Prêmio do público para Barcinski

'Entre Vales', que estreia em setembro, sai com dois troféus da festa de quinta-feira à noite, no Memorial

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h17

No Memorial da América Latina, o monumental auditório Simon Bolívar estava lotado na quinta-feira à noite para o encerramento oficial do 8.º Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo. Embora a mostra de novos filmes não seja competitiva, o evento distribui alguns prêmios e o primeiro deles, o do público, foi outorgado por um dos curadores - e também diretores - do Festlatino, Francisco César Filho. Antes de anunciar o vencedor, ele lembrou alguns momentos privilegiados dessa oitava edição.

Um dos homenageados, Guido Araújo, criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia e guerreiro na defesa de um cinema politizado e social, chorou ao lembrar a parceria com Thomaz Farkas, que também lutou para colocar a cara do Brasil nas telas, nos anos 1960. Houve uma sessão para deficientes visuais no Cine Sabesp. E outra, ao ar livre, no próprio Memorial, para comemorar o centenário do cineclubismo. Foi projetado, com acompanhamento de música ao vivo, o filme A Comuna, feito por um grupo de anarquistas em 1913 (e exibido pela primeira vez no ano seguinte).

Na segunda-feira passada, numa noite particularmente fria em São Paulo, a jornalista Maria do Rosário Caetano registrou em seu blog a emoção que foi ver metade da sala maior do Memorial ocupada por jovens (a maioria) que iam ver um filme equatoriano - de uma cinematografia e de um diretor desconhecidos no País. Só isso já demonstra como o Festlatino se consolidou. E Chiquinho, como é conhecido, anunciou o vitorioso do público - Entre Vales, de Philippe Barcinski, com Ângelo Antônio. O filme inaugurou a Première Brasil do Festival do Rio de 2012, há quase um ano. Distribuído pela Imovision, Entre Vales vai estrear em setembro - e na sequência da festa o filme ganhou mais um prêmio, o do Itamaraty para o Cinema Sul-americano.

Entre Vales usa dois personagens e o mesmo ator para contar a história de um homem que implode - e sua reconstrução interior. No Rio, não chegou a causar uma impressão muito forte, e menos ainda em comparação com Não por Acaso, o longa anterior de Barcinski, com Rodrigo Santoro e Leonardo Medeiros. Os dois prêmios no Festlatino alimentam a expectativa para o próximo lançamento. Outros dois homenageados, os críticos José Carlos Avellar e Hugo Martinez Carril, receberam carta branca para fazer uma mostra representativa do fazer cinema no continente.

Carril sofreu um acidente e ficou impossibilitado de vir ao Brasil. Avellar recebeu o troféu dele - a mão espalmada que é símbolo do Memorial - do cineasta João Batista de Andrade. Em diferentes trincheiras do cinema, são lutadores pela salvaguarda da identidade cultural latina. Avellar disse que escreve para prolongar o prazer que ver filmes, e ver a nossa cara retratada com integridade artística, lhe proporciona. Citou um personagem de sua infância, o louco do bairro, no Rio, que recontava à sua maneira os filmes que via nos numerosos cinemas de rua que então existiam. Lembrou também Glauber Rocha, ou um personagem dele, o Cristo negro (Antônio Pitanga) de A Idade da Terra - 'Bem-aventurados os loucos, que herdarão a razão'. Muitos filmes que o festival mostrou nesta semana revelam que às vezes é preciso ser um louco sonhador para fazer cinema em condições tão adversas, na América Nuestra. Nem por isso, os autores deixam de ser racionais, refletindo sobre o mundo em que vivemos e a preservação do espaço cultural no cinema continental.

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