Premium low cost

Barato, saldão e 'o gerente ficou maluco' são desprezados pelos aspirantes a premium

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2018 | 02h00

Premium é o termo derivado da expressão latina praemium, que originalmente significava algo como “de alta qualidade”. Mas como nós, seres humanos, somos todos Phd em estragar coisas, transformamos a expressão premium numa expressão antipática e elitista, sinônimo de algo muito exclusivo, acessível apenas a alguns poucos privilegiados. Na mesma linha surgiram expressões como VIP, top, limited edition e, mais recentemente, o maravilhosamente deprimente topzera.

Tais expressões podem ser facilmente ouvidas em alguns ambientes nos quais as pessoas têm algumas semelhanças com nosso ex-breve prefeito João Doria e aqueles que o cercam, homens que costumam usar suas malhas em tom pastel com jacarezinho verde penduradas no ombro, mulheres com suas bolsas com letras como LV, MK, CH ou VH insistentes estampadas por todo lado, ambos acompanhados de babás vestidas de branco que monitoram atentamente crianças que brincam com um iPad.

Já a expressão low cost surgiu num outro ambiente, um pouco mais popular, mas longe de ser acessível para todos. O low cost surge como forma de tentar aproximar os aspirantes a premium desse posto tão desejado, mas já avisando que são bens de consumo ou serviços economicamente bem mais viáveis do que aqueles que são premium- voltados exclusivamente para pessoas premium.

Barato, saldão, precinho camarada e “o gerente ficou maluco” são expressões desprezadas pelos aspirantes a premium, pois são associadas a algo excessivamente “povão”, como eles gostam de dizer- o que o low cost não faz. Pessoas premium geralmente não precisam do low cost, mas pessoas que querem ser premium, precisam do low cost para sentirem-se mais perto do premium way of life. É um raciocínio difícil de acompanhar.

Outro dia flagrei-me absolutamente desconcertada quando descobri que minha academia em Lisboa (ginásio, para os locais) se auto intitula “premium low cost”. Fiquei confusa com aquilo. Primeiramente porque aquela academia de premium não tem nada- aliás, eu nunca tive coragem de me deitar naqueles colchonetes encardidos para fazer abdominais. Quanto ao low cost, depende do ponto de vista. Para quem ganha em real e paga contas em euro, só pode ser tido como low cost aquilo que custa até um teto de 2 euros. E a mensalidade custa bem mais do que 2.

De toda forma, premium low cost chegou a me incomodar mais do que premium e do que low cost. Algo um pouco semelhante com o que senti quando vi na estrada, perto de Nazaré, uma loja de conveniência chamada Hiper-mini mercado. Contradições tão infelizes quanto desnecessárias. De toda forma, sigo muito intrigada com essa utilização enviesada das palavras estrangeiras para tentar ganhar status.

Fico me perguntando se poderíamos substituir o premium por algo como bonzão, da hora, supimpa ou, ainda, que eu garanto que você vai amar. Imaginem só: apartamento bonzão no Itaim Bibi; picanha argentina da hora; supermercado supimpa no shopping JK ou café colombiano intenso que eu garanto que você vai amar. Eu honestamente seria muito mais convencida por essas expressões do que por premium.

Já o low cost não precisaria ser saldão ou fruto da maluquice do gerente. Podia ser preço exequível, praticável, plausível ou qualquer outra paroxítona que dê um ar elegante ao anúncio para que os aspirantes a premium não tenham resistência. Hidratação capilar exequível, hamburgueria praticável, carro 0 km plausível. Acho que pode funcionar.

Assim eu até aceitaria que a minha academia se considerasse “academia da hora plausível” em vez de premium low cost. Eu continuaria discordando, porque nem é da hora, nem o preço é plausível. Hoje estava tocando Cher e não tinha nem papel higiênico. Mas pelo menos eu me chatearia menos com as questões linguísticas. Com o resto eu me ajeito.

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