Prêmio para 'geografia afetiva' de Pedro Motta

Mineiro vence competição internacional com o aval do ensaísta e crítico Geoff Dyer, jurado do BESphoto

O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2013 | 02h20

O mineiro Pedro Motta, de 36 anos, é o grande vencedor da nona edição do BESphoto, prêmio criado em 2004 em Portugal por iniciativa do Banco Espírito Santo e Coleção Museu Berardo, hoje extensivo a artistas de países que tenham o português como língua oficial. É um nome para não ser esquecido, como o do artista plástico Carlos Nunes. Motta, cujos trabalhos estão expostos no Instituto Tomie Ohtake, vem crescendo a cada mostra - e foi justamente uma delas, Campo Fértil, realizada no ano passado na Galeria Luísa Strina, que levou o júri do prêmio a selecioná-lo entre os quatro finalistas (o português Albano da Silva Pereira, o moçambicano Filipe Branquinho e a brasileira Sofia Borges, de São Paulo). Cabe lembrar que fez parte do júri de premiação o respeitado ensaísta e crítico norte-americano Geoff Dyer (O Instante Contínuo), um dos convidados da Festa Literária de Paraty (Flip), em julho.

Motta informa que levou cinco meses preparando a série Natureza das Coisas, em que retrabalha 21 fotografias digitais com desenho a lápis sobre impressão de tinta mineral em papel de algodão. O foco do trabalho explora a relação entre imagens reais de árvores com suas raízes imaginárias, desenhadas pelo artista. Se, nas primeiras séries de Motta (como a das caixas d'água, entre 1999 e 2006), era possível identificar traços do trabalho fotográfico da dupla alemã Bernd e Hilla Becher (especialmente as fotos de usinas no vale do Ruhr), em Natureza das Coisas o que fascina o fotógrafo não é tanto a possibilidade de manipular a imagem, mas experimentar novas possibilidades de explorar a relação do homem com a natureza. Seria melhor, então, pensar em outro alemão radical, o cineasta Werner Herzog.

"Sou fascinado pelo jeito com que Herzog lida com a natureza por vezes hostil em seus filmes", diz Motta, observando que seus desenhos sobre as fotos das árvores criam, ao contrário, novas situações que permitem uma relação lúdica do observador com a paisagem. Motta define esse diálogo com a paisagem rural de São João del Rey, onde mora, como decorrente de uma "geografia afetiva", uma vez que são lugares conhecidos desde a infância. "Engraçado é que essas raízes imaginárias na paisagem cabocla têm relação com as estruturas urbanas registradas por mim anteriormente." Especialmente a série Reação Natural (2008/2010), Motta poderia acrescentar. Nela, ele mostra árvores crescendo em locais inusitados, como no interior de uma loja.

Essa relação com a paisagem passa por um olhar educado pela arte, como comprova a série Espera (2005), em que Motta registra paradas de ônibus na zona rural pintadas como se fossem telas concretas.

Houve quem suspeitasse que ele mesmo estivesse envolvido na pintura de todos aqueles pontos de ônibus com o objetivo de fotografá-los, mas o fotógrafo garante que não. Suas intervenções se limitam aos desenhos sobre fotografias.

"Minha amizade com artistas, especialmente com Nuno Ramos, fez com que essa relação com a fotografia mudasse de registro, do documental para a criação", conclui. Suas referências não são mais o casal Becher, Robert Frank ou Josef Kouldelka (perceptíveis na série Tabuleiro, de 2003-2004), mas artistas, entre eles Cildo Meirelles e o minimalista Carl Andre. "Meu trabalho, acredito, caminha para a escultura". / A.G.F.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.