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Prático ou prazeroso

Talvez a explosão dos fidget toys, como são conhecidos esses brinquedos, seja apenas (mais um) triunfo do analógico sobre o virtual

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 03h00

Levante os olhos do jornal – ou da tela do celular – e olhe em volta por alguns instantes. Se houver crianças por perto, é bem possível que elas estejam divididas em dois grupos: parte com a cara afundada no celular, parte mexendo e remexendo em algum brinquedo estranho. À primeira vista, ele pode parecer servir apenas para ficar rodando entre os dedos, sendo apertado, amassado, revirado, num ciclo sem-fim nem propósito. Há alguns anos, eram os spinners, brinquedos que giravam a altas velocidades. Agora são os pop its, praticamente uma versão em borracha de um retalho de plástico-bolha, mas que, por ser feito de material resistente, permite que se passem horas amassando (e desamassando) as bolinhas. Além do polvo de pelúcia, dos vários tipos de squishy (peças esponjosas) e até da volta do cubo mágico.

A despeito do marketing que cerca esses brinquedos, no fundo eles não são terapêuticos. Esqueça a história de que aliviam o estresse ou melhoram a concentração. Eles fazem sucesso porque são prazerosos. E, se formos rigorosos, essa moda vem de muito, muito antes de algumas bugigangas viralizarem no TikTok.

Do rosário católico à japamala hindu, passando pelo masbaha islâmico ou komboloi grego, manter bolinhas ou outros pequenos objetos entre os dedos fazendo movimentos repetidos parece ter um apelo para os seres humanos. Nossa mente fica envolvida num certo modo automático, desligando-nos do tempo – quem nunca se perdeu estourando plástico bolha?

E, como eu dizia, isso tem muito pouco a ver com um efeito antiestresse ou de melhora de foco. Encontrei vários estudos científicos testando a eficácia para aumentar a concentração ou reduzir a ansiedade, e na maioria das vezes os brinquedos não geraram tais resultados. O que, para mim, está longe de ser um problema. Nós é que temos mania de querer encontrar uma função útil em tudo.

Talvez a explosão dos fidget toys, como são conhecidos esses brinquedos, seja apenas (mais um) triunfo do analógico sobre o virtual.

O ser humano é analógico. Suas experiências sensoriais, suas fontes de prazer, sua maneira de estabelecer conexões, é tudo analógico por excelência. Claro que o digital traz uma velocidade ímpar quando se trata de priorizar a eficiência. Mas, quando se trata de fruição, de desfrutar de algo, normalmente a experiência real é imbatível. Veja o caso da música: embora o streaming movimente um volume de dinheiro muito maior, o mercado de discos de vinil vem crescendo proporcionalmente mais. Até as fitas cassetes seguem firmes em seu retorno, atingindo este ano o maior número de unidades vendidas em quase duas décadas. No caso dos livros, embora a venda de e-books tenha crescido mais que a de livros físicos nos últimos anos, estes ainda representam praticamente 95% do mercado total. Aparentemente, o que se ganha em praticidade com o virtual perde-se em sabor.

A pandemia acelerou nosso mergulho no mundo digital, seja em encontros a distância, visitas virtuais a museus e até turismo online. Mas, como mostram as crianças que amassam brinquedos em vez de ficar no celular, a disputa entre o prático e o gostoso está longe de ser resolvida.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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