Phil Bambridge/The Guardian
Phil Bambridge/The Guardian

Premiado, livro de enfermeiro inglês aborda luto e delírio

Em 'Onde a Lua Não Está', adolescente volta a acidente sofrido pelo irmão para reconstruir sua própria história

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 18h51

Numa dessas noites em que a família Holmes se reunia na frente da televisão para assistir à novela EastEnders, ou para ler um livro, na cidade inglesa de Bristol, Simon, o filho mais velho, angustiado, pergunta o que será feito dele quando o pai e a mãe morrerem. Eis que surge o caçula Matthew e o tranquiliza: “Eu sempre vou cuidar de você”. O medo do garoto tem justificativa. Nascido com síndrome de Down e com uma série de problemas decorrentes dela, ele conhece suas limitações. Os dois são personagens de Onde a Lua Não Está, mas a história que lemos no livro de Nathan Filer, recém-premiado com o Costa Book Awards (£ 30 mil), na Inglaterra, e que chega agora às livrarias brasileiras, não acaba como as crianças imaginam.

Matthew, o narrador, anuncia a tragédia que esfacelará sua família nas primeiras páginas do livro, quando também antecipa seu drama: “Vou contar o que aconteceu porque será uma boa maneira de apresentar meu irmão. O nome dele é Simon. Acho que você vai gostar dele. Eu gosto de verdade. Mas, daqui a algumas páginas, ele estará morto. E ele nunca mais foi o mesmo depois disso”.

Os irmãos tinham 9 e 12 anos quando a família foi passar férias no acampamento Ocean Cove Holiday Park. Numa das saídas dos meninos para brincar, o mais novo cai, machuca o joelho e Simon, que tinha uma fraqueza muscular, o carrega até o trailer da família. “Shhh, shhh. Vai ficar tudo bem. Ele parecia tão adulto, tão gentil e seguro. Pela primeira vez na vida eu senti verdadeiramente que tinha um irmão mais velho. (...) Eu me senti totalmente seguro”, conta Matthew, já aos 19 anos, no livro que está escrevendo, que é o que lemos. Dias depois, os papéis se invertem. Quem se machuca é Simon, e Matthew não consegue ajudá-lo. Simon morre, e nunca mais ninguém diz ao irmão que tudo ficará bem. E então as coisas dão uma guinada para pior, para usar as palavras do narrador.

O trauma não tratado e a culpa acompanham o garoto nos dez anos seguintes ao acidente e se transformam num emaranhado confuso de lembranças, sensações e invenções que ele tenta organizar, ora no hospital psiquiátrico para onde foi levado depois de um surto e onde vive até que o governo britânico decide cortar a verba do tratamento de pacientes com distúrbios mentais, ora no apartamento em que mora sozinho. É a história de um jovem esquizofrênico que atropela as palavras desagradáveis, que quer contar como seu mundo ficou mais lento e que sabe que é preciso ter cuidado “para desdobrar tudo corretamente, para saber como dobrar de novo, se ficar complicado demais”. É o retrato de um menino consciente de sua situação e que tenta separar o real do imaginário, procura reconstruir a memória que prega peças aqui e ali e que precisa, sobretudo, aprender a conviver com o irmão morto, que o visita de vez em quando – na água que cai da torneira, na tevê, no vento que apaga a vela, na pedrinha que brilha na beira do lago.

Dez anos foi também o tempo que o escritor Nathan Filer passou na companhia de seu narrador e de seu livro de estreia. Enfermeiro por mais de 15 anos e poeta nas horas vagas, ele sempre quis escrever um romance. Em 2003, pouco depois de passar cinco semanas viajando de férias pelo Brasil, para onde ele gostaria que a editora o trouxesse de volta, Filer já era estagiário num hospital psiquiátrico em Bristol quando “conheceu” seu protagonista esquizofrênico. “Há muitos equívocos com relação a essa doença na ficção, e achei que seria interessante escrever sobre isso”, diz o autor nesta entrevista exclusiva ao Caderno 2.

