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Pragas, pestes e quarentena

As aparições em comissão (tudo no governo é em comissão porque um pode pôr o erro no outro) presididas pelo presidente Bolsonaro só fazem piorar o que já é uma calamidade social

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2020 | 03h00

Viver o isolamento obrigatório e racional: uma medida crítica contra um vírus mortal é, no mínimo, reitero, um duríssimo desafio cultural, pois contesta “hábitos” do “estar perto” ou “junto” e do “visitar” tidos e havidos como práticas “naturais”. Afinal, conforme estamos vendo e ainda veremos com mais força, a casa como afirmo no meu trabalho é a única instituição que funciona no Brasil.

As aparições em comissão (tudo no governo é em comissão porque um pode pôr o erro no outro) presididas pelo presidente Bolsonaro só fazem piorar o que já é uma calamidade social. O próprio governo precisa aprender a usar as suas máscaras e já deveria estar providenciando leitos para as vítimas da pandemia. 

Para quem roga a praga de que o Brasil daria errado porque foi assim desenhado, tudo se confirma. “Eu bem que dizia...” . Só que o momento não é brasileiro, é também mundial. Contudo, para confirmar a praga do “dar errado”, temos o clã dos Bolsonaros que não falha em engendrar crises.

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Não deixa de ser curioso que países europeus que inventaram a guerra moderna, com suas regras que tornam o matar algo não só legítimo, mas patriótico – produtor de promoções e medalhas –, tenham falado dessa peste como uma “guerra”. Não há dúvida que há luta, mas sua natureza é bem diversa. Guerreamos por mercado, território e honra ofendida num espaço exterior ao nosso corpo e contra pessoas que se diferenciam de nós somente pelo uniforme. Viraram inimigos perigosos, mas têm intenções e seus movimentos são previstos e planejados.

Mas esse desgarrado vírus tem, como as bruxarias, uma autoria inesperada. Num sistema marcado pela santidade da propriedade privada, ninguém sabe quem é o dono do vírus. Quem é o seu vil proprietário e responsável? Dizem que é coisa do demônio e não seria difícil, usando o mesmo argumento, dizer que é um castigo divino. 

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Se o caos é aquilo que nenhum sistema social pode aceitar, como lidar – neste mundo no qual pensamos saber tudo – com essa cruel surpresa sem apelar para o idioma moralista, cujo risco é promover uma pandemia de idiotices, como é o caso das teorias conspiratórias, típicas de sociedades fortemente aristocráticas e personalizadas nas quais o rei, os ricos, os bem-sucedidos e os conservadores e comunistas seriam os responsáveis por suas pragas. 

Ora, transformar a peste em praga é um assunto sociológico importante porque a peste é aleatória e a praga, sendo rogada, é intencional.

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O momento da peste produz referências óbvias ao livro de Albert Camus, A Peste, cuja leitura é escassa porque hoje os celulares – esses avatares da ignorância das letras – bloqueiam comodamente qualquer esforço maior de entendimento pela escrita. A tela impessoal não se abre como as páginas de um livro as quais, ao contrário, precisam de luz e se deixam possuir pelas mãos de quem nelas entra e vira leitor. As telas planas e lisas que não rasgam, mas quebram, são duras como as de uma televisão. Mas não são abrangentes como as de um cinema ou frágeis como as de um teatro. O celular permite uma solidão relativa e esse estado de espírito dificulta a concentração requerida pela leitura que exige solidão e isolamento.

As bibliotecas pediam um “silêncio” que elimina a falação ou a gritaria como pragas. Como algaravia que promove um pobre entendimento pelo excesso de comunicação. Num celular, você tem a (des)vantagem de estar falando e, ao mesmo tempo, recebendo mensagens que dividem sua atenção.

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Em plena quarentena, revejo um livro que me marcou profundamente: A Montanha Mágica, publicado em 1924 e escrito por Thomas Mann. Eis uma novela que, pelo poder de sugestão do seu título, é tão falada quanto pouco lida. Revejo suas passagens porque ele fala da ironia da visita de um jovem engenheiro, o herói Hans Castorp, a seu primo Joachim em um sanatório de tuberculosos isolados precisamente pela possibilidade de contágio de uma doença então incurável. Tempo, espaço e diferenças são destacados. Hans pretende ficar 7 dias, mas se descobre igualmente doente e termina permanecendo no isolamento coletivo por 7 anos! Ao final de seu entendimento de que a doença resulta de quando o corpo fala mais alto do que a alma e, após anos de aprendizado ideológico com Settembrini, Naphta e Peperkorn – e de amor com Clawdia –, ele deixa a montanha fora do mundo para entrar na cruel realidade de outra praga: a guerra. Essa peste para a qual até hoje não temos remédio ou cura. 

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Em profundo isolamento, escrevo essa crônica me acomodando aos desenganos do mundo.

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