Preocupação com a forma é um ponto comum no grupo

Sempre é complicado, ou parece artificial, encontrar pontos em comum nos trabalhos de vários cineastas. Aproximar é uma forma de compreender. Mas é também uma maneira de reduzir, de diluir particularidades em um quadro às vezes excessivamente geral. Feitas essas ressalvas, parece claro que alguns pontos comuns podem ser deduzidos do atual trabalho dos cineastas mineiros.

Análise: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

Em primeiro lugar, e o mais notável, uma preocupação bastante consciente com a questão da forma. Esse é um tema que deveria estar no horizonte de qualquer artista. Não é assim. Ao discutir o filme, em geral se fala do tema, do elenco, das implicações sociais da obra, etc. Menos no trabalho árduo, do corpo a corpo com a linguagem cinematográfica, indispensável para se chegar a um resultado. Entre os mineiros, esse interesse, esse trabalho intensivo com o material fílmico, é perceptível. Ele aparece na obra, de uma forma às vezes até ostensiva. O que já lhes valeu o epíteto (injusto, a meu ver) de formalistas.

Trata-se de um engano. Equívoco que resulta do entendimento da forma como algo pré-existente, uma espécie de recipiente que irá abrigar determinado conteúdo. Na verdade, o "conteúdo" é obtido pela laboriosa construção da forma. É o que se vê de maneira muito clara em trabalhos como Aboio, Andarilho e A Alma do Osso - para citar alguns dos mais famosos entre eles. Os personagens não são descarnados na tentativa de fazê-los entrar na composição como seres abstratos. Mas são tratados como significantes, puros sons e imagens, inteligíveis uns em relação aos outros e pelo contexto em que se distribuem na obra.

Nem sempre é assim, e um documentário como A Falta Que me Faz, de Marília Rocha, aproxima-se sem tantas mediações das personagens e do sentido do que dizem. Nem por isso descuida da elaboração do material fílmico. O grupo mineiro obtém, com esse procedimento rente à linguagem, um cinema físico, corpóreo, sensorial. Longe de ser formalista, trabalha com a aproximação e não com o distanciamento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.