Premiado do Jabuti lança novo romance

Pouco mais de meio ano após entrar para o seleto grupo de escritores premiados do País, Menalton Braff lança nesse sábado, em Ribeirão Preto, o romance Que Enchente Me Carrega? A obra chega a livrarias de todo o País na segunda-feira. Essa é a primeira obra do autor depois do livro de contos À Sombra do Cipreste, premiado com o Jabuti na categoria Livro do Ano de Ficção. Braff, que vive em Serrana (SP), já se acostumou ao assédio, mas não esconde sua ansiedade em saber como o novo trabalho será recebido.Esse é também o primeiro romance que Braff lança com seu nome verdadeiro. Antes, publicou Janela Aberta (Seiva), com o pseudônimo Salvador dos Passos, agora definitivamente abandonado. Que Enchente me Carrega? traz o desabafo introspectivo de Firmino, que encontra dificuldades para se adaptar à nova realidade econômica. Como artesão de sapatos, ele vive o dilema entre continuar resistindo como dono de um meio de produção com futuro incerto, ou tornar-se um mero operário. O impasse leva Firmino a perder, aos poucos, tudo o que tem: amigos, mulher, freguesia, casa e, finalmente, a razão.O ponto de partida de Braff para criar esse romance surgiu em 1974, quando morava em São Paulo - o livro, no entanto foi produzido entre 1992 e 93. Ele soube da história de uma família que teve sua loja isolada por tapumes durante a construção do metrô, levando-a à falência. O marido teve infarto a mulher morreu de câncer e os filhos sumiram. "Às vezes, o preço do progresso, do qual sou a favor, é alto", comenta o autor.O título da obra teve inspiração no interior do Paraná, quando Braff viu uma casa à beira de um barranco e imaginou o que a família pensava quando uma forte chuva caía à noite. Todo o texto é narrado na primeira pessoa. São os pensamentos de Firmino, durante uma semana a 15 dias, em cidade indefinida, espalhados em cada página, em linguagem elíptica, como diz Braff mostrando sua agonia diante do inesperado progresso. "A linguagem tem cortes e frases truncadas, devido ao fluxo de pensamentos de Firmino, pois ninguém segura isso de forma contínua."O último capítulo de Que Enchente me Carrega? não tem pontuação - aliás, na sétima página, só há a interrogação que encerra o livro. Braff diz que a falta de pontuação no capítulo final significa a degradação mental de Firmino, quando ele já beira à esquizofrenia. "Tinha a versão pontuada, mas estava inverossímil", explica o escritor. Outra opção de Braff foi pelo final aberto. "Eu queria isso mesmo", afirma ele. Assim, algumas dúvidas, inclusive durante o texto, levam o leitor a pensar e a refletir o que teria ocorrido em certos momentos.O prefácio do livro é de Ignácio de Loyola Brandão, que cita Braff como "uma bênção" e "uma estrela da literatura brasileira", além de mencionar que o romance lembra Angústia, de Graciliano Ramos.Em função do Prêmio Jabuti, a vida de Braff mudou nos últimos meses. Menos o ato de escrever, avisa ele, rapidamente. Mesmo com as viagens diárias para dar aulas em cinco cidades da região, ainda senta-se, religiosamente, todas as noites, pelo menos por meia hora, diante de seu computador. "Esse ato é solitário, autônomo." Entre as novas idéias e os ajustes de textos antigos, ele apenas retocou Que Enchente Me Carrega?, pronto há sete anos. Essa produção durou três meses. "Foi o meu recorde de menos tempo", revela o escritor, que, ao diminuir o número de cidades visitadas, terá dois novos desafios: será articulista do portal da EPTV Ribeirão na Internet e fará comentários literários na TV semanalmente. "Isso vai permitir-me trabalhar mais em casa e dedicar mais tempo à literatura", diz. Apesar da compensação financeira, Braff não quer perder totalmente o elo com os alunos, que discutem sobre livros e deixam-no atualizado.O espaço conquistado na mídia nos últimos meses o anima. "Sem mídia não tem leitor, e sem leitor não se tem nada", brinca. Ele já tem outro romance pronto(além de alguns contos) ainda sem título. Mas não demonstra pressa. "Meu processo é lento, mexo muito em cada parágrafo."Que Enchente Me Carrega? - Romance de Menalton Braff. Editora Palavra Mágica, 144 páginas. Preço: R$ 28

Agencia Estado,

24 de novembro de 2000 | 17h24

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