A doença não é algo central na obra, apenas uma condição do narrador. “Um dos problemas da ficção é quando um escritor quer escrever sobre um personagem que tem esquizofrenia e é tentado a recriar a doença. E aí ele limita o personagem a isso”, comenta. E completa: “Eu queria escrever sobre esse Matthew Holmes, e ele tem uma porção de características que não têm nada a ver com a doença, como sua inteligência, o humor, a forma de se relaciona com sua família. A esquizofrenia é apenas uma parte dele. E quando escrevi sobre a doença, tentei fazê-lo de modo sensível, e não propagar mitos”.

Aos leitores menos familiarizados com a doença, o narrador a explica como um “distúrbio mental grave caracterizado pela desintegração do processo de pensamento, de contato com a realidade e de capacidade de reação emocional”.

O autor pesquisou pouco e escreveu mais de memória, tentando reconstruir em sua mente as cenas que presenciou e os casos que acompanhou no hospital – aliás, Filer trabalhou por quatro anos na clínica em que internou seu personagem. Além disso, pegou o trem várias vezes e fez o caminho até o local do acidente de Simon.

Escrever não foi fácil e ele só conseguiu acelerar o passo quando, em 2009, assumiu que se não tornasse o livro sua prioridade não conseguiria colocar o ponto final nele. Foi quando entrou no mestrado de escrita criativa na Universidade de Bath. O que ele aprendeu lá foi focar e criar um espaço para a escrita. Três anos depois, Onde a Lua Não Está era concluído e comprado, num leilão que teve 11 editoras, pela HarperCollins por um valor de seis dígitos.

Até agora, os direitos foram vendidos para 20 países e Nathan Filer divide com Kate Atkinson, autora de Life After Life, que será publicado aqui pela Globo, o título de o mais novo queridinho dos britânicos – os dois competem pelo primeiro lugar nas listas de mais vendidos. Isso porque na Inglaterra ganhar um prêmio é como um divisor de águas na carreira de um escritor, principalmente de um estreante como o enfermeiro de 32 anos, e o livro passa a ser, de fato, lido.

“Meu único sonho era que meu romance fosse editado. Bastava entrar numa livraria e encontrá-lo ali, na estante. Só isso já seria perfeito. O prêmio e o interesse que a obra está despertando em editoras de outros países nunca foram parte do meu sonho. Aliás, acho que o livro é tão inglês, com tantas referências, que nem pensei que ele funcionaria em outros países”, conta.

Mas este é um livro sobre família, sobre o amor entre dois irmãos e sobre nossa tentativa diária de dar conta dos problemas, das culpas, das angústias, das dores e das saudades.

“Há tristeza no livro, e eu também experimentei esse sentimento. Trata-se de um exercício criativo e, claro, quando você escreve em primeira pessoa, por extensão as experiências do seu personagem chegam até você. Mas eu tive que virar as costas para isso e ir para o trabalho, encontrar minha família, viver. Foi uma experiência emocional criativa e minha função foi escolher a frase certa para que ela causasse nos leitores aquele efeito que a história tinha sobre mim”, comenta o autor que se disse inspirado por obras como O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger; The Wasp Factor, de Iain Banks; e So Long, See You Tomorrow, de William Maxwell. 

Sobre a relação entre escrita, leitura, consciência e loucura, personagem e autor concordam. Matthew diz que ler é como ter alucinações e Filer comenta: “Vemos as palavras na página e as imagens se formam na nossa mente. Já escrever é uma combinação. Há um lado emocional, em que acompanhamos o personagem e sabemos tudo sobre ele, mas sou sempre muito cuidadoso para não ir muito longe com isso. Para mim, a escrita de um romance é mais um processo ativo”, diz o escritor que ainda não sabe se escreverá outro livro. Tampouco sabe se seguirá na enfermagem. No momento, tenta se acostumar com a repentina fama.

SERVIÇO

ONDE A LUA NÃO ESTÁ

Autor: Nathan Filer

Tradução: Ryta Vinagre

Editora: Rocco (272 págs., R$ 39,50; R$ 27,50 o e-book)

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literatura

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