaudiam a ação como uma conquista de território inédita, como uma façanha histórica, a primeira batalha numa guerra vitoriosa. A fuga dos bandidos para o Morro do Alemão teria mostrado sua fraqueza, sua desorganização, o impacto das Unidades Pacificadoras sobre o comércio de drogas. Diante de mais de 50 mortes, inclusive de crianças e idosos com balas nas costas, vi alguns até dizendo que em São Paulo, naqueles dias em que o PCC parou a cidade com atos de guerrilha terrorista semelhantes, "foi muito pior" porque mais de 100 morreram, como se a comparação atenuasse os erros.

O que me pergunto: não foram os traficantes que começaram a onda de violência, por comando de chefões presos em penitenciárias supostamente isoladas? Então como é que se pode pintar a ação como uma estratégia de efeito duradouro? Se as facções, como ADA (no Alemão) e CV (na Rocinha), estão unidas porque perderam apoio comunitário para UPPs e milícias, isso significa que ali a pacificação só se fará pela força bélica? Não era esse o discurso de campanha de Sérgio Cabral e Eduardo Campos. A polícia carioca é a que mais mata no mundo e o problema só aumentou. E o mais importante: nos últimos anos, o Brasil avançou muito pouco no setor de segurança também por culpa do governo federal, que sempre posa de "apoiador" nessas horas como se tivesse pouco a ver com tudo aquilo. Os presídios são fábricas de facções e as fronteiras são muito mal vigiadas. O território a conquistar, em suma, é bem maior.

Por que não me ufano (2). Depois de ler sobre as escolhas continuístas de Dilma Rousseff para ministérios e Banco Central, vejo pesquisa sobre o que os brasileiros pretendem fazer com o 13.º salário. Nada menos que 52% vão pagar dívidas. Leio também que a partir de julho do ano que vem os cartões de crédito vão ter de cobrar um pagamento mínimo de 15% em vez de 10% sobre o total da fatura, supostamente para evitar tanto endividamento. Como o americano, o brasileiro pegou gosto por se endividar no cartão. Mas nos EUA os juros anuais são a metade dos juros mensais no Brasil, e se o mínimo não for pago ele virá como 50% da próxima fatura. Nestes absurdos as autoridades não mexem. Mesmo assim, dizem que este governo é "desenvolvimentista". Deve ser porque garante o desenvolvimento de bancos e empreiteiras como nunca antes neste país...

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