'Pra Nhá Terra' traz meninos do Jequitinhonha ao palco

Peça emocionante reúne 31 meninos de Araçuaí, que ganharam projeção nacional com 'Ser Minas Tão Gerais'

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

26 de junho de 2008 | 17h11

Os 31 meninos de Araçuaí, cidade do Vale do Jequitinhonha, enfrentaram uma viagem de ônibus de 24 horas para chegar até a capital paulista. Pensa que ficaram exaustos? "Eles chegaram agorinha mesmo, com a cara melhor do mundo. Estão numa felicidade danada de vir para São Paulo de novo", contou Regina Bertola, diretora da companhia teatral Ponto de Partida, na quarta-feira, 25, à noite, para a reportagem do Estado.  Veja também:Ouça trecho de 'Ipê Amarelo'   Esses meninos são aqueles mesmos, talentosos, com idade entre 7 e 19 anos, que ganharam projeção nacional - e internacional - no belíssimo espetáculo Ser Minas Tão Gerais, com a participação de Milton Nascimento, todos a convite do Ponto de Partida. Não só alcançaram o Champs-Elysées, em Paris, como foram ovacionados por todo o teatro ao fim da única apresentação, ocorrida em 2005. Mas a história do coro é um pouco mais antiga que isso. Ela começou há exatamente um ano, como parte do Projeto Ser Criança, idealizada pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), de Belo Horizonte, ONG fundada em 1984. Tião Rocha, o homem que não desiste da utopia, sempre acreditou que a cultura fosse o instrumento mais adequado à transformação social. Em 1998, chamou a companhia teatral de Barbacena para desenvolver um trabalho de expressão artística entre esses meninos. E, desde então, essa união especial nunca mais se desfez: em 1999, lançaram o espetáculo Roda Que Rola; em 2001, participaram do Cortejo de Reis por cidades mineiras; em 2002 iniciaram a montagem de Ser Minas Tão Gerais; em 2003, de Santa Ceia; em 2005, a conquista da França e a produção do CD O Menino e o Poeta. Com a venda desses CDs e de ingressos para os espetáculos, os meninos conseguiram arrecadar R$ 40 mil. "Eles me perguntavam o que fazer com esse dinheiro. E eu respondia que o dinheiro era deles, eles poderiam fazer o que quisessem com ele. Poderiam muito bem ter dividido esse valor entre todos, o que daria cerca de R$ 1 mil para cada um. Mas eles decidiram fazer um orçamento participativo com toda Araçuaí", contou Tião Rocha, fundador do CPCD. Entre as mais de 40 propostas levantadas, a vencedora foi a construção de um cine-teatro, inaugurado em março deste ano lá em Araçuaí, cidade de 40 mil habitantes, a 678 km da capital mineira. Para comemorar a conquista, eles exibiram o seu mais novo espetáculo, Pra Nhá Terra, que agora chega pela primeira vez à capital paulista para somente duas apresentações. "Temos o apoio da Lei Rouanet e o Banco Real, através do Real Tokio Marine - Vida e Previdência, está patrocinando esta nossa vinda a São Paulo", conta Regina. "O custo é muito alto, por isso só nos apresentaremos dois dias. No total, são 50 pessoas no palco, contando com os meninos e o elenco do Ponto de Partida." Cinqüenta pessoas que se transmutam em seres da natureza, como Artêmis, a guardiã da floresta, e Zéfiro, o guardião dos ventos, todos trabalhadores de Nhá Terra. Sem didatismo ou moralismos, o espetáculo é entremeado por canções originais do Ponto de Partida (uma, inclusive, composta e cantada pelo padrinho dos meninos, Milton Nascimento) e por um riquíssimo enredo montado sobre poemas do mato-grossense Manoel de Barros, da simplicidade e profundidade de: "Eu penso em renovar o homem usando borboletas." A narrativa inicia-se com uma reunião dos guardiães de Nhá Terra, que lamentam a devastação cruel sofrida até o momento e propõem soluções para contê-la. Boiúna, a guardiã das águas, constata a incontrolável poluição de seus leitos: "Minha alegria ficou sem voz. As águas já não têm sotaque azul. Elas estão corrompidas por milhões de toneladas de lixo. Perdão, Nhá Terra." Um grupo de jovens estudantes, acompanhados de seu mestre, estão na mata e tomam um grande susto quando se deparam com a natureza humanizada. E decidem ajudar nessa luta em que é necessário "ter olhos de ver", nas palavras da sábia Nhá Terra. Para rir, chorar e transformar.   Pra Nhá Terra. 70 min. Livre. Teatro Alfa - Sala A (1.118 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, telefone 5693-4000. Sáb., 20 h; dom., 18 h. R$ 30

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