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Preciosa pesquisa dos passos populares

Com 'Humus', Antônio Nóbrega faz antropologia da sobrevivência cultural

HELENA KATZ, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2013 | 02h06

É todo um horizonte que nos mira, da beirada de uma alvorada que faz aparecer os sonhos. Uma promessa que lampeja ao longo de todo o espetáculo. Humus, que inaugura a Companhia de Dança Antônio Nóbrega, é uma espécie de arqueologia das danças populares brasileiras na forma de uma teoria das sobrevivências. Reabre o tempo que parecia sem recurso para além dos já conhecidos - como o proposto pelo Movimento Armorial, Balé Popular do Recife, Grupo Grial, Odundê e Balé Folclórico da Bahia, entre outros - para lidar com o que habitualmente se identifica por 'matrizes da cultura popular'.

O espaço do palco é desenhado por uma sequência de danças com seus apelos aos dialetos, mas sem jargões. Da exatidão das matrizes, o elenco vai desfiando profanações produzidas por Toninho Nóbrega, Letícia Doretto, Luciano Fagundes, Maria Eugênia Almeida, Marina Adib e Rubens Oliveira - os que assinam as coreografias. Profanam as fulgurações dos passos do frevo, dos cortejos do maracatu e do moçambique, do maculelê, dos caboclos de lança do maracatu rural, dos autos do guerreiro, dos cocos, dos mascarados, dos torés, dos caboclinhos, das cirandas e tantas outras, no sentido que Agamben atribui ao termo: a profanação reinsere na vida comum aquilo que o sagrado havia dela retirado. Então, aqueles passos seguem para outros destinos. Vão conversar com Bach, com Chico Buarque, anunciando um caminho outro, com e a partir de todos os já feitos.

O foco, nesse momento primeiro, está no vocabulário. Humus começa no Recife e nos primeiros solos de Toninho Nóbrega, e, com ambos, segue para o mundo. Nesse trajeto de luzes e sombras, porque há momentos mais bem resolvidos e outros ainda por burilar, como convém a toda pesquisa que presta, vai escancarando uma situação desconfortável. Uma vez que na dança cênica que proliferou por aqui se tem pouca oportunidade de encontrar a cultura popular, cada nova cena do espetáculo revela o quanto somos estrangeiros no nosso país. Conhece-se bem pouco do vocabulário e do temperamento específico de cada uma daquelas danças. A ignorância reúne todas aquelas singularidades debaixo do mesmo nome de dança popular, que achata a pluralidade do seu relevo.

Mesmo com essa nuvem de desconhecimento mediando a percepção, é possível identificar que o que está em curso é a construção de um léxico, do qual Humus é o primeiro atestado de eficiência. São nos 13 bailarinos, na sua competência em mostrar como realizam cada uma daquelas tantas danças, que se confere o conjunto de saberes reunidos para dar conta dessa tarefa com tanta habilidade. Em um ano e meio, foram muito bem preparados por professores de danças brasileiras, balé clássico, capoeira, acrobacia, música e dança contemporânea. Eles cantam, tocam instrumentos e dançam com a familiaridade de um tempo mais longo. E os passos surgem com propriedade em cada um dos 13 corpos. Vários se destacam, mas um deles, Luciano Fagundes, brilha com a beleza sempre inesperada que a sabedoria provoca. Faz uma dança-viajante pela coleção das que vão sendo apresentadas, como se estivesse a inaugurar mundos para todos os outros.

O uso que Eveline Borges faz dos materiais e das cores nos seus figurinos localiza na exterioridade o que se passa nos interstícios do projeto, porque também desloca para realocar. É um daqueles casamentos raros entre sintonias finas.

Em meio a tanto a celebrar, uma ameaça fatal espreita a sobrevivência da Companhia de Dança Antônio Nóbrega. Como todas as que atuam no nosso País, ela existe porque ganhou um dos editais que distribui dinheiro público (Petrobras), e logo estes recursos se esgotarão. Uma conquista desta importância é uma larva que já anuncia, com a potência com que veio ao mundo, as metamorfoses das quais já é um Agora, tecido pelas constelações do Outrora e do Futuro, como diz o filósofo e historiador da arte Didi-Huberman. Com a sua companhia, Toninho Nóbrega vem inquietar a dança com uma sofisticada proposta de antropologia das sobrevivências das danças populares. Por tudo isso, e mais o que aqui não coube dizer, mas está lá, exposto em Humus, essa conquista não pode desaparecer, vitimada pelos equívocos que engessam hoje as políticas públicas para a cultura no Brasil.

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