Praia de mineiro

BH, que faz 120 anos nesta terça-feira, pode não ter mar, mas praia, tem: o botequim

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2017 | 02h00

Algum dia, se não me falecerem engenho & e arte, ou se antes disso não falecer eu próprio, haverei de publicar um livro que há anos tenho em ruminação, só faltando escrever, cujo título será Praia de Mineiro.

Não, não estou falando de Guarapari, Marataízes ou qualquer outro município litorâneo do Espírito Santo, que nos verões de minha longínqua infância eram tomados - hoje, não sei - por hordas de montanheses sedentos de água salgada. O que não quer dizer que nós, nativos de um Estado mediterrâneo, não temos mar; de forma alguma: o lugar está lá, falta apenas a água. Enquanto ela não vem, o jeito é dar um tempo em praias capixabas.

Foi numa delas, a de Guarapari, então vilarejo, que vi o mar pela primeira vez, aos 6 anos de idade. Assim que nossos pais deixaram a bagagem no Hotel e Bar Azul e nos soltaram no areal, o primogênito Rodrigo, futuro engenheiro, correu à rebentação, testou a água e só assim sentiu-se em condições de informar que ela era mesmo o que diziam: salgada. Já o segundo filho, dado a devaneios, fincou os olhos no horizonte, esperançoso de enxergar a tão falada Europa. Os pés afundavam na areia, mas a imaginação andava nas nuvens. O moleque, ao que parece, já se guiava pela divisa que décadas mais tarde ouviria do amigo Paulo Leite e tomaria para si como programa de vida: um pé na terra e outro na jaca!

É bem outra, porém, a praia de mineiro inspiradora do livro que, pronto na cabeça, baixará ao papel, espero, num futuro não muito distante. Trata-se de uma instituição de outra natureza, e isto haverá de ficar claro já no subtítulo da obra: “O botequim na vida de Belo Horizonte”. Quem foi ali adolescente na Idade Média, como este cronista, bem sabe que, excetuado o boteco, não havia outro lugar para onde fugir quando, no escarpado seio da Tradicional Família Mineira, o bicho pegava.

Fosse o garoto criado no Rio e bastaria atravessar a avenida Atlântica, a Vieira Souto, a Delfim Moreira. Em São Paulo, pegar a Anchieta rumo ao litoral. Para quem se criou em Belo Horizonte, a coisa era outra. Sempre foi. Em tempos ainda mais distantes, as décadas de 20 ou 30, quando as estradas rumo ao litoral eram ruins ou simplesmente inexistiam, o recurso mais à mão era uma escapulida até a Lagoa Santa, distante 35 km. Pelo menos foi o que registrou, com ironia inconfundível, o cronista Antônio Crispim, pseudônimo sob o qual se disfarçava Carlos Drummond de Andrade, num escrito de 1930: “A doce lagoa é o nosso balneário mediterrâneo, assim uma espécie de substitutivo urgente de Copacabana e outras praias que Deus presenteou ao Rio para reviver ali o tempo das nereidas e dos tritões”.

Criada dez anos mais tarde, ainda sem adornos niemeyerianos, a represa da Pampulha não serviu de sucedâneo. Em 1977, a fissura por uma praia era tanta que uma galera jovem contratou um caminhão de areia, despejou-a numa esquina do bairro do Prado e nela espetou guarda-sóis, até que, no terceiro fim de semana, a Polícia acabasse com a farra, devolvendo a moçada ao bar.

Embutida no botequim, a conotação de refúgio talvez possa em parte explicar por que Belo Horizonte foi considerada a capital brasileira com mais bares per capita - marca que, desconfio, ainda não lhe foi arrebatada neste 12 de dezembro em que comemora 120 anos de existência.

Minha geração foi jovem numa cidade farta em botecos. Pouquíssimos, porém, a céu aberto, e menos ainda esparramados nas calçadas, como nos dias de hoje. Mesmo lá dentro, o que predominava no cardápio comportamental era o comedimento. Nesse terreno, não se andara tanto assim em relação à Belo Horizonte de Drummond e Pedro Nava, a dos anos 20, com pouco mais de 50 mil habitantes. No legendário Bar do Ponto, a chamada “meca boateira” da cidade, convinha disfarçar a cachacinha numa xícara de café. O cabaré da espanhola Olimpia Vazques, é também Nava quem conta, abrigava vesperais para cidadãos de bem que, de volta ao lar, iriam comandar, graves e morigerados, o jantar da família mineira.

Erguida sobre os destroços do povoado de Curral del Rei, a aniversariante desta terça-feira era um conglomerado de botecos antes mesmo de ser inaugurada, em 12 de dezembro de 1897. Durante a construção, iniciada em 1894, tais bitacas davam trabalho a Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro delegado de polícia da futura capital.

No comando de um contingente que não chegava a 10 soldados, o implacável capitão Lopes logrou manter sob controle a patuleia que, à noite, burburinhava nos botequins daquele vasto canteiro de obras. Uma foto, que revejo agora, atesta que sua aparência era mesmo de impor respeito: bigodeira pontiaguda qual antenas perquiridoras, orelhas grandes e ventas abertas de cão farejador. Morreu famoso e major, em 1923.

Alguns anos atrás, passeando por Belo Horizonte, fiquei impressionado com a fartura de bares, boates e afins enfileirados numa rua de bairro de classe média que conheci pacata e familiar, na qual, aliás, adolesciam o futuro Frei Betto e, em tempo de pedaladas exclusivamente ciclísticas, Dilma Rousseff. Embora fosse um meio de semana, dali jorrava, madrugada alta, uma zoeira capaz de inviabilizar o sono em toda a região. Teria dado um trabalhão, aquela rua, ao ferrabrás que lhe dá nome, o temido Major Lopes.

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