Pra quem acha que sabe da noite

Quem não gostaria de ter a fórmula secreta da noite ideal?! Então hoje é seu dia de sorte, pode anotar. Pra ser boa, uma noitada precisa ter os seguintes elementos: muita mulher bonita, um mix de público que inclua empresários, jornalistas, artistas, gays e algumas "profissionais da noite". O som deve ser tocado num volume que permita que se converse, e a música precisa ser excitante, com ginga. Nada de quebra-quebra.

Cláudia Assef e Eletrônica, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2010 | 00h00

Posso garantir que essa receita é quentíssima porque me foi cantada por Ricardo Amaral, um dos empresários que mais conhecem sobre vida noturna no planeta Terra. Este paulistano com espírito carioca acaba de lançar Ricardo Amaral Apresenta: Vaudeville - Memórias (editora Leya, 508 páginas, R$ 49), um livro que qualquer baladeiro, boêmio ou apenas fã de boas histórias deveria ler.

Em seus 40 anos de noite, Amaral viu de tudo um pouco e no livro conta de forma deliciosa boa parte do que viveu e presenciou. Se você acha que já fez e viu de tudo na noite, vai ficar de quatro quando ler algumas das histórias que estão nessa colcha de retalhos da boemia brasileira, com incursões por Nova York, Paris e Londres, com direito a detalhes da intimidade de príncipes, divas, DJs, mafiosos, políticos, artistas, prostitutas e vários figurantes da noite.

Para quem nunca ouviu falar de Ricardo Amaral, um resumo. Antes de completar 18 anos, Amaral já trabalhava como colunista social numa redação, tendo como grande paixão desde cedo a noite e seus personagens. Já como promotor de festas, no fim dos anos 50, organizou bailes de debutante, como o da então moçoila Marta Smith de Vasconcelos - que mais tarde se tornaria sexóloga e política conhecida pelo sobrenome do primeiro marido, o senador Eduardo Suplicy, com quem dançou naquela noite.

Mas foi como dono de casas noturnas que Amaral escreveu seu nome na noite. Ele foi proprietário do primeiro clube privé do País, o Hippopotamus, que depois da estreia glamourosa em São Paulo teve filiais em Salvador e no Rio. Em 1977, Amaral abriu o Papagaio Disco Club, que inaugurou no País o conceito de discoteca - antes não existia isso de pagar um ingresso na porta, tampouco o conceito de uma casa noturna específica para se dançar, sem mesas nem cadeiras. Depois de arrebentar no Brasil, Amaral ainda se meteu nas concorridas noites de Nova York (com o Clube A) e Paris (o Le 78).

Isso sem falar que ele foi o primeiro cara a apostar na importância dos discotecários, como eram chamados os DJs até o fim dos anos 70. É tanta história que melhor irmos logo à entrevista que fiz por telefone, com esta que é uma das maiores memórias - apesar do companheiro "uisquinho" - da noite do Brasil.

Redes sociais, música eletrônica, DJs que viraram celebridades... Como a noite brasileira foi afetada por todas essas novidades?

Mudou tudo na noite. Nos anos 60, 70, 80, a noite era mais exclusiva, pra pouca gente. As pessoas que frequentavam a noite tinham nome e sobrenome. Você conseguia mapear exatamente quem estava numa casa noturna. A noite foi se popularizando e se diversificando. Antigamente, qualquer grande cidade tinha sempre um ou dois lugares de sucesso, no máximo. Imagina hoje, tem uma infinidade e com tribos diferentes. A música eletrônica, que trouxe grande mudança no comportamento das pessoas, só pôde acontecer por causa de uma grande evolução dos equipamentos de som. A noite hoje é mais juvenil do que era e se segmentou. Ela tem poucas referências à noite do passado. Mas acho que há espaço para uma volta do glamour, tenho percebido alguns lugares charmosos, que vêm apostando nisso.

Você foi um dos primeiros incentivadores do culto ao DJ?

Fui o primeiro a dar uma dignificada no DJ e o transformei no cara mais importante na hierarquia da noite. No Hippo, por exemplo, o truque era pôr o DJ logo na entrada da casa. Assim, quem entrava logo o via. Mas, na verdade, o ganha-pão do DJ no passado eram aquelas fitas cassete, vendidas nas boates. Era com isso que ganhava grana, porque um DJ fazia tipo R$ 100 por noite, isso os melhores, hein! Hoje em dia isso mudou completamente!

Quais foram os melhores DJs que já trabalharam para você?

O nome que revolucionou tudo foi o Ricardo Lamounier. Até ele chegar, o DJ era discotecário. Foi o primeiro sujeito que apareceu com a mixagem no Brasil. Foi um visionário! Tem um discotecário por quem tenho especial carinho, o Jacaré. Hoje em dia, ele vive fazendo casamentos. Um dia, fui a uma fazenda em Campinas e lá estava ele tocando. Tocou em Nova York, no Clube A, pra mim. Depois, no Regine"s, em Paris. E tudo isso sem falar nada de inglês! Outro cara importante foi o Rodrigo Vieira, que hoje trabalha para a Sony. Ele vai fazer pra mim a Feijoada do Amaral, que faço todos os anos, mesclando samba com um molho eletrônico. Também teve o André Werneck e o Ricardo Araújo, que considero a cara do Hippopotamus até hoje. Outro que começou comigo e ficou muito conhecido foi esse menino Zé Pedro.

Como um brasileiro se enfiou na noite de Nova York no auge da disco music?

Isso foi produto da ousadia. Nova York não é uma cidade americana, é de forasteiros, então não foi tão difícil, não. É uma longa história, que tentei contar no livro.

Qual foi a mudança mais brutal na noite nesses 40 anos?

O segredo de qualquer exercício de boemia é a conversa. E hoje é muito difícil conversar, né? A noite é baseada em ver, ser visto, falar e dançar. Agora a parte de ver e ser visto ficou mais ou menos, porque a luz não mostra com muita fidelidade. Sobrou dançar. O processo de sedução ficou mímico. Perdeu a graça da conversa. Os grandes sedutores agora são os melhores mímicos. Antigamente, eram as melhores conversas que levavam a melhor.

Quais foram as maiores referências para criar as suas noites?

Vai ser difícil você encontrar outra pessoa que tenha vivido tão intensamente a noite como eu vivi. Do fim dos 50, 60, 70, 80 até os 90, saí muito, Roma, Paris, Londres, Ibiza, Saint-Tropez, enfim, sempre viajei muito pra ir sacando as coisas. Pra mim, os grandes marcos foram a Infinity, em Nova York; depois, o Clube 54, um marco. Ainda em Nova York, teve o Cheetah. E ainda os clubes privados Annabel de Londres, Castel, de Paris, New Jimmy, de Monte Carlo, e o Le Club, de Nova York.

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