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Precisamos conversar sobre morte

Eu, com essa minha idade, já perdi muito mais gente do que acho que deveria ter perdido

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2017 | 02h00

Quando meu pai tinha minha idade, ele já não tinha mãe. Quando meu pai tinha a idade do meu marido, ele já não tinha pai. Os pais do Chicão têm a idade dos meus pais, e eles já não têm mais filho. Meu primo Zé, quando tinha a idade do meu irmão, já tinha perdido dois irmãos. Minha avó, com a idade da minha mãe, já não tinha marido. Meu primo Maurício, com a minha idade já tinha perdido a esposa. Eu, com essa minha idade, já perdi muito mais gente do que acho que deveria ter perdido.

Na verdade, acho que a gente sempre pensa que a vida já levou da gente muito mais do que deveria ter levado. É mesmo muito estranho esse nosso comportamento de aprender a lidar com tantas coisas, menos com a morte. Tudo torna-se aceitável num dado momento: a calça que não fecha, o vizinho que ouve música alta, o casamento que acabou, o filho que sempre chega atrasado. Menos a morte.

O mais estranho de tudo isso é que a morte é uma certeza, enquanto todos os outros são hipóteses. Lidamos melhor com dezenas de hipóteses desagradáveis do que com essa única coisa tão certa que é morrer. Tem gente não gosta nem de falar a palavra, gente que tem medo de ler obituário e que tem frio na espinha quando vê carro funerário. 

Eu quero ser cremada. Sempre achei uma boa ideia, mas quando li A Dama das Camélias, tive certeza de que não queria ser enterrada. Menciono, inclusive, que não quero tufos de algodão no meu nariz no velório. Acho brega. Se acharem que vai entrar bicho, coloquem umas bolotas de massinha rosa-choque, fica melhor. 

O lance é que a gente não sabe muito bem o porquê de termos medo da morte. O Gil diz, brilhantemente, numa música, que ele não tem medo da morte, mas sim medo de morrer. Porque a morte é o depois, mas morrer ainda é aqui. “Ainda pode haver dor ou vontade de mijar”, nas palavras do mestre. De fato, não gosto muito de pensar como vou morrer. Câncer, ataque cardíaco, raio na cabeça, acidente aéreo, bala perdida, veneno estricnina, peixeira de baiano. É mesmo um tema incômodo, seja para pensar na nossa morte ou na morte de quem amamos. Nem sei qual das duas dói mais.

Mas da morte, em si, eu não tenho medo. Fico até curiosa. Gosto de pensar no que vou encontrar do lado de lá. E tenho certeza de que será bom. Essa é uma das vantagens de viver sem sacanear ninguém, sem desviar dinheiro público, sem amaldiçoar crianças que têm dor de ouvido nos voos. A gente sabe que não vai se dar mal quando morrer. Mas sempre há alguém que diga “e se não houver nada do lado de lá? E se for mesmo o fim?”. Uai. Se for o fim, acabou e pronto, que nem um celular cuja bateria acaba. Ele não parece sofrer por causa isso.

O grande problema da morte é a galera que fica. Deixar filhos, marido, irmãos, amigos. Deixar os pais é uma coisa que nem deveria existir. Mas, sim, o medo é esse. Estou escrevendo esse texto na poltrona 33 A, de um voo Lisboa-Paris (chique, eu sei, mas ainda nem paguei essa passagem, foi em três vezes no crédito). Há alguma turbulência. Eu pensei: “Se eu morrer agora, vai ser rápido, provavelmente nem vou sentir”. Ou seja: nesse caso, nem tenho muito medo de morrer, assim como não tenho medo da morte. Mas meu medo, meu imenso medo, é de deixar meus pais sem filha, minha avó sem neta, meus irmãos sem a caçula, meus tios sem sobrinha, minhas sobrinhas sem tia, minha enteada sem madrasta, meu marido sem o grande amor da vida dele (permitam-me essa falta de modéstia nesse protótipo de epitáfio).

Percebem? Se a gente lidasse melhor com a morte dos outros, eles não teriam tanta angústia para pensar na própria morte. E todos nós vamos morrer. Merecíamos nos angustiar menos com isso... Talvez nem seja assim tão difícil. É só uma passagem. O que há por dentro nunca se apaga. Precisamos ser amigos da morte.

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