Praça de Alim... ah, esquece. É bandejão mesmo

Uma "hippie" de vestido longo com estampa de borboletas gigantes, óculos Rayban clássicos e Havaianas cor de rosa checa os fios lisíssimos da progressiva, enquanto olha com contrariedade para o céu de nuvens escuras. "Tá começando a pingar, Rick", diz para o namorado sarado, descamisado e tatuado, que caminha a passos largos dentro de um bermudão branco de cós baixo.

, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

O casal segue com um grupo de semelhantes pela estrada que vai dar na praça de alimentação (eufemismo para bandejão). "Ah", diz Rick. "Se não chove em um show desses não tem graça."

"Não gostei de nada" O bandejão está equipado com muitas mesas de fórmica, uma bancada longa de pratos quentes e um balcão de salgadinhos. A atmosfera é a de um restaurante na beira da Dutra. Abrigada da chuva (que nunca caiu), a namorada de Rick parece mais tranquila em relação aos cabelos, mas não em relação ao cardápio. "Ai, Rick, não gostei de nada. Bom, é até melhor: como só salada", diz ela, logo depois que um ajudante de cozinha despeja uma bacia de arroz em um dos recipientes de metal da bancada.

Na fila, dois chineludos vestindo bermudões e camisetas com estampas de rock olham para o bufê sem conseguir decifrar o que está à frente. "É manjubinha, velho", diz o primeiro, cutucando com o garfo a escama oleosa de um peixe. Ele pega um. Devolve. Acaba se servindo de arroz, feijão e ovo cozido. O outro enche o prato de macarronada.

Três cariocas com camisas do Botafogo cantam alto a clássica Mrs. Robinson, de Simon e Garfunkel, na varanda coberta que ladeia o salão principal. "Meu pai adora eles, tem o CD, ouço isso o dia inteiro. Pior que meus amigos agora sabem as músicas de cor", conta o estudante de agronomia Cláudio Toledo, de 24 anos, apontando para os outros dois. Cláudio diz que tem uma banda de "rock urbano."

Bíceps e progressiva. A três mesas dali, um quarentão acompanhado de uma loura bem mais jovem do que ele folheia o guia com a programação do festival. "Gosto do Capital Inicial, mas o line up de segunda está melhor, tem Pixies", diz o empresário Osvaldo Mateus, de 58, que veste um casaco de couro com a língua dos Rolling Stones aplicada na altura do peito. "Viajamos pra todo canto de moto. Ponho ela na garupa e vou", diz Mateus, fazendo um gesto com a cabeça na direção de Paula, de 44. Ela endireita a frente única. Rick e a namorada terminaram de almoçar. Ela se levanta, vai até a geladeira de sorvete e olha. Faz uma pergunta. Apesar de levá-la pela mão, Rick não ouve. Sem procurar disfarçar, olha para o próprio bíceps. Ela passa a mão na progressiva.

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