'Precisamos reescrever os contos de fadas'

Para Agnès Jaoui, de Além do Arco-íris, é preciso lembrar que as histórias foram contadas sempre pelos homens

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h09

AGNÈS JAOUI

Aos 48 anos, Agnès Jaoui finalmente consegue construir suas histórias exatamente como imaginou quando, há mais de uma década, decidiu escrever para ela mesma. Sempre em parceria com Jean-Pierre Bacri (que atuou em O Gosto dos Outros e com quem divide todos os roteiros), Em Além do Arco-Íris é Pierre, o anti-Geppetto que se descobre incapaz de conviver bem com Jaqueline, sua namorada, e com as filhas dela. Pierre é também incapaz de conviver com o filho Sandro (Arthur Dupont), o príncipe e a Cinderela, um jovem músico em início de carreira que se apaixona pela sonhadora Laura (Agatha Bonitzer), a Chapeuzinho Vermelho. Depois de achar que encontrou o amor de sua vida em Sandro, cai de amores pelo Lobo Mau Maxime (Benjamin Biolay) e descobre que nem sempre os contos de fadas têm finais felizes.

Laura é garota moderna que, apesar de viver em um mundo contemporâneo e liberal, sonha com o Príncipe Encantado?

Sim. Há muito de mim nela. Apesar de ter tido pais que me criaram sob pilares do psicanalismo e do feminismo, estava, na verdade, esperando o Príncipe Encantado. Queria ser livre, ter minha própria vida, mas, ao mesmo tempo, estava condicionada, inconscientemente, a querer o 'final feliz', como os que foram escritos pelos Irmãos Grimm há séculos e até hoje influenciam meninas do mundo todo.

Laura vai dos braços do Príncipe direto para os do Lobo Mau.

Sim. Mas faz parte de seu amadurecimento. As mulheres ainda se culpam muito por seus erros. Mas errar é normal. A mitologia, os arquétipos femininos, ainda são muito redutores. Não temos muitas opções. Como a história sempre foi contada por homens, as opções acabavam sendo castradoras. Precisamos reescrever os contos de fadas.

O diálogo de Marianne (interpretada por você, que é tia e fada madrinha de Laura), sobre fidelidade é libertador.

Sempre que ouço mulheres reclamando que homens são infiéis e nosso destino é suportar isso, pois somos boas e os homens, maus, me pergunto: 'Será que sou homem?' Isso é um clichê. Fidelidade é algo que depende de cada casal, mas esse velho conceito de fidelidade, de crucificar quem deseja outra pessoa, é louco. Não defendo a infidelidade, mas o ser humano é feito de desejos. É hormonal, é a vida. E se negamos esse desejo, mesmo que não o concretizemos, vamos ficar loucos e infelizes. Mas acredito no amor. Só acho que não há apenas um modelo que serve para todos. É preciso que cada um escreva seu conto de fadas.

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