Prada, uma grife de valor

A crise econômica que dominou e ainda domina o cenário internacional pode ter afetado a Prada, mas não a venceu. Pelo menos é o que se conclui com a recente e luxuosa publicação de Prada, um impressionante livro de 708 páginas, que recupera momentos marcantes da história de umas das maiores e mais influentes grifes do mundo. No comando, Miuccia Prada e o marido e CEO do grupo, Patrizio Bertelli.

Eva Joory, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Além de um olhar sobre a trajetória da marca, que começou criando malas e acessórios de viagem em 1913, o livro pretende mostrar que a Prada faz de tudo virar tendência, sem ter os olhos voltados unicamente para os seus cabides. Lançado em grande estilo no fim do ano passado, o livro aborda a moda de uma maneira mais intelectual. Nele, não cabem só as modelos famosas, as coleções, as roupas ou os acessórios. Porque na cabeça de Miuccia, a moda está interligada com todas as formas de arte, com arquitetura, design, filosofia, ciência e design.

Não se trata de intelectualismo de vitrine. Na verdade, a formação ideológica da sra. Prada tem raízes no comunismo italiano. Formada em ciências políticas, sua juventude, foi dedicada à militância no célebre PCI. Mas nem por isso abandonou um desejo muito particular de criar utopias através da moda e da arte.

No prefácio, Miuccia e Bertelli explicam: "Observação cuidadosa e curiosidade sobre o mundo, sociedade e cultura estão no centro da criatividade e da modernidade da Prada. Essa busca levou a marca para fora das limitações das butiques e showrooms, e provocou uma interação com mundos distantes, introduzindo novas maneiras para alcançar uma moda mais natural, quase fora de moda."

Quando assumiu a direção dos negócios em 1979, Miuccia realizou mudanças radicais. Seu objetivo? Atingir um nicho de mercado frequentado por mulheres inteligentes, cultas e ousadas. E, com o lançamento do livro reafirmou o compromisso de levar um pedaço da fascinante história da Prada e o seu processo criativo a um público cada vez maior. O livro propõe uma viagem por dentro das grandes campanhas de moda, celebra parcerias com fotógrafos e diretores de arte, e reúne, em imagens belíssimas, todos aqueles acessórios, objetos de desejo inesquecíveis. Entre seus colaboradores mais frequentes estão Steven Meisel, David Sims, Glen Luchford e Hedi Slimane, responsáveis por grandes campanhas.

Depois de três décadas de sucesso, a grife volta-se para o futuro, com apostas altas. Mais do que simples butiques, quer espalhar pelo mundo os seus "epicentros". O que vêm a ser? Epicentros são lojas-conceito. A ideia é que eles sejam, ao mesmo tempo, típicos e únicos, e que funcionem como vitrines conceituais.

Amiga e admiradora do arquiteto Rem Koolhas, Miuccia entregou a ele os projetos dos epicentros de Nova York, Los Angeles e São Francisco. Com a dupla Herzog & De Meuron ficou o projeto da loja-conceito de Tóquio.

Lojas verdes. Dividido em duas partes, o livro guia os leitores pelo mundo Prada, de tal forma que é possível penetrar no interior do que acontece na empresa e entender, por exemplo, o porquê de as lojas terem uma cor única - são todas verdes. Ou então saber detalhes da criação da Fondazione Prada, um projeto filantrópico destinado a exibir e discutir todas as formas de arte e muito mais.

Na primeira parte (Inside), encontram-se uma breve história da marca, suas origens, os acessórios, todas as coleções (femininas e masculinas desde 1988, ano da primeira), as lojas, as campanhas e o conceito dos epicentros. Lá também, os grandes ensaios de top fotógrafos como Albert Watson, incumbido de interpretar a companhia em fotos clássicas e sofisticadas, em preto e branco, além das imagens dos filmes publicitários em parceria com o diretor Ridley Scott.

Na segunda parte, Outside, os clássicos atemporais, a opinião dos blogueiros, as celebridades que vestem Prada (e são muitas), a integração com os esportes e as grandes exposições dedicadas a registrar, em fotos absolutamente reveladoras, as realizações e conquistas da marca pelo mundo.

Ficou a cargo do escritório nova-iorquino 2X4 o design do megalivro, em cuja capa sente-se a elegância do clássico e tradicional couro Saffiano, obrigatório nas linhas de acessórios.

Apesar do apelo histórico, Prada não é uma retrospectiva da marca. A rigor, celebra o constante olhar de Miuccia para o novo. É, como seus idealizadores preferem explicar, um livro sobre o futuro e sobre o que ainda pode ser feito pela grife. Alguém duvida?

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