Presença marcante na era de ouro do cinema italiano

Análise: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2012 | 02h10

Uma carreira tão bem-sucedida e diversificada como a de Claudia Cardinale nos permite escolher alguns pontos marcantes de sua trajetória e deixar o resto de lado. Qualquer um dos seus grandes papéis bastaria para preencher uma biografia de atriz.

Por exemplo, vamos imaginar que Claudia só tivesse feito a Angelica Sedara de O Leopardo, de Luchino Visconti. Já não estaria na história do cinema? Ou alguém se esquece do baile na casa do Príncipe Salina, ela nos braços do noivo, Tancredi (Alain Delon)? Aos olhos do comunista Visconti, Claudia representa a burguesia em ascensão, prestes a substituir a aristocracia decadente. Angelica era intensa, bonita de morrer, e vinha de uma família endinheirada. O baile celebra as bodas entre o dinheiro e o prestígio. Sem Claudia, a sequência é impensável.

Se ficássemos apenas nesse papel, omitiríamos a Sandra de Vagas Estrelas da Ursa, também de Visconti. Sandra com seu vestido branco, estonteante, presença em que a beleza faz contraponto com a dramaticidade do Prelúdio, Coral e Fuga de César Franck.

Há também a Claudia diáfana de 8 e ½, de Federico Fellini. Nessa elaboração da dúvida de um cineasta, que é 8 e ½, uma figura feminina sobressai na figura algo selvagem de Anita Ekberg. Ao seu lado, a sensualidade um tanto vulgar da amante, Sandra Milo. Mas, a tantas, La Cardinale entra em cena, com seu próprio nome, Claudia, para evocar em Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) algo a que ele aspira, e nunca terá: a beleza mesclada à pureza, o sacro e o profano resumidos numa mulher única, cujo nome é mistério. Não passa, tudo somado, de uma breve aparição, um passeio de carro com o protagonista, mas marca o filme de Fellini de modo indelével.

Ela é estupenda como Aída em A Moça da Valise, de Valerio Zurlini, um dos mais belos filmes já feitos. Aída é uma garota de província seduzida e abandonada por um jovem rico, Marcello. Vai à procura dele, em sua casa, mas quem a atende é seu irmão, Lorenzo, vivido pelo francês Jacques Perrin, que fica comovido pela beleza e angústia da moça. Não se fica indiferente a um filme como esse ou a um trabalho como o de Claudia.

A verdade é que a tunisiana Cardinale tem a felicidade de chegar ao auge de sua carreira durante a grande fase do cinema italiano, entre os anos 60 e 70. Trabalha com Fellini, Visconti, Zurlini, mas também com Pietro Germi, Sergio Leone, Mauro Bolognini e Luigi Comencini. Faz carreira internacional com Blake Edwards, Claude Lelouch e Henri Hathaway. Mas são aqueles papéis nos grandes filmes italianos que a imortalizam.

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