Prêmio Multicultural fortalece o teatro

Ator e diretor de teatro, mineiro, 48 anos, trabalhando com uma equipe fixa de nove pessoas, Carlos Rocha dirige um dos mais importantes festivais de artes cênicas do País, o Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte (FIT). Indicado ao Prêmio Multicultural Estadão Cultura 2001 na categoria fomentador, Rocha falou sobre a importância do festival.Criado em 1994, o FIT distingue-se dos demais festivais brasileiros por ser, desde a primeira edição, um evento de palco e rua. "Nossa filosofia é ter sempre 50% de espetáculos no palco e 50% na rua", diz Rocha que divide o cargo de diretor de programação - também desde a primeira edição - com Eid Ribeiro, dramaturgo, ator e diretor ligado ao Grupo Galpão.Em sua 5.ª edição, no ano passado, o FIT - cuja periodicidade é bienal - envolveu em sua organização, direta ou indiretamente, 300 pessoas. "Muitas tarefas, como montagem de palcos e equipamentos, são terceirizadas." O orçamento ficou em torno de US$ 800 mil, garantidos pela prefeitura local. "Nosso objetivo é conseguir 2/3 da verba com a iniciativa privada, mas até agora isso não foi possível e a maior parte dos custos tem sido coberta pela prefeitura", diz Rocha. Em 11 dias, a cidade abrigou 120 apresentações de 25 espetáculos, para um público estimado em 125 mil espectadores. "É preciso ver para crer a transformação da cidade provocada pelo FIT, o clima que toma conta das ruas e teatros, todos com, pelo menos, 80% de lotação. Um fenômeno comparável a uma festa como o carnaval. Belo Horizonte respira teatro nesses dias."Reversão - Essa é uma das características mais importantes do festival, sua inserção na comunidade. Por motivos óbvios, múltiplas apresentações em espaços abertos - ruas, praças, parques - já propiciam uma participação mais ampla da população. Mas a grande sacada dos criadores do FIT - Rocha, Chico Pelúcio, diretor do grupo Galpão, e Eid Ribeiro - foi estabelecer como critério fundamental a não-limitação do evento aos espaços "nobres" da cidade. As apresentações dos espetáculos, tanto os de palco como os de rua - 60% internacionais, 20% nacionais e 20% locais - espalham-se por diferentes locais, incluindo parques distantes e bairros da periferia. Essa prática propicia uma interessante modificação no fluxo rotineiro de pessoas pelas artérias da cidade. O público da periferia ousa invadir bairros nobres e o público tradicional do teatro, em sua maioria de classe média, acaba deslocando-se para a periferia.Credibilidade - Rocha faz um paralelo entre a filosofia do festival e uma outra espécie de "reversão de fluxo", desta vez motivada pela indicação para o Prêmio Multicultural Estadão Cultura. "Essa indicação significa para nós um reconhecimento muito importante, e raro, não só pela credibilidade desse prêmio mas também pela valorização que ele representa para uma iniciativa cultural séria, fora do eixo São Paulo/Rio."Comparado com outros festivais internacionais igualmente importantes do País, como o Festival de Londrina (Filo), já na sua 35.ª edição, o FIT é um evento jovem. Ele credita a repercussão a duas características básicas: à filosofia curatorial de privilegiar a qualidade artística e ao critério de ampla inserção. "A cidade tem orgulho do festival como uma realização de Belo Horizonte."Critérios semelhantes aos que fundamentam o Prêmio Multicultural Estadão, em que os indicados são escolhidos por uma comissão de notáveis - renovada a cada edição - e os vencedores por um amplo colégio eleitoral, integrado por três mil formadores de opinião. "Embora instituído recentemente, o Prêmio Multicultural Estadão, também em sua 5.ª edição, possuiu grande respeitabilidade e, vencendo ou não, a indicação já nos deixa muito felizes."Para ele, o prêmio valoriza não só um resultado final, mas, principalmente, o pensamento que o norteia. "Nossa filosofia é optar pela qualidade, não importa se ela aparece num espetáculo realista, de linguagem considerada tradicional, ou num outro totalmente experimental. Respeitamos, e desejamos, diversidade de linguagens e gêneros. Mas evitamos os embustes, a polêmica pela polêmica, o falso vanguardismo, os diretores marketeiros", afirma. "Mineiro trabalha mesmo em silêncio. Fica muito tempo construindo alicerces sólidos, mesmo sendo uma coisa que pouco aparece."

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