Preciosas e raras mobílias

Metropolitan exibe 65 peças de marcenaria dos Roentgens, que encantavam a corte do século 18 por seus efeitos espetaculares

MARIA IGNEZ BARBOSA, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h09

Na Europa, entre 1742 e 1800, a pequena marcenaria da família Roentgens floresceu, fabricou luxo e fortuna e produziu a peça de mobiliário mais complexa e de maior valor jamais alcançado no mundo do décor real. Foi uma trajetória de sucesso que acabou quando sobreveio a Revolução Francesa e morreu na guilhotina uma de suas mais importantes fãs e clientes, a rainha Maria Antonieta. Foram-se os anéis mas, para nossa sorte e deleite, sobraram os extraordinários móveis que, apesar de simbólicos da decadência do velho regime, ainda têm o poder de nos entreter e surpreender.

Essa história de mais de 50 anos de uma revolucionária marcenaria, desconhecida até do grande público da decoração e de fabricantes de móveis nos dias de hoje, nos é revelada por meio de uma bela exposição no Museu Metropolitan de Nova York, inaugurada no dia 30 de outubro e que fica em cartaz até 27 de janeiro. Um programa que vale a viagem.

Invenções Extravagantes - O Móvel Principesco dos Roentgens nos permite ver, por dentro, por fora e em suas entranhas, quase 65 peças de moveis assinados por Abraham e David Roentgens, provenientes de diferentes museus e coleções particulares, além de vídeos que ilustram e explicam o funcionamento dos seus curiosos e sofisticados mecanismos.

Mostra-nos também gravuras em que podemos ver algumas dessas peças do século 18 habitando ambientes contemporâneos. Oferece-nos também um belo catálogo, primeira publicação a dissecar de forma abrangente os detalhes da existência dessa extraordinária marcenaria e de seus criadores que tão bem souberam unir a arte à engenharia e à tecnologia. Revela-nos a quem pertenceu cada peça, em geral cabeças coroadas como as de Luís XVI de França e do Rei Frederico Guilherme II da Prússia que bancou o mais caro dos móveis vendidos no mundo até hoje, um armário/escrivaninha que hoje pertence ao Museu Kunstgewerbe de Berlim.

Foi na pequena Herrnhaag, perto de Frankfurt na Alemanha, que teve início a história dessas peças de mobiliário que se transformam, ganham múltiplas funções, se estendem, escondem segredos e fascinam até hoje. Em 1750, quando Abraham Roentgens e seu filho David tiveram a genialidade de se apoiar em tecnologias revolucionárias, desenho inovador e novidades de marketing e de produção para criar armários, escrivaninhas, mesas de jogos e caixas que só faltam falar e começavam a impressionar uma clientela internacional, a empresa se mudou para Neuwied, perto do Reno, perto de Colônia.

De início, o estilo era o rococó, mais ao gosto alemão. Mais tarde, entre 1775 e 1780, pai e filho abandonaram essa tendência para aderir a formas mais clássicas do período como o de Luís XVI. Em 1780, David Roetgens passou a fazer parte da Corporação Parisiense de Produtores de Móveis. Em 1783, visitou São Petersburgo, onde intencionalmente seduziu a imperatriz Catarina da Rússia com a escrivaninha Apollo, na qual o seu cachorro favorito aparecia sob a forma de uma escultura de bronze dourado. Foi também nomeado moveleiro da corte da Prússia e, em 1779, ganhou o título de "Ebenista Mecânico do Rei e da Rainha" em Versalhes.

Na mostra do Metropolitan é possível ver também gravuras, pinturas e silhuetas dos enriquecidos Roentgens, correspondência com os clientes e inclusive recibos, como aquele tirado em nome de Catariana da Rússia. Descobre-se que muitas vezes as criações eram feitas de acordo com as especificações do cliente e que Abraham e David, justamente para poder atendê-los, se aperfeiçoaram na prática da adaptação de elementos pré-fabricados.

Fica-se sabendo também que possuir imponentes relógios era de bom tom no período, sobretudo no Norte da Europa. Alguns chegavam a entoar música, como a de Christoph Willibald Gluck, fato que podemos presenciar na visita à exposição.

Detalhes que ajudaram a tornar esses móveis irresistíveis foram as incríveis fachadas das cômodas ou armários/escrivaninhas que ganhavam contornos arredondados, se recolhiam como sanfonas ou se dobravam e também os vários tampos com funções diferentes de uma mesma mesa. Um móvel desse tipo e proporção podia custar o preço de um terreno e vinham decorados com intricada marchetaria sob a forma de rosas, detalhes de ouro, incrustações de madrepérola, tartaruga, bronze e marfim.

Muitas vezes, apenas pesos e molas, engenhosamente escondidos, bastavam para que o toque de um botão ou a virada de uma chave ativasse uma verdadeira dança de portas se abrindo, prateleiras pipocando, nichos secretos, espelhos, porta velas, pequenos cavaletes e prateleiras surgindo. Impossível ainda hoje não nos deixarmos encantar. E é possível imaginar o que toda essa tecnologia revestida de luxo há de ter significado no século 18.

Era assunto nas festas das cortes, algo com o que surpreender e entreter a aristocracia. Como disse uma reportagem no New York Times louvando a exposição, as criações dos Roentgens "eram gloriosos e belos brinquedos para adultos, antecedentes do cubo Rubik, para não mencionar a televisão, os DVDs e os videogames, cujas narrativas muitas vezes prendem nossa atenção através da surpresa, e das transformações dramáticas".

Apesar de totalmente associada a um período de gastos inconsequentes e à decadência do velho regime, há quem veja essas peças inesquecíveis como precursoras do entretenimento popular, tão necessariamente impregnado de sedutores efeitos especiais.

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