Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Preciosos perdedores

A política nos Estados Unidos e no Brasil hoje é movida a dinheiro e medo

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 03h20

Que tal uma pausa no voyeurismo estimulado pelo circo Donald Trump? Ele já ganhou, nos seus termos. Não por ter aumentado as chances de ser o candidato republicano à Casa Branca, mas por ter conseguido dominar a campanha, as pesquisas de opinião e a atenção da mídia. Como o próprio bilionário escatológico comenta, o negócio dele é ganhar.
Os americanos usam winner, vencedor, como adjetivo que indica virtude. Nas últimas décadas, winner foi usado cada vez mais para indicar capacidade de enriquecer. Se você quer insultar a personalidade de alguém, chame a pessoa de loser, perdedora.
Na semana passada, três homens que não se enquadram nessa noção crassa de vitoriosos nos lembraram da vida política como serviço ao público, não um balcão de negócios.
Começo com o mais influente deles, o ex-presidente Jimmy Carter. Aos 90 anos, Carter revelou que um câncer no fígado se espalhou por outros órgãos do corpo. Carter é o mais longevo ex-presidente em atividade da história americana e se tornou um exemplo de comportamento para este rarefeito grupo de homens que estiveram no topo do poder. O rock star Bill Clinton montou um império global com mais de 2 mil funcionários, já levantou mais de US$ 2 bilhões e cruza o mundo a bordo de jatos particulares de amigos cuja fortuna pode cheirar mal. O Centro Carter chega perto de meio bilhão, continua a fazer muito bem pelo mundo, mas sem o mesmo alarde. Carter podia ser encontrado, até recentemente, apertando a mão de passageiros da classe econômica em voos comerciais. Mesmo aos 90 anos completados em outubro passado, Carter continuava martelando vigas ao lado da mulher Rosalyn, na construção de casas para os pobres promovida pela organização Habitat For Humanity. Apesar de ter sido fazendeiro antes de governar a Georgia, 24 anos depois de deixar a presidência, Carter continua com uma fortuna pessoal avaliada em US$ 7 milhões, muito menos do que Bill Clinton fatura só em palestras em um ano.
Jimmy Carter não conseguiu um segundo mandato e sua imagem promovida pela mídia americana era a de um sulista jeca, um homem fraco, especialmente pela maneira como enfrentou a crise dos reféns americanos em Teerã entre 1979 e 1980. Ele se recusou a bombardear a capital iraniana. E também não começou nenhuma guerra ou atacou militarmente outro país. Mas não lhe dão crédito suficiente por, em plena Guerra Fria, ter minado, antes de Ronald Reagan, o poder da antiga União Soviética. Carter introduziu os direitos humanos na política externa americana e deu trabalho ao penúltimo ditador brasileiro, Ernesto Geisel. Quando almocei com o General Vernon Walters depois de uma entrevista, nos anos 1990, o ex-vice diretor da CIA e ex-adido militar no Brasil durante a revolução de 1964 referiu-se com desprezo a Jimmy Carter como um anão político, um homem modesto que insistia em carregar a própria pasta. O tempo já se encarrega de desmentir o general muy amigo dos nossos ditadores.
O segundo homem fadado a perder, no caso, a eleição para presidente em 2016, é o senador de Vermont Bernie Sanders, que concorre pela indicação do Partido Democrata à presidência, com uma fração irrisória do financiamento de Hillary Clinton. Ele é um socialista confesso mas não como a safra recente produzida no Brasil. Não quer fortuna pessoal ou exército de apparatchiks na rua, quer reverter a desigualdade econômica que não para de crescer nos Estados Unidos, desde o governo Reagan. Sanders está reunindo multidões cada vez mais numerosas e surpreendendo o Partido Democrata, que finge que ele não existe.
O terceiro é Lawrence Lessig, famoso professor de Direito de Harvard, que lançou uma campanha presidencial, na semana passada, via crowdfunding online. Lessig não quer morar na Casa Branca. Quer forçar um referendo sobre o papel do dinheiro no financiamento eleitoral e diz que renuncia para dar a vaga a alguém (Sanders?).
A política nos Estados Unidos e no Brasil hoje é movida a dinheiro e medo. Precisamos de mais perdedores corajosos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.