PRA VIAGEM SAI DO NINHO E PÕE KIKA PARA VOAR

Um show aqui e acolá, um disco na rede e Kika começa a sentir os primeiros efeitos de uma fama tardia. O despojamento ainda é desconcertante. Não há nenhuma cerimônia para falar com ela, que sempre 'se escondeu' em formações que não ostentavam seu nome em primeiro plano. Não fosse pelo boca a boca dos amigos e a repercussão orgânica de um trabalho surpreendente, o som de Kika talvez ainda vagasse em circuitos restritos. Pra Viagem começa a sair do ninho.

EMMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h13

Na busca por um primeiro referencial, há uma evidência que lembra o desabrochar da cantora Céu: os beats da Jamaica. É um pop de texturas e timbres de escolas que fogem aos cânones da música brasileira. Além do reggae e uma atmosfera retrô, se percebe uma predileção pelo rock sessentista e o groove do afrobeat. Em sua arte mimética, Kika recorre a um passado distante para explicar sua sonoridade. "Em casa, ouvia Beatles e tropicalismo, coisas que conseguia tocar no violão, referências desde a adolescência."

A fidelidade às suas preferências estéticas acabam por maquiar uma formação que pouco tem a ver com o pop forjado pela artista. Kika vem do erudito: fez parte do Coral da USP como contralto e cursou a faculdade de música da Unesp. A partir de uma rejeição consciente, se viu impelida a buscar a própria identidade. "Não me acreditava cantando sozinha, por conviver com um nível musical muito erudito e também com a produção de músicos como Yamandú Costa e Arismar do Espírito Santo. Eu pensava: 'Isso não vou conseguir fazer'."

Num certo sentido, ela até conseguiu. Com duas amigas, manteve por alguns anos o grupo vocal Trilha, entre a tradição renascentista e a música brasileira. Sua epifania artística, porém, veio mesmo da absorção de outras linguagens, em especial o teatro. "Aí vi que a arte era um monte de coisas, e não só o erudito."

Kika, então, foi encontrar seus pares. Tocou em uma série de bandas antes de assumir uma carreira solo. O Argamassa foi a principal delas, por estar mais próximo do DNA de sua produção e pela aproximação com músicos como o baterista Décio7, fundador do grupo instrumental Bixiga 70 e um dos produtores de Pra Viagem. A ideia de reunir as próprias composições num disco ganhou corpo com a aquisição de um computador, que deu vazão às primeiras bases de um futuro trabalho autoral. O esquema caseiro dominou as primeiras investidas, até que ficou pronto o estúdio Traquitana, no centro de São Paulo. A partir daí, Kika não tinha mais desculpas: precisava registrar aquele turbilhão de ideias em ebulição.

Disponível para download gratuito, o álbum foi lançado no segundo semestre do ano passado. São apenas 26 minutos, em oito faixas. "Fiquei enjoada de discos compridos", conta. O baixista americano Victor Rice, do coletivo de reggae Easy Star All Stars, assina quatro faixas. Essa ponte de caráter internacional permitiu que um dos integrantes do grupo Antibalas, o organista Victor Axelrod, participasse de uma das músicas (De Passagem). O forte elenco ainda conta com nomes como Guilherme Held, Kiko Dinucci, Dustan Gallas, Marcelo Dworecki e a cantora Anelis Assumpção, presente na faixa de abertura, O Pulso. O repertório traz uma "parceria" com Paulo Leminski (1944-1989). Kika musicou o poema Amor Bastante. "Fiz para minha filha. Achava que era um jeito de definir a paixão de quando você vê seu filho pela primeira vez, é o momento crucial do amor", destaca.

Kika diz que o título, Pra Viagem, nasceu na fase de mixagem e está ligado à ideia de descobrir uma canção de múltiplas camadas. "Em um disco do Kinks ou dos Beatles, mesmo tendo ouvido umas 200 vezes, você sempre pesca algo novo. E é isso que estou homenageando."

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