Preconceito de normalidade

A palavra neutralidade tem circulado muito depois do primeiro turno

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2018 | 02h00

Correção: No dia 24 de outubro, o incidente da suástica ocorrido no dia 8 de outubro e  citado na conclusão desta coluna foi declarado um caso de automutilação em laudo da Polícia Civil do Rio Grande do Sul.

Apesar dos apelos do governo da Flórida, milhares de moradores da área devastada pelo furacão Michael na quarta-feira passada ficaram em casa. É o que se chama preconceito de normalidade. Moravam numa parte do estado que nunca tinha sofrido um furacão com tanta força e fizeram o cálculo com base na memória, não nas previsões de profissionais. Quando Michael chegou com categoria 4, numa escala de 1 a 5, era tarde demais para escapar.

Já devem ter percebido que esta coluna não é sobre meteorologia. É impossível ter participado da cobertura de 2016 nos Estados Unidos e não perder o sono observando o Brasil em 2018. Todo dia, desfilam por canais a cabo que assisto e programas de rádio que escuto na cozinha conservadores no exílio, conhecidos aqui como nevertrumpers. Dos chamados cinco estágios do luto, este pequeno grupo que inclui gente com passagem pelos governos Reagan, Bush pai e Bush filho enfrenta a perda do Partido Republicano estacionado no segundo estágio, raiva, depois de passar parte de 2016 no primeiro, negação. Os três estágios seguintes, negociação, depressão e aceitação, nem pensar.

Não dá para comparar uma democracia constitucional de 227 anos, superpotência do século passado a país emergente onde a democracia foi exceção, não a regra, hão de dizer. Ao que respondo, sim, há muitas diferenças, não estamos na Guerra Fria, mas há semelhanças assustadoras. A esta altura, deixo claro que não estou fazendo defesa do voto útil num menos pior. Pessoas próximas a mim vão votar nos dois candidatos e vão continuar queridas e próximas.

O que me dá a sensação de assistir a um trem desgovernado em câmera lenta é a surdez, cegueira e complacência, habitualmente seguidas de equivalência matemática entre duas más escolhas. A energia dedicada a usar o voto como exorcismo poderia ser melhor aplicada a se engajar para impedir que promessas de ataques já anunciados à estabilidade democrática não sejam cumpridas. 

Nos Estados Unidos do século 21, uma minoria no controle dos três poderes trabalha avidamente para eliminar progressos do século 20 que reparavam injustiças, algumas criadas nos séculos 18 e 19. The Fifth Risk (O Quinto Risco), novo livro do autor best-seller Michael Lewis, descreve como a transição improvisada entre a eleição e a posse de uma trupe brancaleônica que não esperava vencer, definiu o caos em curso, com direito ao rapper e paciente bipolar Kanye West soltando palavrões e esmurrando a mesa do Salão Oval, num monólogo característico de surto psicótico.

Você lê trechos de O Quinto Risco e não pode deixar de pensar na improvisação e incompetência demonstradas desde o voto brasileiro do dia 7. Você consulta as estatísticas americanas de crimes de ódio a partir de novembro de 2016 e reconhece as cenas horrorosas como a do assassinato do mestre de capoeira na Bahia. No sábado, uma pacífica marcha LGBT na Polônia foi apedrejada porque extremistas se sentem fortificados depois de, através do voto, enfraquecerem a jovem democracia polonesa.

A tolerância diante da violência, denunciada tardiamente por quem no passado discursou em defesa de milícias e grupos de extermínio, é outro paralelo nefasto com o que vimos nos EUA, sem que o Brasil tenha instituições tão sólidas para oferecer resistência.

Mais uma vez, uma elite preocupada em proteger privilégios usa o argumento da ineficiência e corrupção de políticos tradicionais mas, com seu preconceito de normalidade, não acredita colocar em risco avanços democráticos que, em caso de retrocesso, o preço não será pago por ela.

A palavra neutralidade tem circulado muito depois do primeiro turno. A suástica cortada no corpo da jovem em Porto Alegre lembrou o peso histórico da neutralidade. 

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