Prendas de maio

Não estive nas barricadas em Paris. Ainda assim, tive um inesquecível maio de 68

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2018 | 02h00

Por mim, é claro, pois sou dado a contar vantagem, mas também por você, que teve a gentileza de estacionar um olho neste começo de conversa, eu gostaria de dizer que estava em Paris naquele maio de 68, esbanjando a energia de meus 23 anos no arremesso de pedras contra a ordem burguesa e o grande capital, ali encarnados nos brutamontes da CRS, a temida Companhia Republicana de Segurança, sobre os quais, em coro, atirávamos também uma infamante equiparação com a Schutzstaffel de Adolf Hitler: “CRS, SS / CRS, SS!”. Para que o programa fosse completo, levei bordoada, nada de grave, o bastante para que pudesse ostentar, qual condecoração, uma discreta porém glorificante cicatriz numa das têmporas, a comprovar que investira até umas gotas de sangue nas barricadas libertárias de maio de 68.

Lamentavelmente, não foi bem assim. Meu maio de 68 foi vivido às margens, não do Sena, mas do infecto ribeirão Arrudas, na BH natal, imerso, até os cabelos da alma, naquilo que outro nativo, o Hélio Pellegrino, chamou de “útero pantanoso”, imagem que a ele, psicanalista além de poeta, pareceu adequada para designar, do ponto de vista de quem lá nasceu, as Minas Gerais e suas viscosidades específicas.

Mesmo não tendo transcorrido em Paris, maio de 68 ficou sendo para mim inesquecível, e mais que isso: decisivo. Foi naqueles dias que Murilo Rubião me levou para trabalhar com ele no Suplemento Literário do Minas Gerais, publicação semanal que tivera a audácia de criar nas entranhas do diário oficial do Estado. O mínimo que o grande contista fez por mim foi resgatar-me das entranhas de algo ainda mais inóspito, o Departamento Municipal de Águas e Esgotos, onde me cabia chefiar uma empoeirada e espectral Seção de Serviços Gerais.

Sem premeditação, Murilo Rubião estava criando alternativa bem mais do que profissional para quem, na obrigação familiar de ter diploma universitário, ia arrastando um curso de direito, no qual me metera por eliminação. Sem perspectivas, de repente caí - o verbo é este - no jornalismo. E não tardou para que o jornalista acidental se tornasse um jornalista apaixonado. Ao preço, naturalmente, de sufocos e alguns desastres - mas vou poupar você de ouvir uma vez mais a história da entrevista que fiz, foca a mais não poder, com Clarice Lispector, naquele mesmo ano de 68, barbeiragem da qual me penitenciei numa crônica cujo título dá ideia do que foi a coisa: “Meu traumatismo ucraniano”.

Mais que um emprego, Murilo me proporcionou a experiência sem preço de conviver, nos anos de formação, com um punhado de escritores da minha admiração, a começar por ele. Pela redação do SLMG - instalada na Sala Carlos Drummond de Andrade, pois o poeta trabalhara ali de 1929 a 1934, quando se mandou de mala, cuia & lira para o Rio de Janeiro - passava com frequência Emílio Moura, criatura tão fina e delicada quanto seus versos. Sua “cegonha figura”, como o rotulou o compadre CDA, seu amigo desde os 20 anos, alegrava e enriquecia nossos fins de tarde.

Com uma ponta de arrependimento por haver permanecido no “carrascal” - o termo é dele - que era a Belo Horizonte de suas décadas cruciais, Emílio Moura nos incitava a buscar pouso em paisagem menos abafada. Mineiro de Dores do Indaiá, lamentava ter empacado no meio de um caminho que o teria feito deslanchar no litoral, como tantos companheiros de geração, num tempo em que São Paulo ainda não se impusera como alternativa para escritores de outras partes do Brasil. 

Achava, e provavelmente estava certo, que numa cidade como o Rio de Janeiro a sua poesia teria encontrado mais audiência, e, com isso, estímulo para seguir em frente, um pouco como se passara com o “Caulos” - era assim que ele dizia o nome do compadre. “Aqui”, avaliava quase sussurrante o doce Emílio, “você publica um livro e não acontece nada; com o segundo, também não - e o terceiro você já não escreve”.

Numa daquelas tardes, o poeta me tangeu até a janela da redação, e apontou três, quatro, cinco estabelecimentos comerciais no outro lado da avenida Augusto de Lima. “Tente se lembrar de quantos negócios abriram e fecharam em cada um daqueles pontos”, propôs, e nem esperou resposta para concluir, desalentado: “Aqui nada permanece, nem mesmo um botequim”. (Se hoje, postado no lado oposto da avenida, Emílio Moura contemplasse a janela onde estivemos naquele dia, iria constatar que também o Suplemento Literário já não está ali. Por milagre, ainda não se afogou no Arrudas da burocracia estadual; comandado por outro ótimo contista, Jaime Prado Gouvêa, o jornal de Murilo Rubião resiste no prédio niemeyriano da biblioteca pública, na Praça da Liberdade.)

Não foi em busca de algum lugar nas letras que eu, num safanão existencial, me demiti do emprego e da cidade, tomei um ônibus da Cometa e vim para São Paulo, disposto a cavar um escaninho no então prestigioso Jornal da Tarde. Da antiga rodoviária paulistana, com seu teto de bolotas multicores de acrílico, segui para o apartamento de amigos, sem saber que haviam se mudado - e então, na calçada de uma rua chamada Minas Gerais, diante de um edifício batizado Pampulha, percebi que não seria fácil deixar meu “útero pantanoso”.

Mas tudo se arranjaria. Era - faz 48 anos neste dia 16 - aquele mês em que um dito francês recomenda fazer o que dê na telha, mesmo que não seja em Paris: en mai, fais ce qu’il te plaît. Em língua de brasileiro, a rima se perde, mas o convite está de pé. 

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